quinta-feira, 30 de setembro de 2010

EM DEFESA DA ASTROLOGIA


Pitágoras, no século 6 AC, fundou uma escola filosófica que preconizava os números como representação da estética universal, uma ponte entre a razão humana e o mundo natural. Segundo os pitagóricos, tudo podia ser representado por números, sendo o papel do filósofo descobrir as relações secretas entre eles e a natureza. Os pitagóricos criaram a noção de harmonia para representar o estado de transcendência que é atingido quando nossas aspirações estéticas, manifestas por meio dos números e suas relações, encontram ressonância no mundo real. Ordem, beleza e simetria são unificadas em uma experiência que une o místico ao intelectual. Essa busca pelo que é tanto racionalmente belo quanto relacionado com uma descrição do mundo real é o que inspira grande parte da obra científica tanto no passado quanto hoje. Nós, como os pitagóricos, também celebramos a harmonia dos números na descrição científica da natureza.

MARCELO GLEISER

A Astrologia e o preconceito existente

O tema astrológico é um tema de grande popularidade, presente na seção de horóscopos de todo e qualquer jornal ou revista. No entanto, por maior que seja a sua popularidade, vale a pena atentar para o fato de que toda discussão a respeito deste assunto tem se mostrado bastante superficial e leviana, impedindo que o debate progrida e chegue a um bom termo. Aliás, para a maioria das pessoas, sejam estas letradas ou não, toda a análise que se poderia fazer a respeito deste assunto já foi feita, dando-o por liquidado, quando, na realidade, há muito ainda que se discutir sobre este tema. Ou pior: talvez ele sequer tenha sido discutido de maneira intelectualmente honesta e responsável.

Dizem que um dos motivos fundamentais pelo qual o ser humano se lança no desconhecido e procura desvendá-lo é a necessidade inalienável do seu espírito pela verdade ou por um pouco mais de luz. Parece, assim, que a única coisa capaz de sossegar a mente humana reside na possibilidade de alcançar uma clareza sobre os fatos e os fenômenos que a cercam – uma clareza, se não absoluta, pelo menos razoável. Mas alcançar clareza e certeza sobre as coisas não é nada fácil: elas são elaboradas às custas de muitas dúvidas, e estas, nem sempre, são enfrentadas com paciência e rigor. Aliás, muitos homens que se consideram “homens do saber” não enfrentam as dúvidas com honestidade intelectual e, diante da sua enorme impotência mental perante o desconhecido, formulam uma certeza às pressas, completamente arbitrária, acreditando que assim chegaram a única conclusão a que se poderia chegar.

Devemos considerar que estes “homens do saber” talvez se esquivem da causa pela qual dizem trabalhar e, deixando de enfrentar as enormes incertezas e contínuas críticas e revisões que a tarefa intelectual exige, acabam construindo teses e teorias em que jamais há a marca da autêntica universalidade: daquela universalidade contemplativa, onde se vislumbra de uma só vez a coerência, a harmonia, a integridade e a visão de conjunto. Aliás, sem este nível de universalidade que eleva nossa inteligência acima das incertezas, continuamos imersos nos fatos variados e múltiplos que ofuscam nossa capacidade de interpretação e nos levam a elaborar teorias fragmentadas e vazias, maculadas pela visão e pela opinião pessoal. Deveríamos inclusive nos lembrar das advertências de Max Weber ao dizer que “se o cientista topa com fatos que não pode explicar com os meios atuais da investigação científica, não lhe cabe negá-los em nome seja do que for, ou ignorá-los, ou relegá-los à esfera da superstição[1]”.

Por isso, antes de levarmos em consideração as objeções e os elogios fanáticos que geralmente são feitos com relação à Astrologia - ou contra qualquer outro assunto – deveríamos investigar todas as suas implicações, sobretudo as de ordem histórica, antropológica e filosófica, verificando assim sua possível legitimidade e valia. Quem sabe uma investigação de tal porte esclareça alguns de seus pontos obscuros, vítimas freqüentes de preconceitos.

Astrologia: uma cosmovisão

A antiga divisão do universo num desenvolvimento objetivo no espaço e no tempo, por um lado, e numa alma que reflete esse desenvolvimento, por outro, já não serve para ponto de partida caso se queira compreender as ciências modernas da natureza. É, antes de tudo, a rede de interligações entre o homem e a natureza o objetivo central da ciência.

WERNER HEISENBERG

O tema astrológico nunca passou ao largo do corpo de conhecimentos e dos interesses humanos como parece. Afinal, o entendimento de si mesmo bem como do que existe em torno sempre foi - e continua sendo - a mola que impulsiona a inteligência dos homens. Não é à-toa, pois, que este tema apareça equacionado de diversas maneiras em discussões que, aparentemente, não tem nada de astrológico.

O tema astrológico - para enfado de uns e para o histerismo de outros - é um tema que está inextricavelmente associado à idéia que o homem sempre nutriu sobre o lugar da espécie dentro do cosmos, e isto nas mais diversas épocas e civilizações. Ao longo dos séculos, o ser humano sempre tentou compreender melhor a si mesmo e o mundo que o cerca e cada época da história ficou caracterizada por elaborar este entendimento de um modo muito particular. Cada época, a seu modo, teve o que chamamos de cosmovisão: um modo muito próprio de compreender não só o Homem e a Natureza mas também a Deus.

Esta cosmovisão se encontra boa parte das vezes personificada na concepção que o homem nutriu e formulou sobre o cosmos e o mundo: não é a toa que a Astronomia figure como uma das ciências que primeiro se desenvolve e alcança rapidamente sua perfeição, e isto em quase todas as civilizações. De certo modo, o conhecimento da natureza e da estrutura do cosmos, sobretudo dos astros, dava ao homem a imagem necessária do cenário onde se desenrolava a sua vida. Desde a Antigüidade até a Idade Média, compreendia-se que o mundo estava estruturado e organizado em três níveis ou dimensões, a saber:

1. a dimensão física ou natural
2. a dimensão humana
3. a dimensão sobre-natural ou meta-física

Esta cosmologia tinha sobretudo uma característica: estabelecia um hierarquia entre a dimensão física e metafísica, isto é, entre o plano inferior e superior, entre o mundo sensível e inteligível, entre a Natureza e Deus, tendo, no centro, o Homem. Esta hierarquia não só determinava tudo o que podia ocorrer em cada uma destas 3 dimensões mas, também, a maneira específica como cada uma poderia ser conhecida: das alturas do plano superior até a base do plano inferior, estabelecia-se uma via de mediação por onde o infinito tocava e conhecia o finito e por onde o finito tocava e conhecia o infinito também. Era por essa via de mediação que Deus tocava e conhecia o Homem, assim como o Homem tocava e conhecia Deus. Mas, para que isso ocorresse, havia toda uma trajetória, todo um percurso que ora era realizado num salto único e súbito e ora era realizado passo a passo, numa seqüência sujeita a leis bastante rigorosas.

Desse modo, o mundo era concebido como uma esfera fechada em si mesma, no interior da qual tudo se processava: do divino e imóvel motor do universo até o mundo sublunar, partia a força que agia sobre sucessivas camadas, se propagando numa seqüência contínua e ordenada. Por maior que fosse a distância entre o começo e o fim deste processo, tudo era compreendido e explicado por se conceber o cosmos como um todo fechado devidamente organizado e hierarquizado.

É tendo esta cosmologia como pano de fundo cultural que a Astrologia se sustentou e aflorou ao longo dos tempos, ora em sua versão doutrinal e mística, revelando o aspecto propriamente primitivo e original de adoração e revelação dos Céus, e ora em sua versão racional, revelando o aspecto propriamente astronômico e matemático deste saber que acabou atravessando toda a Idade Média como um princípio de inteligibilidade do Mundo, isto é, como um modo de compreender tanto a existência humana quanto o mundo em torno, tal como Ernst Cassirer explica em seu monumental livro O Indivíduo e o Cosmos na Filosofia do Renascimento[2]. A despeito das tremendas disputas dialéticas que se travaram sobre o tema astrológico em plena Idade Média, ainda assim ela pode continuar incólume como princípio de conhecimento do mundo que entendia e interpretava, num só golpe de olhar, o lugar que cabia à Natureza, ao Homem e a Deus.

O próprio Dante Alighieri a admitiu neste sentido. Em sua obra chamada Convívio[3] ele nos revela um sistema completo de conhecimento que corresponde ponto por ponto ao sistema astrológico. As sete ciências do Trivium e do Quadrivium - que compunham o sistema pedagógico chamado de Artes Liberais - eram associadas explicitamente às sete esferas planetárias, deixando entrever que um possível processo tanto de ascese espiritual quanto de formação intelectual se dava quando o indivíduo cumpria gradativamente as exigências contidas em cada uma destas sete ciências, e quando no final se compreendia todos os mistérios que se encontravam escritos no livro celeste.

Neste sistema, a Astrologia aparece por último, como que coroando as outras disciplinas que se propunham, todas, a levar o indivíduo a elaborar paulatinamente a totalidade da experiência de uma maneira em que ela se tornasse compreensível. Na história da cultura ocidental esse sistema existiu, quase sem interrupções, desde a Antigüidade até a Idade Média, se tornando o berço e a fonte de onde nasceram quase todos os conhecimentos mais significativos da nossa cultura:

AS ARTES LIBERAIS

ciências do trivium

Gramática: disciplina que levava o indivíduo a perceber a base material em que se constrói o discurso e que lhe dá um corpo ( como, por exemplo, no estudo dos sons das palavras e - ainda em algumas culturas - da imagem das letras), demonstrando dessa maneira o elo existente entre a dimensão física e a dimensão lingüística e simbólica;

Retórica: disciplina que levava o indivíduo a perceber que há diversas e variadas maneiras de causar uma comoção e uma reflexão no outro, estimulando-o a participar também da experiência do conhecimento, se deparando, assim, com o fato de que a dimensão metafísica deve ser apreendida por cada inteligência em particular, demonstrando dessa maneira o elo existente entre a inteligência particular e a alheia;

Lógica: disciplina que levava o indivíduo a perceber uma certa exigência que move forçosamente o raciocínio numa direção específica, impulsionado pela necessidade de desenvolver uma síntese cada vez mais abrangente dos fatos e que lhe coloca na condição de participar, em níveis e graus variados, de um plano superior, demonstrando dessa maneira o elo existente entre a dimensão cognitiva e a dimensão metafísica, isto é, entre a inteligência individual e uma certa inteligência universal, o Logos.

ciências do quadrivium

Aritmética: disciplina que levava o indivíduo a perceber não tão somente o número pela sua característica quantitativa visto que, para que as coisas sejam várias e possam ser contadas, elas têm que ser necessariamente uma, isto é, ter unidade, revelando então o caráter essencial e substancial das coisas existentes, a sua estrutura elementar, demonstrando que tudo é o que é por possuir uma “misteriosa” força de unidade e integridade que faz com que as coisas se apresentem e sejam desta maneira - e não de outra. A aritmética era, antes de tudo, um estudo das identidades.

Geometria: disciplina que levava o indivíduo a perceber como as unidades se distribuem ao longo do espaço e o ocupam, demonstrando que as idéias de proporção (da dimensão espacial) bem como as de perspectiva (da direção espacial) eram desenvolvidas com o fim de estabelecer o equilíbrio e a harmonia espacial.

Música: disciplina que levava o indivíduo a perceber como as unidades se manifestam ao longo do tempo, isto é, o compasso de duração típico de cada coisa, revelando o ritmo sob o qual tudo se desenvolve, demonstrando que a idéia de melodia era desenvolvida com o fim de estabelecer o equilíbrio e a harmonia temporal.

Astronomia-Astrologia: disciplina que levava o indivíduo a perceber o laço existente entre as três noções anteriormente apreendidas, isto é, entre a noção de unidade, espaço e tempo, demonstrando que cada coisa, por ser o que é, se desenvolve ao longo de um tempo e ocupa um certo lugar que lhe são muito peculiares, revelando assim os laços e as relações existentes entre a estrutura elementar particular (o microcosmo) e a estrutura universal (o macrocosmo), permitindo descobrir a unidade dentro da diversidade, a ordem dentro do caos - tudo com o fim de estabelecer, digamos, o equilíbrio e a harmonia existencial. A Astrologia era a disciplina se ocupava com o estudo do significado do céu, enquanto a astronomia tratava somente do aspecto físico e descritivo deste mesmo céu, sem o seu conteúdo simbólico. A Astrologia era, antes de tudo, um estudo astronômico sobre o sentido e o significado de como todas as coisas estão arranjadas. A Astrologia, pois, não passava de uma astronomia significativa[4].

Estas 7 ciências levavam o ser humano a compreender as regras e as leis que se encontravam embutidas em cada um dos objetos estudados, e isto de um modo que no final se pudesse contemplá-las dentro de um único conjunto, personificado na Estrutura e Harmonia Celeste. Por isso, as Artes Liberais não compunham um simples agregado casual de disciplinas, nem mesmo uma combinação engenhosa de elementos díspares juntados tão somente em vista do desenvolvimento pedagógico a que se propunham. As Artes Liberais compunham um sistema, uma unidade dotada de coesão intrínseca, por mais que historicamente esta unidade se mantivesse velada e não fosse abordada textualmente de maneira explícita, e por mais que o conteúdo de uma disciplina nem sempre demonstrasse claramente a correlação existente com as outras, visto que, ora e meia, uma disciplina se tornava mais valorizada do que as demais, fazendo com que os laços existentes entre elas se tornassem mais tênues[5]. No entanto, tão íntimos e inextricáveis eram estes laços que se poderia dizer, sem exagero, que constituíam uma só ciência estudada sob sete aspectos diferentes, se tornando representativa não tão somente em cada uma de suas partes isoladas como também na estrutura do seu conjunto.

O resultado de tudo isso é a formação de uma cosmovisão bastante singular: uma espécie de astrologia escolástica ou de escolástica astrológica, em que a pedagogia da época[6] e a arquitetura das Igrejas[7] procuravam espelhar a proporção da estrutura celeste. Por isso, estudar a Idade Média se torna uma fonte vital para compreender os laços que uniram a vida do espírito à vida intelectual, e o status ao mesmo tempo paradoxal e soberano que a Astrologia alcançou como um sistema de conhecimento por esta época.

No entanto, é a partir da Renascença que se estilhaça o quadro com que tradicionalmente se compreendia e concebia as relações entre a Natureza, o Homem e Deus. A partir desta época, a cosmovisão reinante sofre uma mudança drástica, inaugurando uma nova cosmovisão e realizando, por isso mesmo, aquilo que se chama de mudança de paradigma: uma mudança no ato de ver, de pensar e compreender todas coisas. Ao longo deste período, vamos assistindo uma separação cada vez mais nítida e definitiva entre três dimensões que se encontravam até então entrelaçadas, inaugurando uma nova concepção de Natureza e de Homem que não só se sobressaía dentro da antiga cosmovisão mas que, também, ia engolfando e eliminando o lugar e o valor que Deus e os astros ocupavam dentro dela. É este episódio que marca uma ruptura definitiva com o Divino, com o plano metafísico e espiritual - um obscurecimento de todo o supra-sensível - com frisa o grande historiador do Renascimento Jacob Burckhardt no livro chamado A Civilização do Renascimento em Itália[8].

E é esta ruptura que vai determinando também a possibilidade da Natureza ser investigada independentemente de uma especulação mais filosófica, sem uma raiz metafísica que lhe investia de significado[9], estabelecendo um divórcio entre método experimental e mera especulação, ou seja: entre a futura ciência moderna e a filosofia. É esta situação que acabou colocando a prática à parte de toda e qualquer teoria – aquela teoria que originalmente significava contemplação.

A partir de então, o ser humano vai mergulhando cada vez mais a sua inteligência e o seu espírito na matéria bruta e informe, na Natureza, em busca de uma razão que antes era compartilhada com o próprio Homem e Deus. A partir de então, diante da sua inteligência, só existe unica e exclusivamente uma Natureza a ser investigada. Neste sentido, vemos que a inclinação à multiplicidade e heterogeneidade do mundo sensível e o esforço para compreendê-lo leva a criação do novo conceito de Natureza mas também ao novo conceito de Homem, que executa de maneira heróica este empreendimento, visto que se descobre com liberdade suficiente para conhecer o mundo por si próprio, através do seu gênio e da sua vontade, sem a intermediação de Deus ou dos astros.

Vemos, assim, que o “quadro de referência” com que se entendia e se interpretava todas as coisas até a Idade Média era de natureza cósmica, isto é, era do tamanho do cosmos[10] – e, dentro deste universo intelectual, a Astrologia se tornava um saber admissível justamente porque a estrutura cósmica era tomada como o modelo, a medida mesma e o critério de entendimento do mundo, se tornando o seu princípio de inteligibilidade. No entanto, tendo o “quadro de referência” mudado a partir da Renascença, isto é, tendo uma ruptura epistemológica se processado, não só o entendimento de mundo se alterou como também a Astrologia deixou de ser concebida como era: um campo do saber.

Se assim for, toda esta sucessão dos fatos indica algo muito mais grave: que a fragmentação da cosmologia que reinou até a Idade Média corresponde ipsis literis à fragmentação dos saberes, isto é, à impossibilidade de vê-los em conjunto, de forma panorâmica e integrada. Infelizmente, a expansão do conhecimento em todos os seus mínimos detalhes pode se dar a prejuízo e a custo do senso de unidade e do todo. É isto que talvez tenha ocorrido a partir da Renascença: enquanto as Ciências da Natureza e as Ciências do Homem passaram a se desenvolver e se sobressair, toda a moldura metafísica e espiritual na qual elas estavam inseridas foi perdida totalmente de vista, se tornando esquecida e, por que não dizer, soterrada. Formamos, nós modernos, uma sociedade e uma cultura cujos saberes não fazem sentido; estão esvaziados de uma significação última que se via até então resguardada pela plena soberania da dimensão metafísica e espiritual.

Toda esta problemática de ordem cultural aponta como solução a retomada do senso de unidade do Todo Cósmico e, por incrível que pareça, quando isto vier a acontecer, talvez a Astrologia se revele como uma grande chave para a compreensão desta problemática, visto que ela sempre vigorou como um princípio de inteligibilidade do mundo. Quando isto vier a acontecer, quem sabe se aquilate o verdadeiro lugar da Astrologia dentro da cultura humana e a importância inadiável de uma discussão mais profunda e séria sobre este assunto.

Ademais, a tentativa de ver toda a produção cultural humana dentro de um único conjunto não só coloca como centro de interesse supremo o entendimento do lugar do Homem dentro do Cosmos como também estimula e desperta discussões que aparentemente não têm nada de astrológico. É o que se pode observar na Carta da Transdisciplinaridade, adotada no Primeiro Congresso Mundial da Transdisciplinaridade, realizado em Portugal em novembro 1994, e redigida por Lima de Freitas, Edgar Morin[11] e Basarab Nicolescu. Alguns de seus artigos, se não são propriamente de natureza astrológica, são de uma investidura louvável:

"Artigo 8: A dignidade do ser humano é também de ordem cósmica e planetária. O surgimento do ser humano sobre a Terra é uma das etapas da história do Universo. O reconhecimento da Terra como pátria é um dos imperativos da transdisciplinaridade. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade, mas, a título de habitante da Terra, é ao mesmo tempo um ser transnacional. O reconhecimento pelo direito internacional de um pertencer duplo - a uma nação e à Terra - constitui uma das metas da pesquisa transdisciplinar;

Artigo 3: A transdisciplinaridade é complementar à aproximação disciplinar: faz emergir da confrontação das disciplinas dados novos que as articulam entre si; oferece-nos uma nova visão da natureza e da realidade. A transdisciplinaridade não procura o domínio sobre as várias outras disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa”.

Esta idéia de que há uma ordem capaz de englobar, num único conjunto, os conhecimentos de ordem natural, humana e religiosa é uma idéia propriamente astrológica, senão o seu fundamento. Afinal, qual dos saberes postula a existência de uma ordem que atravessa planos tão diversos, mostrando que há uma analogia e uma identidade de fundo que os iguala? Que saber é este?

Este saber é o saber astrológico.

A Astrologia e suas perspectivas futuras

Tudo isso leva a crer que a Astrologia seja exatamente isto: uma forma de conhecimento que se interpõe entre o Homem e a Natureza numa espécie de confronto especular, com a intenção de interpretá-los sob um mesmo parâmetro. Mas se pode parecer absurdo que o conhecimento astrológico tenha pretendido - ou realizado - isto, deve parecer igualmente absurda qualquer tentativa intelectual de encontrar um ponto de união entre as ditas Ciências Humanas e Naturais, tal como pretendem a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade. E isto porque a Astrologia foi, sem sombra de dúvida, a primeira forma de conhecimento interdisciplinar que o Homem concebeu - daí a sua complexidade. Anular o seu valor e o seu mérito é não reconhecer que aquilo que atualmente o Homem vem tentando conquistar no campo do conhecimento é idêntico ao que pelo menos foi concebido num passado remoto.

Por isso, o tema astrológico não é apenas um resíduo cultural e antropológico que a história possa atestar: é uma ambição intelectual do homem, sempre a ser escrita. E proscrita. E reescrita. Por isto é que ele não pode ser tratado de maneira leviana com vem sendo tratado. Ele não é apenas um tema do passado: é do futuro do Homem, de sua espécie, que procura entrever o lugar que lhe está designado no mundo pelo fato da estrutura cósmica ter estas características e não outras.

A Astrologia é a única disciplina que procura avaliar se há algum sentido entre o universo cósmico & humano, se há uma Razão Maior que rege a ambos. Por isso, somente quem descortina a envergadura do conhecimento astrológico poderá se dar conta do imenso trabalho que ela exige e vislumbrar que toda a sua arquitetura teórica tem a idade de uma civilização, forma de calendário e função de bússola, e que todas suas representações não passam de registros que testemunham os passos e descompassos da espécie humana em sua eterna dança.

Mas, infelizmente, quando o assunto é Astrologia, já se parte da premissa que não há nada de importante a ser discutido; sequer se vislumbra que o recente fenômeno social chamado de Globalização, a recente reestruturação da Geografia e o nível de especulação astronômica que alcançamos coloca a espécie humana frente a uma indagação muito mais ampla pois, se antes bastava saber o lugar do indivíduo na sociedade e depois, com o passar do tempo, se tornou necessário saber o lugar do indivíduo no planeta, resta talvez agora vislumbrar e saber qual é o nosso lugar dentro do espaço cósmico - o que suscita a importância do estudo cosmológico que, querendo ou não, retoma e ressuscita o tema astrológico.

Ademais, tanto a natureza quanto o ser humano sempre foram objetos e campos de profundo interesse e atenção, havendo, entretanto, um único conhecimento que ainda não foi levantado com a sua devida importância: aquele conhecimento que fala exatamente da relação do homem com o mundo e do mundo com o homem, levando isto a seus últimos termos e às suas últimas conseqüências que, de uma maneira muito grosseira, foi e é a tentativa da história e da sociologia e, muito mais recentemente, da ecologia. Num futuro talvez não muito distante, quem sabe tal tentativa chegue e alcance o limite do astronômico. Quando isto acontecer, estaremos inevitavelmente retomando o raciocínio astrológico.

Por isso, quando o Homem se perguntar seriamente sobre o seu lugar no universo e sobre o sentido da sua vida, talvez pare de mirar o céu de forma meramente poética e passe a levantar sérias questões que, para sua surpresa, já foram elaboradas em tempos remotos - mas que nunca tiveram continuidade e o seu devido respeito. E estas questões, queiramos ou não, serão de natureza astrológica.

notas:

[1] SOCIOLOGIA DE MAX WEBER, de Julien Freund, Ed. Forense, 1987.
[2] INDIVÍDUO E COSMOS NA FILOSOFIA DO RENASCIMENTO, de Ernst Cassirer, Ed Martins Fontes, 2001.
[3] CONVÍVIO, de Dante Aliguieri, Ed Guimarães, Portugal, 1987.
[4] durante a Idade Média, os termos astronomia e astrologia eram empregados indiferentemente para designar a mesma disciplina, muito embora já possuíssem conteúdos distintos e passassem a ser estudadas separadamente logo depois. Isidoro de Sevilha (560-635) foi o primeiro a empregar a distinção moderna entre os dois termos nas suas Etymologiae. Para entender o significado que cada uma dessas disciplinas tinha, devemos lembrar que o sufixo “nomos” se reporta às regras e as leis que regulam os fatos ou fenômenos enquanto o sufixo “logos” se reporta a razão ou ao princípio supremo que a tudo engloba e dá sentido - de onde se subentende que a astronomia era a ciência que estudava as leis que regulam os astros, enquanto a astrologia era a ciência que estudava o sentido e o significado maior do arranjo dos mesmos .
[5] PENSAR NA IDADE MÉDIA, de Alan deLibera, Ed 34, 1999 e e TRIVIUM E QUADRIVIUM, de Lênia Márcia Mongelli, Ed Íbis, 1999
[6] A EDUCAÇÃO MEDIEVAL E A FILOSOFIA DE AQUINO – ELEMENTOS PARA COMPREENSÃO DE UMA ASTROLOGIA CRISTÃ, de José Aparecido Celório. Dissertação de mestrado do departamento de Educação da Universidade Estadual de Maringá, PR, 2004.
[7] A PERPECTIVA COMO FORMA SIMBÓLICA, de Erwin Panofsky, Ed. 70, Portugal, 1998 e O MISTÉRIO DAS CATEDRAIS, de Fulcanelli, Ed. 70, Portugal, 1988.
[8] A CULTURA DO RENASCIMENTO NA ITÁLIA, de Jacob Burckhardt, Ed, Cia das Letras, 2003.
[9] AS BASES METAFÍSICAS DA CIÊNCIA MODERNA, Edwin Arthur Burtt, Ed UNB, 1999.
[10] DO MUNDO FECHADO AO UNIVERSO INFINITO, de Alexandre Koyré, Ed Forense Universitária, 2001.
[11] OS SETE SABERES NECESSÁRIOS A EDUCAÇÃO DO FUTURO, de Edgar Morin, Ed Cortez, 2000.

4 comentários:

Medusa disse...

Parabéns pelo artigo e pelo blog no seu conjunto! Fazem falta sites em língua portuguesa que abordem a Astrologia de uma forma séria e profunda, sem a habitual leviandade que infelizmente está tão difundida nos dias de hoje. Continue a publicar, que eu pelo menos estarei muito interessada em ler!

r. silva disse...

É curioso como a gente de repente desperta para coisas aparentemente desimportantes; há algumas semanas tenho me interessado pela astrologia, embora meu campo de estudo seja a história [ou seja, nada a ver com estudo de astros, conforme o manual do bom estudante]. Mas me parece que falta exatamente alguma coisa que explique interdisciplinarmente o mundo, com a gente dentro dele, uma coisa mais próxima do conceito grego de physis. De repente, a gente olha a história e percebe que um monte de ciências perderam seu status de "ciência"; a própria filosofia tornou-se uma mescla de inutilidade e misticismo, uma ideia comum que ninguém expressa, mas a gente sente pelas caras e bocas. Ora, vivemos um dado momento histórico, de máximo desenvolvimento da economia capitalista e... bem, sabemos que este modelo econômico acompanha-se de um pensamento e uma ideologia, que não têm como marca a integração, mas sim a fragmentação. Logo, cabe um questionamento da própria "ciência" que ele produz, nem tão neutra como se mostra. Enfim, tudo tem me apontado para a astrologia. Acho que vou fazer o meu mapa astral, pra começar. O que acha?

r. silva disse...

p.s. Obrigado pelos textos.

Antonio Eugenio Gomes da Silva disse...

Excelente artigo!

Aproveitando o tema, sugiro aos frequentadores deste espaço, acessarem o site :

www.astrologiasensorial.com.br

O conteúdo defende as Astrologias, sob o viés Sensorial,e portanto, biológico.
Abraços.