introduçãoErnest Cassirer, em seu livro A Filosofia das Formas Simbólicas, parece tomar a Astrologia como um saber que se funda no imaginário do espaço: “a imagem do cosmo, a imagem dos espaços celestes e da articulação dos corpos nos espaços celestes, tal como descreve a ciência astronômica, está fundada originariamente na intuição astrológica de espaço e do acontecimento no espaço[1]”. Mas em relação a isto, ele já havia feito uma outra observação importante: “Quando atribuímos às coisas no espaço uma determinada grandeza, uma determinada situação e uma determinada distância, não expressamos com isto um simples dado da sensação, mas inserimos os dados sensíveis numa conexão de relação e de sistema, que em última instância mostra não ser senão uma pura conexão do juízo. Toda articulação no espaço pressupõe uma articulação do juízo[2]”.
E assim, ao atribuir a conexão espacial à conexão do juízo, ata de certa forma a dimensão cósmica à dimensão da cognição humana, retomando uma imagem antiga utilizada freqüentemente para se falar da Astrologia: de que o cosmos pensa e que ele é como um cérebro gigante.
Essa imagem pode soar extravagante num primeiro momento. No entanto, ao investigarmos a história da Astrologia, tomamos conhecimento que em pleno século XIII o filósofo árabe Mohyddin Ibn ‘Arabi[3] já associava os planetas celestes às sete funções da alma – o que se encaixa perfeitamente com os estudos “psicológicos” feitos na mesma época, sobretudo por Alberto Magno[4] e São Tomás de Aquino[5] que tentavam sistematizar e resumir toda uma tradição filosófica que, desde Platão, investigava a alma pelo seu aspecto cognitivo, isto é, pelo modo muito próprio como ela percebia, sentia e agia sobre o mundo. Já Henry Corbin[6], um dos maiores nomes quando o assunto é o oriente e o imaginário, e que estudou profundamente a obra de Ibn Arabi, aponta para o fato de que há uma faculdade imaginal: a faculdade celestial por excelência, isto é, a faculdade humana que permite criar imagens que traduzem justamente as relações que se dão entre o sujeito e a totalidade do quadro cósmico e que demonstram que há imagens que são capitais para o sentido e uma visão global da existência.
Se aliarmos tudo isto àquilo que de mais consistente a psicologia moderna produziu sobre o mesmo assunto, construiríamos uma teoria astrológica de fundamento cognitivo, tal como Olavo de Carvalho fez em sua Astrocaracterologia[7]. O que é completamente concebível: afinal, vários estudos sobre a personalidade (estudos que buscam desvendar o misterioso território da singularidade humana) tentaram compreender em especial como cada pessoa enxerga o mundo ao seu redor, apontando para a possibilidade de haver uma relação entre aquilo que a pessoa é e o modo como ela conhece, ou seja, entre ser e conhecer.
Tudo isto pode parecer absurdo mas deveria ser no mínimo suficiente para levarmos em consideração a possibilidade de que há uma relação entre a disposição do cosmos e a disposição da cognição humana, isto é, entre o modo como ser humano conhece e o modo como as condições temporais e espaciais do cosmos em que vivemos determinam nossa cognição. Aliás, este trabalho visa a explorar justamente esta hipótese que, à primeira vista, pode soar tão incompreensível quanto surpreendente: de que os astros determinam a nossa visão de vida, ou seja, a maneira muito particular com que cada um de nós vê e aborda o mundo.
Para demonstrar tal hipótese, nada melhor do que analisar filmes de cinema, justamente porque esta forma de expressão é considerada “a arte da visão” por excelência. Através desta análise, será possível perceber que cada cineasta tem um modo de ver muito característico e que este “modo de ver o mundo” está profundamente relacionado às condições temporais e espaciais em que cada cineasta nasceu, isto é, à hora e ao local do seu nascimento. Desse modo, se perceberá as relações analógicas existentes entre certas narrativas cinematográficas e certas configurações astrológicas.
Entendendo a personalidade humana: a constelação de valores pessoais
Para Gordon W. Allport[8], um dos nomes mais conhecidos da Psicologia contemporânea, o homem, no decorrer da sua evolução, e confrontado com um número cada vez maior de solicitações, se viu forçado a desenvolver um sentido discriminatório da importância das mesmas. Ou melhor: os problemas impostos pela vida sempre exigiram que o homem escolhesse, levando-o a conferir um sentido de importância maior a algumas experiências e a relegar as outras a uma posição secundária. Para Allport esta “eleição hierárquica” ocorre porque há experiências que são centrais para o sentido de existência do sujeito; experiências, estas, que concorrem para o desenvolvimento do seu sentido de identidade. Ao se tornar adulta, a criança deixa de se identificar somente com os seus pais e passa a procurar referências nos grupos, na nação e, num grau último, em certos valores e ideais. Num certo sentido, ela descobre que há valores com que se preocupa profundamente e que a sua personalidade reflete e encarna.
Por isso é que, para ele, os ideais e os valores exercem um papel tão fundamental no desenvolvimento psicológico: são eles que determinam a quê o individuo vai subordinar livremente a sua vida, traçando um esboço daquilo que pode ser chamado de “projeto vital”. Aliás, o próprio Allport emprega um termo da filosofia medieval para lembrar que há uma “intencionalidade” movendo a vida humana – e que esta intencionalidade representa justamente a forma muito particular como alguém se dirige para o futuro. Essas amplas disposições intencionais só podem apontar para um futuro, e determinam por isso mesmo os traços mais marcantes da personalidade de um sujeito – os traços que justamente lhe dão forma.
Por isso é que, para Allport, a personalidade humana só se firma e desabrocha quando se mantém fiel a uma hierarquia de interesses. E é por isso que só se conhece alguém quando se conhece a sua “ordo amoris”: as aspirações que o sujeito nutre com relação a si mesmo, a sua auto-imagem ideal. É ela quem traça uma linha pela qual o indivíduo se orienta e escreve a sua própria história. Aliás, uma grande parte do desenvolvimento psicológico só se realiza por causa desta auto-imagem: é ela quem nos auxilia a combinar nossa visão do presente com nossa visão de futuro. É ela quem define na maioria das vezes uma ambição profunda e sadia e, por isso mesmo, pode ser tomada como um “mapa cognitivo compreensivo” da personalidade individual.
Desse modo, para se compreender uma personalidade humana, basta que prestemos atenção nas direções principais do seu esforço ao longo de toda a sua vida, por maiores que sejam as tensões que daí advenham. Basta que consideremos a constelação de valores em torno da qual a vida do sujeito orbita ou, como já defendia Spranger[9], o sistema de valores que o sujeito encarna. São estes valores que conferem uma marca muito própria à personalidade e submetem a vitalidade psicológica a uma rede de significados, selecionando e inibindo motivações de outras ordens.
O que no entanto, impressiona este notável pesquisador é que estes valores não são infinitos em número – e que por isso mesmo os profissionais que trabalham com psicodiagnósticos deveriam desenvolver um teste que permitisse detectar essas unidades mais compreensivas da personalidade. Que teste poderia ser este? Se não estiver enganado em minhas análises, creio que o mapa astrológico cumpre exatamente esta função: o de diagnosticar a constelação de valores fundamentais em torno da qual a vida de cada pessoa orbita, fazendo justamente com que uma se diferencie da outra.
Entendendo a personalidade humana: as direções da atenção
Para Ludwig Klages[10], que elevou os estudos tipológicos à categoria de ciência, ao se tentar definir e descrever um indivíduo, deve-se perceber como ele se manifesta e reage às circunstâncias e, desse jogo de ações e reações, deve-se notar sobretudo os seus comportamentos mais constantes – a que ele dá o nome de caráter.
Esta definição está baseada na etimologia da própria palavra que, em grego (charakter, charassein) designa o ato de marcar, cunhar e, por conseqüência, as marcas, os traços e as propriedades mais características de um ser, que o distinguem dos demais. Aliás, a palavra chassi é derivada deste vocábulo e, como sabemos, o chassi de um carro traz gravado em si um número que lhe é próprio e distintivo.
Para Klages, o caráter é a base da personalidade e revela a sua condição natural e inerente, sobre a qual incidem todas as outras influências, sejam elas sociais e até mesmo psicológicas. Se o indivíduo pode ser considerado como uma “tabula rasa” sobre a qual a vida se escreve e tal como uma vertente da psicologia da época costumava defender, para ele, cada indivíduo, cada “tabula rasa” seria composta de uma matéria diferente e, por isso, caso fosse de pedra ou de argila ou de vidro ou de papel, sofreria diferentemente a cada influência recebida. O caráter, para ele, é a matéria básica da personalidade.
No entanto, a dificuldade em compreender esta camada da personalidade e de levar adiante os estudos sobre a diferença e a singularidade humana se deu por conta de uma confusão cometida ao longo da história da psicologia: os instintos (triebe) foram confundidos de tal modo com os interesses (triebfedem) que se tornou praticamente impossível compreender o jogo dialético que estas duas forças impõem uma à outra e, sobretudo, o papel de cada uma no desenvolvimento psicológico e na construção da personalidade – sobretudo o papel dos interesses, que determinam as direções da vontade individual.
Esta observação de Klages coincide com uma das críticas mais ácidas que o próprio Allport fez a psicologia corrente pois, para este, a grande maioria dos estados da mente só pode ser adequadamente descrita em termos de futuridade, ou seja, ao se entender a grade de interesses e de valores que move um ser humano. Mas para isso seria necessário desenvolver um tipo de abordagem psicológica que transcendesse a tendência que ainda hoje prevalece de explicar o homem única e exclusivamente em função do seu passado, visto que o futuro também move e determina o ser humano.
Por isso é que, para Klages, o caráter é definido como “uma unidade viva, ou a qualidade distintiva essencial de uma alma individual. Afinal, todo homem é dotado de uma alma mas possui, além disso, um espírito, quer dizer: ele é um eu ou um si. (...) Por isso, num sentido muito específico, o caráter é a qualidade da vontade pessoal, assinalando condições constantes que revelam uma certa direção preferencial de um eu ou de uma consciência - o que determina, portanto, entre outras coisas, as metas às quais alguém se sente impelido".
Vemos, assim que, para este notável pesquisador, o que distingue um ser humano do outro é a direção preferencial da sua atenção e que, em outras palavras, quer dizer: aquilo a que alguém presta atenção e olha.
Klages, aliás, tem uma maneira muito interessante para provar que cada indivíduo se diferencia de outro por conta deste olhar, desta atenção, desta grade de valores específica. Ele diz: se um indivíduo pode ser considerado honesto, que motivos e razões ele teria para ser visto e considerado como tal? Para Klages, há sujeitos que são honestos justamente porque querem passar a melhor imagem de si mesmos, enquanto há outros que assim agem por receio do código penal. Desse modo, ele tenta demonstrar que por detrás de uma mesma característica e de um mesmo comportamento – a honestidade, por exemplo – há um valor que os distingue. Há, por detrás dos comportamentos, todo um olhar, toda uma atenção voltada e roubada por este ou aquele valor.
E, da mesma maneira que as constelações celestes sempre serviram e ainda servem de guia para orientar os navegadores, quem sabe elas prefigurem - de uma maneira surpreendente e inexplicável - estas constelações de valores que nos movem ao longo de toda nossa existência.
A Astrologia e as 12 direções da atenção
O sistema astrológico sempre foi considerado uma espécie de catálogo onde o ser humano foi registrando e depositando, ao longo dos séculos, todas as experiências que lhe eram mais recorrentes e fundamentais. E se analisarmos mais de perto um dos componentes deste sistema – o sistema das Casas Astrológicas – perceberemos que ele descreve exatamente a perspectiva que se abre entre o sujeito nascido e o mundo em torno, isto é, entre um posto de observação e a esfera celeste, demarcando por isto mesmo um certo campo de atenção.
Por isso, se há alguma estrutura do mapa astrológico que possa descrever e diagnosticar os diferentes campos da atenção humana, esta seria exatamente aquela que compõe o sistema das Casas Astrológicas. É ela quem descreveria os possíveis campos da atenção individual, ou melhor, as perspectivas humanas fundamentais, através das quais tudo seria percebido, sentido e até mesmo alterado.
Mas.... que perspectivas fundamentais seriam estas, através das quais cada indivíduo, a sua maneira, procuraria ver o mundo e se orientar?
CASA 1
sob a perspectiva da identidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS PERSONALÍSTICO
se mobiliza[11] pela auto-imagem que todos passam e projetam
CASA 2
sob a perspectiva da vitalidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SENSORIAL
se mobiliza pela condição física e material das coisas
CASA 3
sob a perspectiva da comunicabilidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS LINGÜÍSTICO
se mobiliza pelas idéias explicitadas e ainda implícitas
CASA 4
sob a perspectiva da interioridade
caracteriza o indivíduo de VIÉS EMOCIONAL
se mobiliza pelas exigências e pressões emocionais
CASA 5
sob a perspectiva da capacidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS VOCACIONAL
se mobiliza pelo desempenho e mérito pessoais
CASA 6
sob a perspectiva da organicidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SISTÊMICO
se mobiliza pelo todo esquematizado e o seu funcionamento equilibrado
CASA 7
sob a perspectiva da alteridade
caracteriza o indivíduo de VIÉS INTERPESSOAL
se mobiliza pela reciprocidade e pelos níveis de relacionamento
CASA 8
sob a perspectiva da adversidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS TRANSFORMADOR
se mobiliza por processos que gerem mudanças e alterações
CASA 9
sob a perspectiva da universalidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS LEGISLATIVO
se mobiliza por princípios e leis gerais que gerem certezas e orientem
CASA 10
sob a perspectiva da coletividade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SOCIAL
se mobiliza pelas exigências e pressões sociais
CASA 11
sob a perspectiva da posteridade
caracteriza o indivíduo de VIÉS PROJETIVO
se mobiliza pelas perspectivas futuras e pelo projeto a realizar
CASA 12
sob a perspectiva da finalidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS MACROSCÓPICO
se mobiliza por forças maiores que determinam o fim e o rumo de tudo
Estas perspectivas se tornariam determinantes para cada indivíduo à medida que um dos 7 planetas da Astrologia Tradicional[12] estivesse disposto numa destas Casas do seu mapa natal, configurando assim os focos naturais da sua atenção e conferindo um sentido de importância maior a estas experiências – e não as outras, representadas pelas Casas que se encontrassem vazias.
No entanto, para que esta hipótese seja analisada e demonstrada, nada melhor do que avaliar filmes de cinema feitos por diretores com obra de cunho autoral, verificando em que medida ela se mostra marcada por certa direção preferencial da atenção.
É o que pretendo demonstrar agora com a análise do filme Ilha das Flores, de Jorge Furtado.
[1] CASSIRER, Ernst. A Filosofia das Formas Simbólicas.São Paulo: Martins Fontes, 2004. Pag 115
[2] Obra citada, Pag 63
[3] ÀRABi, Ibn. A Alquimia da Felicidade Perfeita. São Paulo: Ed Landy, 2002 e também BURCKHARDT, Titus. Clave Espiritual de la Astrología Musulmana según Mohyiddîn Ibn Arabí. Ed Sophia Perennis – Spain, 1998.
[4] MICHAUD-QUANTIN, Pierre. La Psychologie de L’activité chez Albert le Grand. Paris: J. Vrin, 1966.
[5] GARDEIL, H. D. Iniciação à Filosofia de S. Tomás de Aquino. tomo Psicologia. Ed Duas Cidades – SP, 1967.
[6] JAMBET, Christian. A Lógica dos Orientais: Henry Corbin e a Ciência das Formas. São Paulo: Editora Globo, 2006.
[7] CARVALHO, Olavo de. O Caráter como Forma Pura da Personalidade. Rio de Janeiro: Astroscientia, 1992.
[8] ALLPORT, Gordon W. Desenvolvimento da Personalidade. São Paulo: Ed. Herder, 1970.
[9] SPRANGER, E. Types of Man. Ed. Halle, Niemeyer, 1928
[10] KLAGES, Ludwig. Los Fundamentos de La Caracterologia. Ed Paidós – Argentina, 1965
[11] se mobiliza tanto intelectualmente quanto afetivamente ou volitivamente, dependendo da natureza do planeta astrológico aí localizado.
[12] a saber: Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.
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