domingo, 14 de junho de 2009

curso de ASTROLOGIA & CINEMA

introdução

Os trechos dos 12 filmes que serão exibidos e analisados ao longo deste curso têm por objetivo demonstrar a visão de vida característica de cada cineasta visto que cada um aborda e enfoca a existência por um ou outro prisma, por um ou outro ângulo - e isto por que cada um tem sua própria "cosmovisão".

E esta cosmovisão é de natureza astrológica: a distribuição dos sete planetas ao longo das doze casas astrológicas determina justamente a maneira como cada pessoa vê e interpreta o mundo. Desse modo, ao se conhecer, por um lado, a visão de mundo que caracteriza cada cineasta e, por outro, o mapa astrológico de cada um, percebe-se nitidamente a relação existente entre uma coisa e outra, isto é, entre as doze casas astrológicas e as doze perspectivas humanas.

E é assim que este curso se realiza, ao longo dos trechos exibidos e dos comentários realizados: percebe-se como uma característica se desenvolve e se mantém ao longo de toda a narrativa fílmica; característica, esta, que traduz a visão particular do cineasta e que, por sua vez, tem relações de analogia com determinada configuração astrológica.

Por conta disso, este curso pode parecer apenas um curso de Astrologia ou mais um curso de Cinema analisado sob uma diferente forma. No entanto, ele não se resume nem em uma coisa e nem em outra visto que o que está em jogo é o modo muito particular como a cognição individual se revela numa obra de arte. Isto ata, sem sombra de dúvida, o campo psicológico ao campo estético, só que com um pequeno detalhe: este nó se torna garantido e realizado em campo cosmológico, o que por si só seria suficiente para classificar este curso como filosófico ou metafísico, por causa das bases em que se fundamenta e das reflexões que ele suscita.

Por isso, este não é um curso nem de Astrologia e nem de Cinema mas um curso sobre a cognição humana, em especial sobre o modo como ela é determinada pela configuração do cosmos e como ela se expressa numa obra de arte, unindo, num único conjunto reflexivo, o campo cosmológico, psicológico e estético.

No entanto, como este curso permite reconhecer a cosmovisão individual, ele se transforma também num instrumento de autoconhecimento visto que fornece informações importantes a respeito do modo muito particular como eu, você e os outros encaramos e enfocamos a existência, bem como dos comportamentos psicológicos daí decorrentes. Por isso, mais do que um curso introdutório sobre Astrologia, este curso visa demonstrar a base cognitiva dos nossos comportamentos e que, se às vezes nos desentendemos uns com os outros, é porque cada um enxerga o mundo a seu próprio modo.

cronograma do curso

aula 1: apresentação teórica: o mapa astrológico como diagnóstico cognitivo
· Gordon Allport e a Ordo Amoris: a hierarquia de interesses pessoais
· Ludwig Klages e a direção preferencial do Eu
· As 12 Direções da Atenção Humana e as 12 Casas Astrológicas

aula 2: avaliando a existência sob a perspectiva da identidade
considerações a respeito da imagem que tudo passa e projeta
filme analisado: Persona (1966) de Ingmar Bergman

aula 3: avaliando a existência sob a perspectiva da alteridade
considerações a respeito da influência do outro em nossa vida
filme analisado: Zelig (1983) de Woody Allen

aula 4: avaliando a existência sob a perspectiva da vitalidade
considerações a respeito do prazer que as coisas podem oferecer
filme analisado: Asas do Desejo (1987) de Wim Wenders

aula 5: avaliando a existência sob a perspectiva da adversidade
considerações a respeito do risco e da tensão que as coisas podem oferecer
filme analisado: O Homem que Sabia Demais (1956) de Alfred Hitchcock

aula 6: avaliando a existência sob a perspectiva da comunicabilidade
considerações a respeito das idéias explicitadas e ainda explícitas
filme analisado: Daunbailó (1986) de Jim Jarmusch

aula 7: avaliando a existência sob a perspectiva da legalidade
considerações a respeito dos princípios que geram certezas e orientam
filme analisado: filme analisado: Paraíso (1987) de Diane Keaton

aula 8: avaliando a existência sob a perspectiva da interioridade
considerações a respeito da demanda por profundidade
filme analisado: Metrópolis (1927) de Fritz Lang

aula 9: avaliando a existência sob a perspectiva da coletividade
considerações a respeito da demanda por superioridade
filme analisado: O Grande Ditador (1940) de Charles Chaplin

aula 10: avaliando a existência sob a perspectiva da capacidade
considerações a respeito do domínio exercido
filme analisado: Ata-me (1990) de Pedro Almodóvar

aula 11: avaliando a existência sob a perspectiva da posteridade
considerações a respeito das perspectivas futuras e do projeto a realizar
filme analisado: Cinema Paradiso (1988) de Giuseppe Tornatore

aula 12: avaliando a existência sob a perspectiva da organicidade
considerações a respeito do todo e seu funcionamento equilibrado
filme analisado: Ilha das Flores (1989) de Jorge Furtado

aula 13: avaliando a existência sob a perspectiva da finalidade
considerações a respeito de um fim para o qual tudo caminha
filme analisado: E La Nave Va (1983) de Federico Fellini

aula 14: debate final
· há mesmo uma relação entre o mapa astrológico e a cosmovisão individual?
· confecção do mapa astrológico de cada aluno com a intenção de verificar tal relação.


Metodologia

Aulas expositivas, intercaladas com exibição de trechos de filmes, seguidas de análise e discussão dos mesmos e de leitura de textos. Tais textos serão entregues a cada aula e, ao término do curso, formarão uma apostila. Por ocasião da sua finalização, será calculado o mapa astrológico de cada participante.

carga horária

14 aulas de 3 horas cada, totalizando 42 horas de curso.

público alvo

Este curso se destina a astrólogos, artistas e psicólogos, bem como a todos aqueles indivíduos que queiram compreender melhor a álgebra da vida e o mistério da criação artística, aumentando sua bagagem cultural e aprimorando seu entendimento do ser humano. Desse modo, não é necessário ter conhecimento prévio de Astrologia para realizar este curso.

ASTROLOGIA & CINEMA: UMA COSMOVISÃO

introdução

Ernest Cassirer, em seu livro A Filosofia das Formas Simbólicas, parece tomar a Astrologia como um saber que se funda no imaginário do espaço: “a imagem do cosmo, a imagem dos espaços celestes e da articulação dos corpos nos espaços celestes, tal como descreve a ciência astronômica, está fundada originariamente na intuição astrológica de espaço e do acontecimento no espaço[1]”. Mas em relação a isto, ele já havia feito uma outra observação importante: “Quando atribuímos às coisas no espaço uma determinada grandeza, uma determinada situação e uma determinada distância, não expressamos com isto um simples dado da sensação, mas inserimos os dados sensíveis numa conexão de relação e de sistema, que em última instância mostra não ser senão uma pura conexão do juízo. Toda articulação no espaço pressupõe uma articulação do juízo[2]”.

E assim, ao atribuir a conexão espacial à conexão do juízo, ata de certa forma a dimensão cósmica à dimensão da cognição humana, retomando uma imagem antiga utilizada freqüentemente para se falar da Astrologia: de que o cosmos pensa e que ele é como um cérebro gigante.

Essa imagem pode soar extravagante num primeiro momento. No entanto, ao investigarmos a história da Astrologia, tomamos conhecimento que em pleno século XIII o filósofo árabe Mohyddin Ibn ‘Arabi[3] já associava os planetas celestes às sete funções da alma – o que se encaixa perfeitamente com os estudos “psicológicos” feitos na mesma época, sobretudo por Alberto Magno[4] e São Tomás de Aquino[5] que tentavam sistematizar e resumir toda uma tradição filosófica que, desde Platão, investigava a alma pelo seu aspecto cognitivo, isto é, pelo modo muito próprio como ela percebia, sentia e agia sobre o mundo. Já Henry Corbin[6], um dos maiores nomes quando o assunto é o oriente e o imaginário, e que estudou profundamente a obra de Ibn Arabi, aponta para o fato de que há uma faculdade imaginal: a faculdade celestial por excelência, isto é, a faculdade humana que permite criar imagens que traduzem justamente as relações que se dão entre o sujeito e a totalidade do quadro cósmico e que demonstram que há imagens que são capitais para o sentido e uma visão global da existência.

Se aliarmos tudo isto àquilo que de mais consistente a psicologia moderna produziu sobre o mesmo assunto, construiríamos uma teoria astrológica de fundamento cognitivo, tal como Olavo de Carvalho fez em sua Astrocaracterologia[7]. O que é completamente concebível: afinal, vários estudos sobre a personalidade (estudos que buscam desvendar o misterioso território da singularidade humana) tentaram compreender em especial como cada pessoa enxerga o mundo ao seu redor, apontando para a possibilidade de haver uma relação entre aquilo que a pessoa é e o modo como ela conhece, ou seja, entre ser e conhecer.

Tudo isto pode parecer absurdo mas deveria ser no mínimo suficiente para levarmos em consideração a possibilidade de que há uma relação entre a disposição do cosmos e a disposição da cognição humana, isto é, entre o modo como ser humano conhece e o modo como as condições temporais e espaciais do cosmos em que vivemos determinam nossa cognição. Aliás, este trabalho visa a explorar justamente esta hipótese que, à primeira vista, pode soar tão incompreensível quanto surpreendente: de que os astros determinam a nossa visão de vida, ou seja, a maneira muito particular com que cada um de nós vê e aborda o mundo.

Para demonstrar tal hipótese, nada melhor do que analisar filmes de cinema, justamente porque esta forma de expressão é considerada “a arte da visão” por excelência. Através desta análise, será possível perceber que cada cineasta tem um modo de ver muito característico e que este “modo de ver o mundo” está profundamente relacionado às condições temporais e espaciais em que cada cineasta nasceu, isto é, à hora e ao local do seu nascimento. Desse modo, se perceberá as relações analógicas existentes entre certas narrativas cinematográficas e certas configurações astrológicas.

Entendendo a personalidade humana: a constelação de valores pessoais

Para Gordon W. Allport[8], um dos nomes mais conhecidos da Psicologia contemporânea, o homem, no decorrer da sua evolução, e confrontado com um número cada vez maior de solicitações, se viu forçado a desenvolver um sentido discriminatório da importância das mesmas. Ou melhor: os problemas impostos pela vida sempre exigiram que o homem escolhesse, levando-o a conferir um sentido de importância maior a algumas experiências e a relegar as outras a uma posição secundária. Para Allport esta “eleição hierárquica” ocorre porque há experiências que são centrais para o sentido de existência do sujeito; experiências, estas, que concorrem para o desenvolvimento do seu sentido de identidade. Ao se tornar adulta, a criança deixa de se identificar somente com os seus pais e passa a procurar referências nos grupos, na nação e, num grau último, em certos valores e ideais. Num certo sentido, ela descobre que há valores com que se preocupa profundamente e que a sua personalidade reflete e encarna.

Por isso é que, para ele, os ideais e os valores exercem um papel tão fundamental no desenvolvimento psicológico: são eles que determinam a quê o individuo vai subordinar livremente a sua vida, traçando um esboço daquilo que pode ser chamado de “projeto vital”. Aliás, o próprio Allport emprega um termo da filosofia medieval para lembrar que há uma “intencionalidade” movendo a vida humana – e que esta intencionalidade representa justamente a forma muito particular como alguém se dirige para o futuro. Essas amplas disposições intencionais só podem apontar para um futuro, e determinam por isso mesmo os traços mais marcantes da personalidade de um sujeito – os traços que justamente lhe dão forma.

Por isso é que, para Allport, a personalidade humana só se firma e desabrocha quando se mantém fiel a uma hierarquia de interesses. E é por isso que só se conhece alguém quando se conhece a sua “ordo amoris”: as aspirações que o sujeito nutre com relação a si mesmo, a sua auto-imagem ideal. É ela quem traça uma linha pela qual o indivíduo se orienta e escreve a sua própria história. Aliás, uma grande parte do desenvolvimento psicológico só se realiza por causa desta auto-imagem: é ela quem nos auxilia a combinar nossa visão do presente com nossa visão de futuro. É ela quem define na maioria das vezes uma ambição profunda e sadia e, por isso mesmo, pode ser tomada como um “mapa cognitivo compreensivo” da personalidade individual.

Desse modo, para se compreender uma personalidade humana, basta que prestemos atenção nas direções principais do seu esforço ao longo de toda a sua vida, por maiores que sejam as tensões que daí advenham. Basta que consideremos a constelação de valores em torno da qual a vida do sujeito orbita ou, como já defendia Spranger[9], o sistema de valores que o sujeito encarna. São estes valores que conferem uma marca muito própria à personalidade e submetem a vitalidade psicológica a uma rede de significados, selecionando e inibindo motivações de outras ordens.

O que no entanto, impressiona este notável pesquisador é que estes valores não são infinitos em número – e que por isso mesmo os profissionais que trabalham com psicodiagnósticos deveriam desenvolver um teste que permitisse detectar essas unidades mais compreensivas da personalidade. Que teste poderia ser este? Se não estiver enganado em minhas análises, creio que o mapa astrológico cumpre exatamente esta função: o de diagnosticar a constelação de valores fundamentais em torno da qual a vida de cada pessoa orbita, fazendo justamente com que uma se diferencie da outra.

Entendendo a personalidade humana: as direções da atenção

Para Ludwig Klages[10], que elevou os estudos tipológicos à categoria de ciência, ao se tentar definir e descrever um indivíduo, deve-se perceber como ele se manifesta e reage às circunstâncias e, desse jogo de ações e reações, deve-se notar sobretudo os seus comportamentos mais constantes – a que ele dá o nome de caráter.

Esta definição está baseada na etimologia da própria palavra que, em grego (charakter, charassein) designa o ato de marcar, cunhar e, por conseqüência, as marcas, os traços e as propriedades mais características de um ser, que o distinguem dos demais. Aliás, a palavra chassi é derivada deste vocábulo e, como sabemos, o chassi de um carro traz gravado em si um número que lhe é próprio e distintivo.

Para Klages, o caráter é a base da personalidade e revela a sua condição natural e inerente, sobre a qual incidem todas as outras influências, sejam elas sociais e até mesmo psicológicas. Se o indivíduo pode ser considerado como uma “tabula rasa” sobre a qual a vida se escreve e tal como uma vertente da psicologia da época costumava defender, para ele, cada indivíduo, cada “tabula rasa” seria composta de uma matéria diferente e, por isso, caso fosse de pedra ou de argila ou de vidro ou de papel, sofreria diferentemente a cada influência recebida. O caráter, para ele, é a matéria básica da personalidade.

No entanto, a dificuldade em compreender esta camada da personalidade e de levar adiante os estudos sobre a diferença e a singularidade humana se deu por conta de uma confusão cometida ao longo da história da psicologia: os instintos (triebe) foram confundidos de tal modo com os interesses (triebfedem) que se tornou praticamente impossível compreender o jogo dialético que estas duas forças impõem uma à outra e, sobretudo, o papel de cada uma no desenvolvimento psicológico e na construção da personalidade – sobretudo o papel dos interesses, que determinam as direções da vontade individual.

Esta observação de Klages coincide com uma das críticas mais ácidas que o próprio Allport fez a psicologia corrente pois, para este, a grande maioria dos estados da mente só pode ser adequadamente descrita em termos de futuridade, ou seja, ao se entender a grade de interesses e de valores que move um ser humano. Mas para isso seria necessário desenvolver um tipo de abordagem psicológica que transcendesse a tendência que ainda hoje prevalece de explicar o homem única e exclusivamente em função do seu passado, visto que o futuro também move e determina o ser humano.

Por isso é que, para Klages, o caráter é definido como “uma unidade viva, ou a qualidade distintiva essencial de uma alma individual. Afinal, todo homem é dotado de uma alma mas possui, além disso, um espírito, quer dizer: ele é um eu ou um si. (...) Por isso, num sentido muito específico, o caráter é a qualidade da vontade pessoal, assinalando condições constantes que revelam uma certa direção preferencial de um eu ou de uma consciência - o que determina, portanto, entre outras coisas, as metas às quais alguém se sente impelido".

Vemos, assim que, para este notável pesquisador, o que distingue um ser humano do outro é a direção preferencial da sua atenção e que, em outras palavras, quer dizer: aquilo a que alguém presta atenção e olha.

Klages, aliás, tem uma maneira muito interessante para provar que cada indivíduo se diferencia de outro por conta deste olhar, desta atenção, desta grade de valores específica. Ele diz: se um indivíduo pode ser considerado honesto, que motivos e razões ele teria para ser visto e considerado como tal? Para Klages, há sujeitos que são honestos justamente porque querem passar a melhor imagem de si mesmos, enquanto há outros que assim agem por receio do código penal. Desse modo, ele tenta demonstrar que por detrás de uma mesma característica e de um mesmo comportamento – a honestidade, por exemplo – há um valor que os distingue. Há, por detrás dos comportamentos, todo um olhar, toda uma atenção voltada e roubada por este ou aquele valor.

E, da mesma maneira que as constelações celestes sempre serviram e ainda servem de guia para orientar os navegadores, quem sabe elas prefigurem - de uma maneira surpreendente e inexplicável - estas constelações de valores que nos movem ao longo de toda nossa existência.

A Astrologia e as 12 direções da atenção

O sistema astrológico sempre foi considerado uma espécie de catálogo onde o ser humano foi registrando e depositando, ao longo dos séculos, todas as experiências que lhe eram mais recorrentes e fundamentais. E se analisarmos mais de perto um dos componentes deste sistema – o sistema das Casas Astrológicas – perceberemos que ele descreve exatamente a perspectiva que se abre entre o sujeito nascido e o mundo em torno, isto é, entre um posto de observação e a esfera celeste, demarcando por isto mesmo um certo campo de atenção.

Por isso, se há alguma estrutura do mapa astrológico que possa descrever e diagnosticar os diferentes campos da atenção humana, esta seria exatamente aquela que compõe o sistema das Casas Astrológicas. É ela quem descreveria os possíveis campos da atenção individual, ou melhor, as perspectivas humanas fundamentais, através das quais tudo seria percebido, sentido e até mesmo alterado.

Mas.... que perspectivas fundamentais seriam estas, através das quais cada indivíduo, a sua maneira, procuraria ver o mundo e se orientar?

CASA 1
sob a perspectiva da identidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS PERSONALÍSTICO
se mobiliza
[11] pela auto-imagem que todos passam e projetam

CASA 2
sob a perspectiva da vitalidade

caracteriza o indivíduo de VIÉS SENSORIAL
se mobiliza pela condição física e material das coisas

CASA 3
sob a perspectiva da comunicabilidade

caracteriza o indivíduo de VIÉS LINGÜÍSTICO
se mobiliza pelas idéias explicitadas e ainda implícitas

CASA 4
sob a perspectiva da interioridade

caracteriza o indivíduo de VIÉS EMOCIONAL
se mobiliza pelas exigências e pressões emocionais

CASA 5
sob a perspectiva da capacidade

caracteriza o indivíduo de VIÉS VOCACIONAL
se mobiliza pelo desempenho e mérito pessoais

CASA 6
sob a perspectiva da organicidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SISTÊMICO
se mobiliza pelo todo esquematizado e o seu funcionamento equilibrado

CASA 7
sob a perspectiva da alteridade

caracteriza o indivíduo de VIÉS INTERPESSOAL
se mobiliza pela reciprocidade e pelos níveis de relacionamento

CASA 8
sob a perspectiva da adversidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS TRANSFORMADOR
se mobiliza por processos que gerem mudanças e alterações

CASA 9
sob a perspectiva da universalidade

caracteriza o indivíduo de VIÉS LEGISLATIVO
se mobiliza por princípios e leis gerais que gerem certezas e orientem

CASA 10
sob a perspectiva da coletividade

caracteriza o indivíduo de VIÉS SOCIAL
se mobiliza pelas exigências e pressões sociais

CASA 11
sob a perspectiva da posteridade
caracteriza o indivíduo de VIÉS PROJETIVO
se mobiliza pelas perspectivas futuras e pelo projeto a realizar

CASA 12
sob a perspectiva da finalidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS MACROSCÓPICO
se mobiliza por forças maiores que determinam o fim e o rumo de tudo

Estas perspectivas se tornariam determinantes para cada indivíduo à medida que um dos 7 planetas da Astrologia Tradicional[12] estivesse disposto numa destas Casas do seu mapa natal, configurando assim os focos naturais da sua atenção e conferindo um sentido de importância maior a estas experiências – e não as outras, representadas pelas Casas que se encontrassem vazias.

No entanto, para que esta hipótese seja analisada e demonstrada, nada melhor do que avaliar filmes de cinema feitos por diretores com obra de cunho autoral, verificando em que medida ela se mostra marcada por certa direção preferencial da atenção.

É o que pretendo demonstrar agora com a análise do filme Ilha das Flores, de Jorge Furtado.


[1] CASSIRER, Ernst. A Filosofia das Formas Simbólicas.São Paulo: Martins Fontes, 2004. Pag 115
[2] Obra citada, Pag 63
[3] ÀRABi, Ibn. A Alquimia da Felicidade Perfeita. São Paulo: Ed Landy, 2002 e também BURCKHARDT, Titus. Clave Espiritual de la Astrología Musulmana según Mohyiddîn Ibn Arabí. Ed Sophia Perennis – Spain, 1998.
[4] MICHAUD-QUANTIN, Pierre. La Psychologie de L’activité chez Albert le Grand. Paris: J. Vrin, 1966.
[5] GARDEIL, H. D. Iniciação à Filosofia de S. Tomás de Aquino. tomo Psicologia. Ed Duas Cidades – SP, 1967.
[6] JAMBET, Christian. A Lógica dos Orientais: Henry Corbin e a Ciência das Formas. São Paulo: Editora Globo, 2006.
[7] CARVALHO, Olavo de. O Caráter como Forma Pura da Personalidade. Rio de Janeiro: Astroscientia, 1992.
[8] ALLPORT, Gordon W. Desenvolvimento da Personalidade. São Paulo: Ed. Herder, 1970.
[9] SPRANGER, E. Types of Man. Ed. Halle, Niemeyer, 1928
[10] KLAGES, Ludwig. Los Fundamentos de La Caracterologia. Ed Paidós – Argentina, 1965
[11] se mobiliza tanto intelectualmente quanto afetivamente ou volitivamente, dependendo da natureza do planeta astrológico aí localizado.
[12] a saber: Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

ILHA DAS FLORES: SÍMBOLO DO DESEQUILÍBRIO CÓSMICO

para ver ILHA DAS FLORES:
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=647#

para saber mais sobre o diretor JORGE FURTADO:
http://www.casacinepoa.com.br/index.htm

Hoje, quase todo mundo que vive nos centros urbanizados do Ocidente sente intuitivamente a falta de alguma coisa na vida. Isto deve-se diretamente à criação de um ambiente artificial de onde a natureza foi excluída ao limite máximo possível. Mesmo o homem religioso, em tais circunstâncias, perdeu a noção do significado lógico da natureza. (...) Que se destruiu a harmonia entre homem e natureza é um fato que a maioria das pessoas admite. Mas nem todos percebem que este desequilíbrio se deve à destruição da harmonia entre o homem e Deus.(...) É esta razão porque se faz necessário começar nossa análise ocupando-nos primeiramente das ciências naturais e dos pontos-de-vista que dizem respeito ao significado filosófico e teológico das mesmas e, a seguir, das limitações a ela inerentes – e que são responsáveis pela crise que a aplicação e aceitação da visão de mundo destas ciências trouxeram ao homem moderno.
Seyyed Hossein Nasr, in O HOMEM E A NATUREZA


a história

A história de Ilha das Flores se dá, à princípio, numa plantação de tomates e tem como protagonista – pasmem vocês – um tomate. É em torno do tomate que o enredo da história gira, mostrando os sucessivos personagens que vão se relacionando com o mesmo e que dão uma desenvoltura toda própria a história. Ele é o elo de integração com os outros personagens do drama e, por isso, ora na sua versão madura, ora na sua versão estragada, vai compondo um refrão que, de repetição em repetição, dá uma cadência melódica muito especial à narrativa.
Eis os “grandes personagens” que participam deste enredo:

1) o Tomate plantado em Belém Novo, município de Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, na latitude: 30:12:30 sul e longitude 51:11:23 oeste e que, diferentemente das baleias, galinhas e japoneses, é um vegetal, cultivado pelos humanos como alimento desde 1800, sendo que o planeta já cultiva 61 milhões de tomates por ano;

2) o Sr. Suziki, o plantador de tomates, japonês, que se distingue pelo formato dos olhos, pelos cabelos pretos e pelo nome característico, e que como todo ser humano é um mamífero, bípede, mas que se difere das baleias e das galinhas por ter o teleencéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor, sendo por isso mesmo capaz de processar e armazenar inúmeras informações e também de manipular objetos pequenos com muita precisão, sendo que qualquer ação ou objeto produzido pelo ser humano é fruto da conjugação deste dois fatores, isto é, do teleencéfalo altamente desenvolvido e do polegar opositor;

3) o Dinheiro, iniciativa provável de Giles, Rei da Lídia, grande reino da Ásia menor que no século VII AC viu-se diante da dificuldade de manter o sistema de troca direta de produtos, já que se tornava cada vez mais inviável pesar o número adequado de tomates na troca por uma galinha ou o número adequado de galinhas na troca por uma baleia; situação, esta, que acabou gerando, mais tarde, os Supermercados, onde os produtos são trocados por dinheiro e vice-versa;

4) a Dona Anete, bípede, mamífero, católico-apostólico-romano, que tem também o teleencéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor e é, por isso mesmo, um ser humano, que troca seu dinheiro por tomates no supermercado, sendo seu dinheiro obtido pela margem de lucro de uma outra troca que realiza com uma fábrica de perfumes, de quem compra seus produtos e passa, por sua vez, a trocá-los por dinheiro através das visitas que realiza de porta em porta, sendo também quem compra o tomate para fazer molho para sua carne de porco comprada também no supermercado;

5) o Porco, mamífero tal como a baleia, porém quadrúpede, e que serve como alimento para japoneses, católicos e outros seres humanos, exceto para judeus, e que não tem o teleencéfalo altamente desenvolvido e sequer um polegar, que dirá opositor;

6) o Lixo, onde o porco habita e mora e para onde um dos tomates sem condição de virar molho foi endereçado, sendo um lugar longe para onde todos os produtos de origem orgânica e inorgânica são destinados para livremente cheirarem mal, sujarem e atraírem doenças de todos os tipos que acabam prejudicando o bom funcionamento dos seres humanos, sendo que uma população como a de Porto Alegre (que é de 1 milhão de habitantes) produz 500 toneladas de lixo por dia, e sendo todo este empreendimento fruto também da conjugação do teleencéfalo altamente desenvolvido e do polegar opositor do ser humano, muito embora este lixo fique num terreno que tem um dono e que, apesar de possuir também o teleencéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor, tem – também - dinheiro, que troca com mulheres e crianças que, apesar de possuírem também o teleencéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor, não têm dinheiro e nem dono e que, por isso, em grupo de dez, têm cinco minutos para atravessar o cerco em torno do lixo e catar os alimentos – e os tomates – que foram considerados impróprios para a alimentação dos porcos mas que, agora, estão disponíveis para a alimentação delas.

A maneira com que acabo de apresentar os personagens procura reproduzir o mesmo tom enciclopédico e pedagógico com que a história é narrada em off pelo ator Paulo José, e que dão ao filme uma certa atmosfera de documentário, quebrada repetidas vezes por tiradas de ironia e graça que vão subterraneamente se transformando numa espécie de piada inusitada e macabra, embalada por diversas intervenções musicais inspiradas na obra de Carlos Gomes O Guarani.

Digo piada inusitada e macabra porque este lugar para onde o tomate do início da história é levado para livremente apodrecer e cheirar mal (visto que não serve de alimento para a Dona Anete e a sua família e nem para o porco e para a família do porco, se tornando no entanto o alimento de mulheres e crianças que não têm dinheiro e nem dono) se chama Ilha das Flores: uma lixeira a céu aberto que fica numa ilha, numa porção de terra à parte do continente, onde a ordem natural das coisas se processa de uma maneira completamente inversa e quase que avulsa.

Literalmente, é disto que o filme trata: da inversão de uma ordem natural, a ponto dos seres humanos ficarem abaixo dos porcos na prioridade da escolha de alimentos. E, é claro, na escala de vida. Afinal, já há pessoas que estão vivendo pior do que os porcos.

a maneira como a história é contada

No entanto, o que mais impressiona o espectador ao longo da projeção de todo o filme é a maneira como ele é narrado e contado: ao se apresentar o personagem 1 e, na seqüência, o personagem 2, retoma-se a menção do personagem inicialmente apresentado e assim se prossegue indefinidamente até o último personagem, sempre indo adiante e apresentando um novo personagem e depois retroagindo à série de personagens que já foram apresentados, revelando através deste jogo de construção & desconstrução uma cadeia de relações e mostrando exatamente qual o lugar de cada personagem dentro desta cadeia – ou, senão isto, pelo menos pontuando, através de um refrão que soa inicialmente cômico, quais são os personagens e quais são as relações que se estabelecem entre eles e que, no fim, formam um elo, uma grande engrenagem.

Se dizer que a maneira como o filme é narrado é como um quebra-cabeça onde há uma série de monta-e-desmonta, e se dizer isto soa arbitrário dado que não ocorre a todo o momento, prestemos atenção pelo menos ao fato de que, a cada vez que um personagem é apresentado, mostra-se a série de relações que ele mantém com outros que normalmente estão a sua volta, de modo que ao apresentar o personagem e a sua circunvizinhança natural, o seu contorno, sempre se revela a maneira como ele está atado ao personagem seguinte e aos outros que vão aparecendo, de modo que – o que sempre fica em evidência – é o elo que os une e como eles participam da engrenagem.

Elo, cadeia, engrenagem: estas talvez sejam palavras imprecisas, mas que uso para aludir ao fato de que, aos poucos, a própria montagem do filme vai – junto com o enredo – construindo um verdadeiro ecossistema das relações que se estabelecem entre os fatores apresentados, tal como tento ilustrar abaixo:

lixo ------------ TOMATE --------- SR. SUZIKI ------------- SUPERMERCADO
lixo ------------- PORCO ---------- DONA ANETE --------- FÁBRICA DE PERFUMES

fora da ordem ---- ordem natural --- ordem humana ------ ordem econômica

Afinal, se o tomate e o porco podem ser situados numa ordem que chamo de natural, e o Sr. Suzuki e a Dona Janete numa ordem que chamo de humana, e o supermercado e a fábrica de perfumes numa ordem que chamo de econômica, não deveria o lixo ficar justamente numa situação chamada fora de ordem, visto que ele é levado para bem longe da cidade, para fora do continente, onde justamente se situa a Ilha das Flores?

Acredito que sim. No entanto, mesmo que este esquema não ilustre a estrutura básica do ecossistema do qual estou tentando falar, é, via de regra, um verdadeiro ecossistema que se revela e se mostra através da construção e da montagem tão particular de que o cineasta se utilizou para narrar o filme – e só por isso ele se torna digno de atenção.

No mais, o que torna este filme deveras interessante é que a maneira como a história é contada coincide com o próprio assunto abordado, e isto de um modo tão magistral que, juntos, forma e conteúdo, se propõem a revelar e desvelar um mesmo tema: o equilíbrio (ou desequilíbrio) de um ecossistema. Afinal, do ponto de vista do argumento, o assunto do qual se trata não é o da formação de um ecossistema que se vê subitamente abalado por um fator que passa a entrar no jogo (o dinheiro) e que acaba por inverter a ordem natural das coisas? E o que falar da forma especial como este argumento é tratado e que, de parte em parte, vai mostrando todos os elementos integrantes de um todo, construindo assim – através da própria técnica de montagem – um verdadeiro ecossistema de imagens interligadas, tal como num caleidoscópio, dentro do qual todas as pecinhas interagem?

Esta é a tese que pretendo defender: neste filme, conteúdo & forma estão unidos de forma tão indissolúvel que aquele assunto do qual o argumento trata é o mesmo que se reflete nas imagens utilizadas, e vice-versa, de modo que o próprio tratamento dado às imagens traduz o assunto do qual se ocupa o argumento. Um não vive sem o outro, e o outro não vive sem o um, como os dois lados de uma coisa comum - o que faz com que a estrutura estética desta obra possa ser chamada de especular. Afinal, o que se reflete ali, se reflete lá, como num jogo de luz casado e contínuo.

E, só por isso, Ilha das Flores, se torna um filme tão interessante, digno de uma análise mais profunda, do qual este ensaio pretende ser apenas uma introdução.


Ilha das Flores: símbolo do desequilíbrio cósmico

Mas se as observações que faço soam arbitrárias, e se o tema do equilíbrio & desequilíbrio sistêmicos não estão presentes tanto no roteiro quanto na montagem, é de se considerar e perguntar sobre uma imagem fundamental que se torna recorrente ao longo do filme, formando quase que um refrão: o planeta Terra em movimento de rotação, girando em torno do seu próprio eixo. Ela aparece em trechos significativos:

· na própria abertura do filme (o que o coloca numa posição de destaque), tornando-se símbolo de algo que ainda não sabe muito bem o que é – mas que se espera que o filme venha a revelar;

· implícito na menção da latitude e longitude de Belém Novo, lugar onde se situa a plantação de tomates, cenário onde se inicia a história;

· no momento em que se demonstra literalmente que um dia equivale ao tempo que a Terra leva para girar em torno do seu próprio eixo, sendo pois o fator responsável pela formação das nossas horas e de como distribuímos os nossos afazeres ao longo desta jornada;

· segundos antes em que a imagem de uma lente de um microscópio contendo germes em movimento é rapidamente exibida, justamente no trecho em que se mostra como as doenças “acabam prejudicando o bom funcionamento dos seres humanos”, sendo que a forma circular da lente do microscópio é superposta à forma circular do nosso planeta Terra, traçando assim um paralelo entre o macrocosmo e o microcosmo e prefaciando aquilo que acredito ser o tema do filme: o equilíbrio cósmico. Ou o seu desequilíbrio.

Aliás, a forma circular é, por excelência, o símbolo retomado ao longo de todo o filme, sendo o movimento de rotação da Terra somente uma de suas variantes. Ele aparece, por exemplo:

· personificado no próprio tomate que tem uma forma arredondada e que, por mais simples e inócuo que seja, é comparado em certo momento a uma nuvem da bomba atômica, estabelecendo outro paralelo de equilíbrio natural e desequilíbrio anti-natural – além, é claro, de sua versão ora madura, ora estragada, que personifica ora uma situação de equilíbrio e, ora, uma situação de desequilíbrio;

· personificado pelo teleencéfalo humano, dentro do qual várias imagens se processam, como um caleidoscópio;

· no esquema traduzindo a proporção existente entre a produção de tomates do Sr. Suzuki e a produção brasileira que, por sua vez, é medida dentro da escala da produção mundial;

· na maneira como o dinheiro e os vários artefatos da produção humana vão se conjugando e empilhando, revelando uma grande espiral de imagens que acaba sendo coroada no centro por um slogan publicitário que anuncia: “Bruna, você usa soutien com lycra?”;

· traduzida na maneira quase que enciclopédica com que o filme é narrado ( kyklos = círculo + paidos = educação, cultura, formação da mente humana);

· personificado no relógio que realiza a contagem do tempo;

· na própria concepção de ilha, que é definida como uma porção de terra cercada de água por todos os lados.

No entanto, o que devemos considerar é que a forma circular, e mais propriamente o círculo, é o símbolo por excelência da perfeição, da coisa inteira, tendo sempre um centro e uma periferia, sendo o seu centro invisível e o seu contorno periférico a circunferência propriamente dita. Esta invisibilidade do centro sempre foi interpretada - pelas cosmovisões tradicionais – como o Princípio Maior de onde tudo se origina, e o traçado circunferente como a inesgotabilidade e variedade da manifestação do Princípio Maior, e que descreve propriamente o Mundo. Por isso, dentro da concepção simbólica das cosmovisões tradicionais, a circunferência é o símbolo do mundo em sua imensa variedade e multiplicidade, enquanto o seu centro (invisível) é o símbolo de uma ordem suprema de onde tudo se origina e para onde tudo converte.

Levando em conta essa concepção, parece que o filme trata à princípio do equilíbrio e do desequilíbrio cósmicos – mas não no sentido ecológico como geralmente interpretamos o bom ou o mal andamento do nosso sistema terrestre. E isto porque a imagem do planeta girando pontua no filme uma ordem em torno da qual tudo deveria girar mas que, estando ausente, permite justamente que a ordem natural das coisas se inverta, o caos se estabeleça e apareçam lugares tal como a Ilha das Flores.

E que ordem faltante é esta? Se não há como se recordar, saibam que esta informação já está dada no próprio início da película; aliás, antes mesmo que a primeira imagem se apresente e que é, como disse, a de um globo girando. No início do filme, são exibidas três frases sobre um fundo preto, cada uma por sua vez, e que acabam dando à história uma outra conotação do que esta até então apresentada:

Primeira Frase: “Este não é um filme de ficção”.

Segunda Frase: “Existe um lugar chamado Ilha das Flores”.

Terceira Frase: “Deus não existe”.

A ordem faltante é aquela que podemos depreender desta terceira frase, e pela tragédia do que ela significa mas que talvez sequer atentamos a medida que o filme vai prosseguindo: a ordem faltante é Deus. É de cunho espiritual. E é pela sua ausência que assistimos a tragédia como a que acontece em Ilha das Flores.

Mas, antes mesmo que esta exposição se mostre subitamente absurda e se torne apologética e enfadonha, devemos nos lembrar que, na cosmovisão antiga ou medieval, há uma noção da realidade dividida em 3 planos superpostos, a saber:

Idade Média ---- CORPO ------------------- ALMA ----------------- ESPÍRITO
Cristianismo ---- NATURA ----------------- HOMO ------------------ CÉU
Grécia ------------- PHYSIS ------------------ ETHOS ---------------- LOGOS

--------------------- ordem terrestre -------- ordem humana ------- ordem celeste

Dentro desta cosmovisão, concebia-se que a ordem suprema era a ordem celeste (aquela que estava para além da esfera astronômica), e que toda ordem natural e humana deveria se espelhar e copiar a ordem espiritual, de modo que uma sociedade considerada ordenada e equilibrada seria aquela que procurasse ser à imagem da esfera celeste ou espiritual. Temos um exemplo disso na fundação das cidades segundo o rito que os romanos haviam recebido dos etruscos, e também na repartição dada aos próprios acampamentos pelos hebreus que, mais tarde, se estendeu ao território de todo o país (1) [i].

Não parece, pois, que é este tipo de paralelo que o filme tenta estabelecer: um paralelo entre a ordem social e a ordem cósmica, tal como entendida pelas cosmovisões tradicionais? Se assim for (e acredito que seja), se torna necessário acrescentar ao esquema anteriormente elaborado este grandessíssimo fator ausente da sociedade moderna, de modo que passamos a ter a seguinte configuração sistêmica:

fora da ordem: lixo

ordem natural:
tomate, porco
ordem humana: Sr, Suzuki, Dona Anete
ordem econômica:
Supermercado, Fábrica de Perfumes

ordem espiritual: Deus

Ademais, somente esta configuração pode ser exata, visto que a supressão de um dos pólos (Deus) significa necessariamente a inflação do pólo oposto (o Lixo). Poderíamos , assim, conceber o Lixo como uma ordem que – pela supressão da ordem espiritual – acaba tomando a dianteira, substituindo-a definitivamente. Já disseram que vivemos num mundo sem Deus. Talvez isto seja o mesmo que dizer que vivemos na era do Lixo (2) [ii], onde tudo se torna descartável, inclusive o homem.

Não seria, pois, a Ilha das Flores um filme que mostra como os fatores de diversas ordens vão se interagindo dentro de uma seqüência específica e que, na ausência de um Fator Determinante, acaba criando uma nova ordem, uma ordem avulsa e à parte de todo o ecossistema, que expressa a inversão de tudo e que age tal como uma doença?

Creio que sim. E se a mensagem é esta, que ela sirva de alerta para o modo como há séculos estamos dispondo das nossas horas e distribuindo os nossos afazeres ao longo desta jornada que, no final das contas, se chama vida. Afinal, mesmo que durante os créditos finais apareçam frases que lembrem que este filme, na verdade, foi feito por Jorge Furtado, e que a última frase do texto, na verdade, é do “Romanceiro da Inconfidência” da Cecília Meireles, e que os temas musicais, na verdade, foram extraídos do “Guarani” de Carlos Gomes, e que os personagens, na verdade, são tais e tais atores, e que, na verdade, a maior parte das locações foi rodada na Ilha dos Marinheiros, a dois quilômetros da Ilha das Flores - todo o restante da obra ficcionada se configura como sendo extremamente verdadeira, tal como o filme anuncia: “o resto é verdade”.

É com esta frase que se fecha a exibição do filme. Aliás, é também assim que ele começa: lembram-se da frase inicial? De que “este não é um filme de ficção”.

E não é mesmo.

bibliografia

[i] (1) vide SÍMBOLOS DA CIÊNCIA SAGRADA, de René Guénon, Ed. Pensamento, 1993, página 88
[ii] (2) vide A CRISE DO MUNDO MODERNO, de René Guénon, Ed Veja, Lisboa, 1977, em especial o capítulo A Idade Sombria

ILHA DAS FLORES: fruto de uma inteligência sistêmica

Jorge Furtado

É notável como o curta-metragem Ilha das Flores aborda o desequilíbrio social e espiritual que estamos vivendo. Mais notável ainda porque suas imagens estão dispostas de um modo que remetem imediatamente à idéia de encadeamento, de engrenagem, demonstrando inclusive como todos os fatores estão ligados entre si, formando um circuito absolutamente fechado – um todo cuja integridade depende exatamente do jogo harmônico e equilibrado das suas partes.

Essa noção do todo esquematizado e do funcionamento equilibrado é a noção mais evidente do filme – e é a noção suprema do sujeito cuja inteligência é de natureza sistêmica e orgânica. Aliás, Ilha das Flores é um dos frutos mais expressivos de uma inteligência como esta.

Se assim for, e de acordo com a hipótese das 12 Perspectivas Fundamentais apresentada no capítulo anterior, o mapa astrológico do seu diretor[1] deveria estar com a Casa VI ocupada por um dos sete planetas tradicionais - o que de fato acontece. Ao calcularmos o seu mapa, vemos que o planeta Saturno se encontra posicionado dentro da Casa VI, demonstrando assim a relação existente entre uma configuração astrológica, um tipo de inteligência e uma obra cinematográfica que é a sua mais pura expressão. Vemos, assim, a relação existente entre astros e psique, intermediada e comprovada através de uma obra artística.

E que Saturno seja o planeta a aparecer dentro da Casa VI não é nem um pouco surpreendente e assustador: afinal, para o filósofo árabe Mohieddin Ibn’ Árabi, este planeta está associado a razão humana, àquela necessidade de encontrar um sentido, uma resposta, um entendimento para determinada ordem de experiência. Se levarmos em consideração a tese deste filósofo, teríamos que admitir, mesmo à título de hipótese, que o indivíduo que nascesse com o planeta Saturno localizado dentro da Casa VI procuraria uma razão para o Todo e para o seu funcionamento equilibrado.

Mas não é justamente isso que Ilha das Flores revela e testemunha? Essa característica se revela, entretanto, em outras obras suas. Por ocasião do lançamento do seu novo filme O Homem Que Copiava, a revista Época divulgou em junho de 2003 a seguinte manchete:

JUNTANDO OS PEDAÇOS
O excelente "O Homem Que Copiava" aposta nas simulações para organizar o quebra-cabeça da vida

ESTILHAÇOS
Lázaro Ramos faz o jovem que, tirando fotocópias, vê o mundo em fragmentos

O próprio diretor Jorge Furtado, em entrevista à Agência Carta Maior, em dezembro de 2003, dá o seguinte depoimento:

“Então, o objetivo era fazer algo sobre fragmentação, com um personagem muito fragmentado. (...) Olha, o Ilha das Flores já é, de alguma maneira, uma tentativa de fazer-se um hipertexto, né? Ele é um hipertexto, antes da Internet, pelo menos da Internet para mim. Era a idéia de que um texto leva a outro texto, uma palavra leva a outra palavra e, no final, as coisas acabavam concretizando-se em uma grande rede. Esta era a idéia do Ilha. E O Homem que Copiava é um pouco isso também (...). Eu, agora, me sinto atraído pelo contrário dessa lógica, em todos os sentidos. É a "unidade", em oposição à fragmentação”.

A uma série de outros depoimentos que se seguem, o entrevistador desta revista, Cláudio Szynkier, comenta:

· “Isso mostra como o filme constrói-se e molda-se organicamente. Os significados que ele vai adquirindo nascem dentro dele mesmo, às vezes sem ter nada a ver com o que foi planejado".

· “A descrição inicial que André faz das coisas que cercam o seu mundo sublinha o componente autoral presente no filme. É uma obsessão pela anatomia da realidade, pela dinâmica e influência dos objetos no viver diário do personagem. O dinheiro, quanto ganha, quanto vai sobrar, quanto falta, o que foi possível comprar, quanto tempo necessitaria para comprar aquilo que não foi possível; a copiadora, o que a máquina faz, o chefe, a gostosa; o quarto da menina. Se Ilha das Flores (curta de Furtado, rodado ainda na década de 80) aplicava uma tentativa de "biologia", que compreendia relações humanas e até coisas inanimadas, em O Homem que Copiava o que percebemos é uma intimista análise dos vetores da vida cotidiana de alguém. Mas, nos dois casos, há o apreço pelo ato de esmiuçar, compor a lógica dos ‘mundos’ ".

Não são estes, pois, comentários e depoimentos que testemunham justamente o foco e a direção de uma inteligência que insiste em ver e analisar o mundo de maneira sistêmica e orgânica? Não seria pois Ilha das Flores imagem exemplar criada por uma inteligência que poderíamos chamar de sistêmica? Aliás, o mesmo tipo de inteligência aparece presente e marca a obra de Henry Miller[2], escritor americano, para quem o homem era um todo composto de três partes: Sexus, Plexus e Nexus, os três famosos volumes que compõem a sua obra intitulada A Crucificação Encarnada, uma alusão ao próprio homem cuja imagem é a de uma carne em forma de cruz. Já no episódio Ejaculação da série Tudo o que Você Sempre Quis Saber sobre o Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar, concebido por Woody Allen[3] em 1972, vê-se que uma das partes do corpo humano não está funcionando: o pênis não consegue ter ereção e, ao se apurar a responsabilidade pelo problema, descobre-se que a ameaça se deu em outra parte do organismo: na consciência, revelando, de um modo bem criativo e humorado, como as partes de um mesmo todo estão interligadas.

O que há em comum entre estes três artistas, além do fio narrativo de suas obras ser entretecido por uma perspectiva sistêmica e orgânica? Todos nasceram sob um mesmo fator astrológico, tendo um dos sete planetas tradicionais localizados na Casa VI do seu mapa[4] - motivo suficiente para determinar esse tipo de visão e de abordagem. Aliás, um sujeito com tal configuração astrológica será aquele para quem os episódios que envolvem o dia-a-dia, os hábitos, a ordem e a desordem marcarão de modo indelével toda a sua existência e para quem os relógios, os quebra-cabeças, os mecanismos internos, as engrenagens e o ritmo se transformarão em imagens fundamentais na composição da sua obra estética: imagens-chaves que abrem a compreensão desta mesma obra.




mapa astrológico de Jorge Furtado


[1] JORGE FURTADO: 09/06/1959, 9:30 hs, Porto Alegre. Dito a mim mesmo por ocasião da Terceira Conferência Internacional do Documentário: Imagens da Subjetividade, São Paulo, 11/04/2003.
[2] HENRY MILLER: 26/12/1891, 12:30 hs, Manhattan,NY, USA.
[3] WOODY ALLEN: 01/12/1935, 22:55 hs, Bronx, NY, USA
[4] Henry Miller tinha Saturno na Casa VI, tal como Jorge Furtado, e Woody Allen tinha a Lua nesta Casa.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON

para Ana González


Vi o filme. Enfim, vi o filme. Fiquei oco e mudo por dois dias. Depois voltei ao normal, com forças para respirar e escrever. No entanto, sei que deveria permanecer oco e mudo, ainda sob o impacto da história, fazendo jus à sua beleza. Mas parece que tudo sofre mesmo da ação paradoxal do tempo – e por isso estou aqui, escrevendo.

Escrevendo na expectativa de fazer alguns comentários sobre a história, isto é, de quase chegar a fazer uma história sobre a história, visto que a vida não é nada sem uma boa história. Antes de tudo, devemos agradecer a F. Scott Fitzgerald pela sua narrativa, e por demonstrar que a vida tem a sua própria escritura, tem desenvolvimento próprio – como um livro que se auto-escreve, e cujos capítulos vão se enredando de um modo tão lógico e tão inimaginável que só resta ao último capítulo se juntar ao primeiro, fechando o círculo. A vida é círculo. Não deve ser por acaso que os relógios sejam redondos. E que o bater das asas de um beija-flor formem o símbolo do infinito: dois círculos sobrepostos, de uma continuidade elegante e levemente elíptica.

Será a infinitude o quadrado ou o dobro da vida? Será esta a equação matemática que, apesar de oculta, constitui a trama da existência? Não sei, não sei. Só o que sei é que, depois de ter visto O Estranho Caso de Benjamin Button, cri, mesmo que por um breve instante, que o fim e o começo não existem – vide o anacronismo expresso da história. E que estes só são uma intercessão do tempo. E que raramente saímos do seu círculo, exceto quando percebemos que há uma continuidade infinita que nos abarca e nos engloba, que nos redime, nos orienta e nos enche de glória - o que só ocorre para quem se resigna, aquiesce e aceita essa Imensidão.

Benjamin Button aceita. Mamãe aceita.

Outros personagens, cada um a seu modo, aceitam ou aprendem a aceitar.

Eu, como sou osso duro de roer, estou aqui tentando aprender alguma coisa.

O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON

continuação: parte 2



















Nesta tentativa de aprendizado e de compreender a Imensidão, não pude me furtar de olhar o mapa astrológico do autor da história. Sou astrólogo e, como astrólogo, sei o quanto os astros lançam luzes que nos permitem uma boa compreensão. Mas fiz isso sem muita esperança: afinal, não conheço a vida e a obra de F. Scott Fitzgerald, nem mesmo em profundidade, da qual esse conto é uma pequena mostra, e que foi adaptado para o cinema por Eric Roth e Robin Swicord e dirigida por David Fincher, cujos mapas astrológicos não encontrei mas que, sem sombra de dúvida, poderiam lançar luzes no que vimos nas telas de cinema. Afinal, não podemos nos esquecer disto: sobre a obra original do autor - que tem uma visão de mundo muito específica -, incidiu a visão e a mentalidade de outros artistas que acabaram lhe dando um outro desenho, uma outra configuração. Não havia como esperar que, diante de todos esses obstáculos, esta configuração cinematográfica viesse a aparecer refletida nas configurações celestes presentes no mapa do Fitzgerald.

Ainda sim, sem muita esperança, fui lá dar uma olhadinha, na expectativa de confirmar se no mapa do Fitzgerald[1] a sua Casa XII se encontrava preenchida por algum planeta visto que esta é a condição necessária para que um indivíduo considere - ao longo de toda a sua existência - o infinito ou o fim. Mas como era de se esperar, esta configuração celeste não aparecia em seu mapa astral.

Seja como for, é importante notar que o indivíduo – que tem algum dos sete planetas pessoais localizados na Casa XII do seu mapa astrológico - enfoca a vida pela perspectiva da finalidade e vê sentido no mundo em função de certas forças maiores que parecem determinar o fim e o rumo de tudo, passando então avaliar tudo em escala macroscópica e nutrindo um interesse profundo em relação ao modo como as coisas caminham aparentemente sem sentido ou direção. Este, afinal, é o indivíduo para quem o além, o invisível, o providencial, o infinito e o grandioso - seja na forma de céu, de deserto ou de mar – estão carregados de informações importantes a respeito do mundo, e para quem os episódios que configuram situações por demais abertas ao desconhecido ou por demais fechadas, limitando a sua liberdade, marcarão de modo indelével toda a sua existência.

Um dos grandes exemplos que se pode tomar do sujeito com este tipo de mentalidade é Galileu Galilei, o astrônomo, cujo mapa astral[2] mostra júpiter e saturno dentro da Casa XII. Em O Ensaiador, ele diz uma das frases mais célebres da sua carreira:

“Sr Sarsi, a coisa não é bem assim. A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante os nossos olhos (isto é, o universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto. (...) Eu não gostaria, Ilustríssimo Senhor, de avançar demais em um oceano infinito, onde não poderia depois voltar ao porto; nem gostaria, enquanto procuro remover uma dúvida, de dar motivo a levantar cem delas, como receio que tenha acontecido, ao menos em parte, com aquele pouco afastamento meu da beira da água: quero, para isto, reservar outra ocasião mais oportuna”.

Mas há outros exemplos de indivíduos cuja mentalidade considerava a vida por esta perspectiva finalística e macroscópica, e cujas palavras revelam e traduzem bastante este modo muito específico de ver o mundo.

Assim disse o poeta T. S. Eliot, com sol na Casa XII[3]:

“Não deixaremos de explorar e, ao término da nossa exploração deveremos chegar ao ponto de partida e conhecer esse lugar pela primeira vez”.

E assim disse o nosso médium Chico Xavier, com lua na Casa XII[4]:

“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”.

Não se pode deixar de mencionar o viajante e escritor Paul Bowles, conhecido internacionalmente pelo seu livro O Céu que Nos Protege, e que teve uma feliz adaptação para o cinema feita por Bernardo Bertolucci. Tanto no romance quanto no filme frisa-se o perfil do verdadeiro viajante: é aquele que se abre ao desconhecido, sem rumo e direção. Paul Bowles, com saturno na Casa XII[5], diz:

“Se os povos e as suas maneiras de viver fossem semelhantes em qualquer outro lugar no mundo, não haveria muitos pontos de partida de um lugar para outro."

Essa mesma noção de caminhar sem rumo e à esmo é aquela que aparece na boca do escritor Anatole France que tinha mercúrio e marte na Casa XII[6]:

"Vaguear restabelece a harmonia original que uma vez existiu entre o homem e o universo”.

Noção que, mesmo sendo expressa de maneira vaga, inevitavelmente nos remete a outra noção: a de destino, uma das maiores metáforas do imponderável. É o que se percebe na letra da música Até o Fim do nosso compositor Chico Buarque, que tinha júpiter e marte na Casa XII[7]:

“Quando eu nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim.”

É o que se percebe também nas palavras da escritora Virginia Woolf, que tinha lua, júpiter e saturno na Casa XII[8]:

“Terá o dedo da morte de pousar de vez em quando no tumulto da vida para evitar que ele nos despedace? Tal será a nossa condição que devamos receber, diariamente, a morte, em pequenas doses, para podermos prosseguir na empresa da vida? E então, que estranhos poderes serão esses que penetram nossos mais secretos caminhos e mudam nossos mais preciosos bens, a despeito de nossa vontade? (...) A natureza, que faz tantas trapaças conosco, plasmando-nos tão desigualmente de argila e de diamantes, de arco-íris e de granito, encerrando tudo em estojos tão incongruentes, pois às vezes o poeta tem cara de açougueiro e o açougueiro cara de poeta; a natureza que se compraz com a confusão e o mistério, de modo que, mesmo hoje (1 de novembro de 1927), não sabemos por que subimos ao primeiro andar nem porque descemos, e os nossos mais cotidianos movimentos são como a passagem de um navio por um mar desconhecido, e os marinheiros do mastro principal perguntam, assestando seus óculos para o horizonte: "Aquilo é terra, ou não?", ao que, se somos profetas, respondemos, "É"; se somos verídicos, dizemos: "Não".”

Diante do exposto, o que posso dizer? Que a obra que ora assistimos no cinema – personificada pelo beija-flor que simboliza o infinito – inevitavelmente nos remete a pensar em tudo isso, mesmo que subliminarmente. E por isso mesmo ela nos serve pelo menos como uma boa ilustração sobre o Grandioso e o Imponderável, temas com que algumas pessoas ocupam a sua mente, seja eventualmente, seja freqüentemente.

Pode ser que Fitzgerald tenha se ocupado eventualmente deste tema, e que esta não seja a grande característica da sua obra. Pode ser até que esta tenha sido a abordagem feita pelos roteiristas e diretor sobre o conto original do escritor. Seja como for, a mensagem foi dada: a vida tem seu próprio caminhar, tem sua própria escritura, e ela se fecha e se desenvolve paradoxalmente, como num círculo.

Por isso, pode ser que a vida tenha mesmo um ciclo.

Pena que algumas pessoas só percebam isso no fim.

Ou quando assistem filmes como esse, sobre Benjamin Button.



Sites consultados:

http://wwws.pt.warnerbros.com/benjaminbutton

http://www.astrocye.com/webcharts/search.htm

http://www.astrodatabank.com

http://www.constelar.com.br/mapasdobrasil/index.php


[1] FRANCIS SCOTT KEY FITZGERALD: 24/09/1896, 15:30 hs, S Paul, Minnesota, EUA
[2] GALILEU GALILEI: 26/02/1564, 15:40 hs, Pisa, Itália.
[3] THOMAS STEARNS ELIOT: 26/09/1888, 7:45 hs, St Louis, MO, EUA
[4] FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER: 2/04/1910, 1:00 hs, Pedro Leopoldo, MG
[5] PAUL FREDERIC BOWLES: 30/12/1910, 15 hs, Nova York, EUA
[6] JACQUES ANATOLE FRANÇOIS THIBAULT: 16/04/1844, 7 hs, Paris, França.
[7] FRANCISCO BUARQUE DE HOLLANDA: 19/06/1944, 11:35 hs, Rio de Janeiro, RJ.
[8] VIRGINIA WOOLF: 25/01/1822, 12:05 hs, Londres, Inglaterra.