domingo, 14 de junho de 2009

curso de ASTROLOGIA & CINEMA

introdução

Os trechos dos 12 filmes que serão exibidos e analisados ao longo deste curso têm por objetivo demonstrar a visão de vida característica de cada cineasta visto que cada um aborda e enfoca a existência por um ou outro prisma, por um ou outro ângulo - e isto por que cada um tem sua própria "cosmovisão".

E esta cosmovisão é de natureza astrológica: a distribuição dos sete planetas ao longo das doze casas astrológicas determina justamente a maneira como cada pessoa vê e interpreta o mundo. Desse modo, ao se conhecer, por um lado, a visão de mundo que caracteriza cada cineasta e, por outro, o mapa astrológico de cada um, percebe-se nitidamente a relação existente entre uma coisa e outra, isto é, entre as doze casas astrológicas e as doze perspectivas humanas.

E é assim que este curso se realiza, ao longo dos trechos exibidos e dos comentários realizados: percebe-se como uma característica se desenvolve e se mantém ao longo de toda a narrativa fílmica; característica, esta, que traduz a visão particular do cineasta e que, por sua vez, tem relações de analogia com determinada configuração astrológica.

Por conta disso, este curso pode parecer apenas um curso de Astrologia ou mais um curso de Cinema analisado sob uma diferente forma. No entanto, ele não se resume nem em uma coisa e nem em outra visto que o que está em jogo é o modo muito particular como a cognição individual se revela numa obra de arte. Isto ata, sem sombra de dúvida, o campo psicológico ao campo estético, só que com um pequeno detalhe: este nó se torna garantido e realizado em campo cosmológico, o que por si só seria suficiente para classificar este curso como filosófico ou metafísico, por causa das bases em que se fundamenta e das reflexões que ele suscita.

Por isso, este não é um curso nem de Astrologia e nem de Cinema mas um curso sobre a cognição humana, em especial sobre o modo como ela é determinada pela configuração do cosmos e como ela se expressa numa obra de arte, unindo, num único conjunto reflexivo, o campo cosmológico, psicológico e estético.

No entanto, como este curso permite reconhecer a cosmovisão individual, ele se transforma também num instrumento de autoconhecimento visto que fornece informações importantes a respeito do modo muito particular como eu, você e os outros encaramos e enfocamos a existência, bem como dos comportamentos psicológicos daí decorrentes. Por isso, mais do que um curso introdutório sobre Astrologia, este curso visa demonstrar a base cognitiva dos nossos comportamentos e que, se às vezes nos desentendemos uns com os outros, é porque cada um enxerga o mundo a seu próprio modo.

cronograma do curso

aula 1: apresentação teórica: o mapa astrológico como diagnóstico cognitivo
· Gordon Allport e a Ordo Amoris: a hierarquia de interesses pessoais
· Ludwig Klages e a direção preferencial do Eu
· As 12 Direções da Atenção Humana e as 12 Casas Astrológicas

aula 2: avaliando a existência sob a perspectiva da identidade
considerações a respeito da imagem que tudo passa e projeta
filme analisado: Persona (1966) de Ingmar Bergman

aula 3: avaliando a existência sob a perspectiva da alteridade
considerações a respeito da influência do outro em nossa vida
filme analisado: Zelig (1983) de Woody Allen

aula 4: avaliando a existência sob a perspectiva da vitalidade
considerações a respeito do prazer que as coisas podem oferecer
filme analisado: Asas do Desejo (1987) de Wim Wenders

aula 5: avaliando a existência sob a perspectiva da adversidade
considerações a respeito do risco e da tensão que as coisas podem oferecer
filme analisado: O Homem que Sabia Demais (1956) de Alfred Hitchcock

aula 6: avaliando a existência sob a perspectiva da comunicabilidade
considerações a respeito das idéias explicitadas e ainda explícitas
filme analisado: Daunbailó (1986) de Jim Jarmusch

aula 7: avaliando a existência sob a perspectiva da legalidade
considerações a respeito dos princípios que geram certezas e orientam
filme analisado: filme analisado: Paraíso (1987) de Diane Keaton

aula 8: avaliando a existência sob a perspectiva da interioridade
considerações a respeito da demanda por profundidade
filme analisado: Metrópolis (1927) de Fritz Lang

aula 9: avaliando a existência sob a perspectiva da coletividade
considerações a respeito da demanda por superioridade
filme analisado: O Grande Ditador (1940) de Charles Chaplin

aula 10: avaliando a existência sob a perspectiva da capacidade
considerações a respeito do domínio exercido
filme analisado: Ata-me (1990) de Pedro Almodóvar

aula 11: avaliando a existência sob a perspectiva da posteridade
considerações a respeito das perspectivas futuras e do projeto a realizar
filme analisado: Cinema Paradiso (1988) de Giuseppe Tornatore

aula 12: avaliando a existência sob a perspectiva da organicidade
considerações a respeito do todo e seu funcionamento equilibrado
filme analisado: Ilha das Flores (1989) de Jorge Furtado

aula 13: avaliando a existência sob a perspectiva da finalidade
considerações a respeito de um fim para o qual tudo caminha
filme analisado: E La Nave Va (1983) de Federico Fellini

aula 14: debate final
· há mesmo uma relação entre o mapa astrológico e a cosmovisão individual?
· confecção do mapa astrológico de cada aluno com a intenção de verificar tal relação.


Metodologia

Aulas expositivas, intercaladas com exibição de trechos de filmes, seguidas de análise e discussão dos mesmos e de leitura de textos. Tais textos serão entregues a cada aula e, ao término do curso, formarão uma apostila. Por ocasião da sua finalização, será calculado o mapa astrológico de cada participante.

carga horária

14 aulas de 3 horas cada, totalizando 42 horas de curso.

público alvo

Este curso se destina a astrólogos, artistas e psicólogos, bem como a todos aqueles indivíduos que queiram compreender melhor a álgebra da vida e o mistério da criação artística, aumentando sua bagagem cultural e aprimorando seu entendimento do ser humano. Desse modo, não é necessário ter conhecimento prévio de Astrologia para realizar este curso.

ASTROLOGIA & CINEMA: UMA COSMOVISÃO

introdução

Ernest Cassirer, em seu livro A Filosofia das Formas Simbólicas, parece tomar a Astrologia como um saber que se funda no imaginário do espaço: “a imagem do cosmo, a imagem dos espaços celestes e da articulação dos corpos nos espaços celestes, tal como descreve a ciência astronômica, está fundada originariamente na intuição astrológica de espaço e do acontecimento no espaço[1]”. Mas em relação a isto, ele já havia feito uma outra observação importante: “Quando atribuímos às coisas no espaço uma determinada grandeza, uma determinada situação e uma determinada distância, não expressamos com isto um simples dado da sensação, mas inserimos os dados sensíveis numa conexão de relação e de sistema, que em última instância mostra não ser senão uma pura conexão do juízo. Toda articulação no espaço pressupõe uma articulação do juízo[2]”.

E assim, ao atribuir a conexão espacial à conexão do juízo, ata de certa forma a dimensão cósmica à dimensão da cognição humana, retomando uma imagem antiga utilizada freqüentemente para se falar da Astrologia: de que o cosmos pensa e que ele é como um cérebro gigante.

Essa imagem pode soar extravagante num primeiro momento. No entanto, ao investigarmos a história da Astrologia, tomamos conhecimento que em pleno século XIII o filósofo árabe Mohyddin Ibn ‘Arabi[3] já associava os planetas celestes às sete funções da alma – o que se encaixa perfeitamente com os estudos “psicológicos” feitos na mesma época, sobretudo por Alberto Magno[4] e São Tomás de Aquino[5] que tentavam sistematizar e resumir toda uma tradição filosófica que, desde Platão, investigava a alma pelo seu aspecto cognitivo, isto é, pelo modo muito próprio como ela percebia, sentia e agia sobre o mundo. Já Henry Corbin[6], um dos maiores nomes quando o assunto é o oriente e o imaginário, e que estudou profundamente a obra de Ibn Arabi, aponta para o fato de que há uma faculdade imaginal: a faculdade celestial por excelência, isto é, a faculdade humana que permite criar imagens que traduzem justamente as relações que se dão entre o sujeito e a totalidade do quadro cósmico e que demonstram que há imagens que são capitais para o sentido e uma visão global da existência.

Se aliarmos tudo isto àquilo que de mais consistente a psicologia moderna produziu sobre o mesmo assunto, construiríamos uma teoria astrológica de fundamento cognitivo, tal como Olavo de Carvalho fez em sua Astrocaracterologia[7]. O que é completamente concebível: afinal, vários estudos sobre a personalidade (estudos que buscam desvendar o misterioso território da singularidade humana) tentaram compreender em especial como cada pessoa enxerga o mundo ao seu redor, apontando para a possibilidade de haver uma relação entre aquilo que a pessoa é e o modo como ela conhece, ou seja, entre ser e conhecer.

Tudo isto pode parecer absurdo mas deveria ser no mínimo suficiente para levarmos em consideração a possibilidade de que há uma relação entre a disposição do cosmos e a disposição da cognição humana, isto é, entre o modo como ser humano conhece e o modo como as condições temporais e espaciais do cosmos em que vivemos determinam nossa cognição. Aliás, este trabalho visa a explorar justamente esta hipótese que, à primeira vista, pode soar tão incompreensível quanto surpreendente: de que os astros determinam a nossa visão de vida, ou seja, a maneira muito particular com que cada um de nós vê e aborda o mundo.

Para demonstrar tal hipótese, nada melhor do que analisar filmes de cinema, justamente porque esta forma de expressão é considerada “a arte da visão” por excelência. Através desta análise, será possível perceber que cada cineasta tem um modo de ver muito característico e que este “modo de ver o mundo” está profundamente relacionado às condições temporais e espaciais em que cada cineasta nasceu, isto é, à hora e ao local do seu nascimento. Desse modo, se perceberá as relações analógicas existentes entre certas narrativas cinematográficas e certas configurações astrológicas.

Entendendo a personalidade humana: a constelação de valores pessoais

Para Gordon W. Allport[8], um dos nomes mais conhecidos da Psicologia contemporânea, o homem, no decorrer da sua evolução, e confrontado com um número cada vez maior de solicitações, se viu forçado a desenvolver um sentido discriminatório da importância das mesmas. Ou melhor: os problemas impostos pela vida sempre exigiram que o homem escolhesse, levando-o a conferir um sentido de importância maior a algumas experiências e a relegar as outras a uma posição secundária. Para Allport esta “eleição hierárquica” ocorre porque há experiências que são centrais para o sentido de existência do sujeito; experiências, estas, que concorrem para o desenvolvimento do seu sentido de identidade. Ao se tornar adulta, a criança deixa de se identificar somente com os seus pais e passa a procurar referências nos grupos, na nação e, num grau último, em certos valores e ideais. Num certo sentido, ela descobre que há valores com que se preocupa profundamente e que a sua personalidade reflete e encarna.

Por isso é que, para ele, os ideais e os valores exercem um papel tão fundamental no desenvolvimento psicológico: são eles que determinam a quê o individuo vai subordinar livremente a sua vida, traçando um esboço daquilo que pode ser chamado de “projeto vital”. Aliás, o próprio Allport emprega um termo da filosofia medieval para lembrar que há uma “intencionalidade” movendo a vida humana – e que esta intencionalidade representa justamente a forma muito particular como alguém se dirige para o futuro. Essas amplas disposições intencionais só podem apontar para um futuro, e determinam por isso mesmo os traços mais marcantes da personalidade de um sujeito – os traços que justamente lhe dão forma.

Por isso é que, para Allport, a personalidade humana só se firma e desabrocha quando se mantém fiel a uma hierarquia de interesses. E é por isso que só se conhece alguém quando se conhece a sua “ordo amoris”: as aspirações que o sujeito nutre com relação a si mesmo, a sua auto-imagem ideal. É ela quem traça uma linha pela qual o indivíduo se orienta e escreve a sua própria história. Aliás, uma grande parte do desenvolvimento psicológico só se realiza por causa desta auto-imagem: é ela quem nos auxilia a combinar nossa visão do presente com nossa visão de futuro. É ela quem define na maioria das vezes uma ambição profunda e sadia e, por isso mesmo, pode ser tomada como um “mapa cognitivo compreensivo” da personalidade individual.

Desse modo, para se compreender uma personalidade humana, basta que prestemos atenção nas direções principais do seu esforço ao longo de toda a sua vida, por maiores que sejam as tensões que daí advenham. Basta que consideremos a constelação de valores em torno da qual a vida do sujeito orbita ou, como já defendia Spranger[9], o sistema de valores que o sujeito encarna. São estes valores que conferem uma marca muito própria à personalidade e submetem a vitalidade psicológica a uma rede de significados, selecionando e inibindo motivações de outras ordens.

O que no entanto, impressiona este notável pesquisador é que estes valores não são infinitos em número – e que por isso mesmo os profissionais que trabalham com psicodiagnósticos deveriam desenvolver um teste que permitisse detectar essas unidades mais compreensivas da personalidade. Que teste poderia ser este? Se não estiver enganado em minhas análises, creio que o mapa astrológico cumpre exatamente esta função: o de diagnosticar a constelação de valores fundamentais em torno da qual a vida de cada pessoa orbita, fazendo justamente com que uma se diferencie da outra.

Entendendo a personalidade humana: as direções da atenção

Para Ludwig Klages[10], que elevou os estudos tipológicos à categoria de ciência, ao se tentar definir e descrever um indivíduo, deve-se perceber como ele se manifesta e reage às circunstâncias e, desse jogo de ações e reações, deve-se notar sobretudo os seus comportamentos mais constantes – a que ele dá o nome de caráter.

Esta definição está baseada na etimologia da própria palavra que, em grego (charakter, charassein) designa o ato de marcar, cunhar e, por conseqüência, as marcas, os traços e as propriedades mais características de um ser, que o distinguem dos demais. Aliás, a palavra chassi é derivada deste vocábulo e, como sabemos, o chassi de um carro traz gravado em si um número que lhe é próprio e distintivo.

Para Klages, o caráter é a base da personalidade e revela a sua condição natural e inerente, sobre a qual incidem todas as outras influências, sejam elas sociais e até mesmo psicológicas. Se o indivíduo pode ser considerado como uma “tabula rasa” sobre a qual a vida se escreve e tal como uma vertente da psicologia da época costumava defender, para ele, cada indivíduo, cada “tabula rasa” seria composta de uma matéria diferente e, por isso, caso fosse de pedra ou de argila ou de vidro ou de papel, sofreria diferentemente a cada influência recebida. O caráter, para ele, é a matéria básica da personalidade.

No entanto, a dificuldade em compreender esta camada da personalidade e de levar adiante os estudos sobre a diferença e a singularidade humana se deu por conta de uma confusão cometida ao longo da história da psicologia: os instintos (triebe) foram confundidos de tal modo com os interesses (triebfedem) que se tornou praticamente impossível compreender o jogo dialético que estas duas forças impõem uma à outra e, sobretudo, o papel de cada uma no desenvolvimento psicológico e na construção da personalidade – sobretudo o papel dos interesses, que determinam as direções da vontade individual.

Esta observação de Klages coincide com uma das críticas mais ácidas que o próprio Allport fez a psicologia corrente pois, para este, a grande maioria dos estados da mente só pode ser adequadamente descrita em termos de futuridade, ou seja, ao se entender a grade de interesses e de valores que move um ser humano. Mas para isso seria necessário desenvolver um tipo de abordagem psicológica que transcendesse a tendência que ainda hoje prevalece de explicar o homem única e exclusivamente em função do seu passado, visto que o futuro também move e determina o ser humano.

Por isso é que, para Klages, o caráter é definido como “uma unidade viva, ou a qualidade distintiva essencial de uma alma individual. Afinal, todo homem é dotado de uma alma mas possui, além disso, um espírito, quer dizer: ele é um eu ou um si. (...) Por isso, num sentido muito específico, o caráter é a qualidade da vontade pessoal, assinalando condições constantes que revelam uma certa direção preferencial de um eu ou de uma consciência - o que determina, portanto, entre outras coisas, as metas às quais alguém se sente impelido".

Vemos, assim que, para este notável pesquisador, o que distingue um ser humano do outro é a direção preferencial da sua atenção e que, em outras palavras, quer dizer: aquilo a que alguém presta atenção e olha.

Klages, aliás, tem uma maneira muito interessante para provar que cada indivíduo se diferencia de outro por conta deste olhar, desta atenção, desta grade de valores específica. Ele diz: se um indivíduo pode ser considerado honesto, que motivos e razões ele teria para ser visto e considerado como tal? Para Klages, há sujeitos que são honestos justamente porque querem passar a melhor imagem de si mesmos, enquanto há outros que assim agem por receio do código penal. Desse modo, ele tenta demonstrar que por detrás de uma mesma característica e de um mesmo comportamento – a honestidade, por exemplo – há um valor que os distingue. Há, por detrás dos comportamentos, todo um olhar, toda uma atenção voltada e roubada por este ou aquele valor.

E, da mesma maneira que as constelações celestes sempre serviram e ainda servem de guia para orientar os navegadores, quem sabe elas prefigurem - de uma maneira surpreendente e inexplicável - estas constelações de valores que nos movem ao longo de toda nossa existência.

A Astrologia e as 12 direções da atenção

O sistema astrológico sempre foi considerado uma espécie de catálogo onde o ser humano foi registrando e depositando, ao longo dos séculos, todas as experiências que lhe eram mais recorrentes e fundamentais. E se analisarmos mais de perto um dos componentes deste sistema – o sistema das Casas Astrológicas – perceberemos que ele descreve exatamente a perspectiva que se abre entre o sujeito nascido e o mundo em torno, isto é, entre um posto de observação e a esfera celeste, demarcando por isto mesmo um certo campo de atenção.

Por isso, se há alguma estrutura do mapa astrológico que possa descrever e diagnosticar os diferentes campos da atenção humana, esta seria exatamente aquela que compõe o sistema das Casas Astrológicas. É ela quem descreveria os possíveis campos da atenção individual, ou melhor, as perspectivas humanas fundamentais, através das quais tudo seria percebido, sentido e até mesmo alterado.

Mas.... que perspectivas fundamentais seriam estas, através das quais cada indivíduo, a sua maneira, procuraria ver o mundo e se orientar?

CASA 1
sob a perspectiva da identidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS PERSONALÍSTICO
se mobiliza
[11] pela auto-imagem que todos passam e projetam

CASA 2
sob a perspectiva da vitalidade

caracteriza o indivíduo de VIÉS SENSORIAL
se mobiliza pela condição física e material das coisas

CASA 3
sob a perspectiva da comunicabilidade

caracteriza o indivíduo de VIÉS LINGÜÍSTICO
se mobiliza pelas idéias explicitadas e ainda implícitas

CASA 4
sob a perspectiva da interioridade

caracteriza o indivíduo de VIÉS EMOCIONAL
se mobiliza pelas exigências e pressões emocionais

CASA 5
sob a perspectiva da capacidade

caracteriza o indivíduo de VIÉS VOCACIONAL
se mobiliza pelo desempenho e mérito pessoais

CASA 6
sob a perspectiva da organicidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SISTÊMICO
se mobiliza pelo todo esquematizado e o seu funcionamento equilibrado

CASA 7
sob a perspectiva da alteridade

caracteriza o indivíduo de VIÉS INTERPESSOAL
se mobiliza pela reciprocidade e pelos níveis de relacionamento

CASA 8
sob a perspectiva da adversidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS TRANSFORMADOR
se mobiliza por processos que gerem mudanças e alterações

CASA 9
sob a perspectiva da universalidade

caracteriza o indivíduo de VIÉS LEGISLATIVO
se mobiliza por princípios e leis gerais que gerem certezas e orientem

CASA 10
sob a perspectiva da coletividade

caracteriza o indivíduo de VIÉS SOCIAL
se mobiliza pelas exigências e pressões sociais

CASA 11
sob a perspectiva da posteridade
caracteriza o indivíduo de VIÉS PROJETIVO
se mobiliza pelas perspectivas futuras e pelo projeto a realizar

CASA 12
sob a perspectiva da finalidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS MACROSCÓPICO
se mobiliza por forças maiores que determinam o fim e o rumo de tudo

Estas perspectivas se tornariam determinantes para cada indivíduo à medida que um dos 7 planetas da Astrologia Tradicional[12] estivesse disposto numa destas Casas do seu mapa natal, configurando assim os focos naturais da sua atenção e conferindo um sentido de importância maior a estas experiências – e não as outras, representadas pelas Casas que se encontrassem vazias.

No entanto, para que esta hipótese seja analisada e demonstrada, nada melhor do que avaliar filmes de cinema feitos por diretores com obra de cunho autoral, verificando em que medida ela se mostra marcada por certa direção preferencial da atenção.

É o que pretendo demonstrar agora com a análise do filme Ilha das Flores, de Jorge Furtado.


[1] CASSIRER, Ernst. A Filosofia das Formas Simbólicas.São Paulo: Martins Fontes, 2004. Pag 115
[2] Obra citada, Pag 63
[3] ÀRABi, Ibn. A Alquimia da Felicidade Perfeita. São Paulo: Ed Landy, 2002 e também BURCKHARDT, Titus. Clave Espiritual de la Astrología Musulmana según Mohyiddîn Ibn Arabí. Ed Sophia Perennis – Spain, 1998.
[4] MICHAUD-QUANTIN, Pierre. La Psychologie de L’activité chez Albert le Grand. Paris: J. Vrin, 1966.
[5] GARDEIL, H. D. Iniciação à Filosofia de S. Tomás de Aquino. tomo Psicologia. Ed Duas Cidades – SP, 1967.
[6] JAMBET, Christian. A Lógica dos Orientais: Henry Corbin e a Ciência das Formas. São Paulo: Editora Globo, 2006.
[7] CARVALHO, Olavo de. O Caráter como Forma Pura da Personalidade. Rio de Janeiro: Astroscientia, 1992.
[8] ALLPORT, Gordon W. Desenvolvimento da Personalidade. São Paulo: Ed. Herder, 1970.
[9] SPRANGER, E. Types of Man. Ed. Halle, Niemeyer, 1928
[10] KLAGES, Ludwig. Los Fundamentos de La Caracterologia. Ed Paidós – Argentina, 1965
[11] se mobiliza tanto intelectualmente quanto afetivamente ou volitivamente, dependendo da natureza do planeta astrológico aí localizado.
[12] a saber: Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

ILHA DAS FLORES: SÍMBOLO DO DESEQUILÍBRIO CÓSMICO


para saber mais sobre o diretor JORGE FURTADO:
http://www.casacinepoa.com.br/index.htm

Hoje, quase todo mundo que vive nos centros urbanizados do Ocidente sente intuitivamente a falta de alguma coisa na vida. Isto deve-se diretamente à criação de um ambiente artificial de onde a natureza foi excluída ao limite máximo possível. Mesmo o homem religioso, em tais circunstâncias, perdeu a noção do significado lógico da natureza. (...) Que se destruiu a harmonia entre homem e natureza é um fato que a maioria das pessoas admite. Mas nem todos percebem que este desequilíbrio se deve à destruição da harmonia entre o homem e Deus.(...) É esta razão porque se faz necessário começar nossa análise ocupando-nos primeiramente das ciências naturais e dos pontos-de-vista que dizem respeito ao significado filosófico e teológico das mesmas e, a seguir, das limitações a ela inerentes – e que são responsáveis pela crise que a aplicação e aceitação da visão de mundo destas ciências trouxeram ao homem moderno.
Seyyed Hossein Nasr, in O HOMEM E A NATUREZA



a história

A história de Ilha das Flores se dá, à princípio, numa plantação de tomates e tem como protagonista – pasmem vocês – um tomate. É em torno do tomate que o enredo da história gira, mostrando os sucessivos personagens que vão se relacionando com o mesmo e que dão uma desenvoltura toda própria a história. Ele é o elo de integração com os outros personagens do drama e, por isso, ora na sua versão madura, ora na sua versão estragada, vai compondo um refrão que, de repetição em repetição, dá uma cadência melódica muito especial à narrativa.
Eis os “grandes personagens” que participam deste enredo:

1) o Tomate plantado em Belém Novo, município de Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, na latitude: 30:12:30 sul e longitude 51:11:23 oeste e que, diferentemente das baleias, galinhas e japoneses, é um vegetal, cultivado pelos humanos como alimento desde 1800, sendo que o planeta já cultiva 61 milhões de tomates por ano;

2) o Sr. Suziki, o plantador de tomates, japonês, que se distingue pelo formato dos olhos, pelos cabelos pretos e pelo nome característico, e que como todo ser humano é um mamífero, bípede, mas que se difere das baleias e das galinhas por ter o teleencéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor, sendo por isso mesmo capaz de processar e armazenar inúmeras informações e também de manipular objetos pequenos com muita precisão, sendo que qualquer ação ou objeto produzido pelo ser humano é fruto da conjugação deste dois fatores, isto é, do teleencéfalo altamente desenvolvido e do polegar opositor;

3) o Dinheiro, iniciativa provável de Giles, Rei da Lídia, grande reino da Ásia menor que no século VII AC viu-se diante da dificuldade de manter o sistema de troca direta de produtos, já que se tornava cada vez mais inviável pesar o número adequado de tomates na troca por uma galinha ou o número adequado de galinhas na troca por uma baleia; situação, esta, que acabou gerando, mais tarde, os Supermercados, onde os produtos são trocados por dinheiro e vice-versa;

4) a Dona Anete, bípede, mamífero, católico-apostólico-romano, que tem também o teleencéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor e é, por isso mesmo, um ser humano, que troca seu dinheiro por tomates no supermercado, sendo seu dinheiro obtido pela margem de lucro de uma outra troca que realiza com uma fábrica de perfumes, de quem compra seus produtos e passa, por sua vez, a trocá-los por dinheiro através das visitas que realiza de porta em porta, sendo também quem compra o tomate para fazer molho para sua carne de porco comprada também no supermercado;

5) o Porco, mamífero tal como a baleia, porém quadrúpede, e que serve como alimento para japoneses, católicos e outros seres humanos, exceto para judeus, e que não tem o teleencéfalo altamente desenvolvido e sequer um polegar, que dirá opositor;

6) o Lixo, onde o porco habita e mora e para onde um dos tomates sem condição de virar molho foi endereçado, sendo um lugar longe para onde todos os produtos de origem orgânica e inorgânica são destinados para livremente cheirarem mal, sujarem e atraírem doenças de todos os tipos que acabam prejudicando o bom funcionamento dos seres humanos, sendo que uma população como a de Porto Alegre (que é de 1 milhão de habitantes) produz 500 toneladas de lixo por dia, e sendo todo este empreendimento fruto também da conjugação do teleencéfalo altamente desenvolvido e do polegar opositor do ser humano, muito embora este lixo fique num terreno que tem um dono e que, apesar de possuir também o teleencéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor, tem – também - dinheiro, que troca com mulheres e crianças que, apesar de possuírem também o teleencéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor, não têm dinheiro e nem dono e que, por isso, em grupo de dez, têm cinco minutos para atravessar o cerco em torno do lixo e catar os alimentos – e os tomates – que foram considerados impróprios para a alimentação dos porcos mas que, agora, estão disponíveis para a alimentação delas.

A maneira com que acabo de apresentar os personagens procura reproduzir o mesmo tom enciclopédico e pedagógico com que a história é narrada em off pelo ator Paulo José, e que dão ao filme uma certa atmosfera de documentário, quebrada repetidas vezes por tiradas de ironia e graça que vão subterraneamente se transformando numa espécie de piada inusitada e macabra, embalada por diversas intervenções musicais inspiradas na obra de Carlos Gomes O Guarani.

Digo piada inusitada e macabra porque este lugar para onde o tomate do início da história é levado para livremente apodrecer e cheirar mal (visto que não serve de alimento para a Dona Anete e a sua família e nem para o porco e para a família do porco, se tornando no entanto o alimento de mulheres e crianças que não têm dinheiro e nem dono) se chama Ilha das Flores: uma lixeira a céu aberto que fica numa ilha, numa porção de terra à parte do continente, onde a ordem natural das coisas se processa de uma maneira completamente inversa e quase que avulsa.

Literalmente, é disto que o filme trata: da inversão de uma ordem natural, a ponto dos seres humanos ficarem abaixo dos porcos na prioridade da escolha de alimentos. E, é claro, na escala de vida. Afinal, já há pessoas que estão vivendo pior do que os porcos.

a maneira como a história é contada

No entanto, o que mais impressiona o espectador ao longo da projeção de todo o filme é a maneira como ele é narrado e contado: ao se apresentar o personagem 1 e, na seqüência, o personagem 2, retoma-se a menção do personagem inicialmente apresentado e assim se prossegue indefinidamente até o último personagem, sempre indo adiante e apresentando um novo personagem e depois retroagindo à série de personagens que já foram apresentados, revelando através deste jogo de construção & desconstrução uma cadeia de relações e mostrando exatamente qual o lugar de cada personagem dentro desta cadeia – ou, senão isto, pelo menos pontuando, através de um refrão que soa inicialmente cômico, quais são os personagens e quais são as relações que se estabelecem entre eles e que, no fim, formam um elo, uma grande engrenagem.

Se dizer que a maneira como o filme é narrado é como um quebra-cabeça onde há uma série de monta-e-desmonta, e se dizer isto soa arbitrário dado que não ocorre a todo o momento, prestemos atenção pelo menos ao fato de que, a cada vez que um personagem é apresentado, mostra-se a série de relações que ele mantém com outros que normalmente estão a sua volta, de modo que ao apresentar o personagem e a sua circunvizinhança natural, o seu contorno, sempre se revela a maneira como ele está atado ao personagem seguinte e aos outros que vão aparecendo, de modo que – o que sempre fica em evidência – é o elo que os une e como eles participam da engrenagem.

Elo, cadeia, engrenagem: estas talvez sejam palavras imprecisas, mas que uso para aludir ao fato de que, aos poucos, a própria montagem do filme vai – junto com o enredo – construindo um verdadeiro ecossistema das relações que se estabelecem entre os fatores apresentados, tal como tento ilustrar abaixo:
lixo ------------ TOMATE --------- SR. SUZIKI ------------- SUPERMERCADO
lixo ------------- PORCO ---------- DONA ANETE --------- FÁBRICA DE PERFUMES

fora da ordem ---- ordem natural --- ordem humana ------ ordem econômica

Afinal, se o tomate e o porco podem ser situados numa ordem que chamo de natural, e o Sr. Suzuki e a Dona Janete numa ordem que chamo de humana, e o supermercado e a fábrica de perfumes numa ordem que chamo de econômica, não deveria o lixo ficar justamente numa situação chamada fora de ordem, visto que ele é levado para bem longe da cidade, para fora do continente, onde justamente se situa a Ilha das Flores?

Acredito que sim. No entanto, mesmo que este esquema não ilustre a estrutura básica do ecossistema do qual estou tentando falar, é, via de regra, um verdadeiro ecossistema que se revela e se mostra através da construção e da montagem tão particular de que o cineasta se utilizou para narrar o filme – e só por isso ele se torna digno de atenção.

No mais, o que torna este filme deveras interessante é que a maneira como a história é contada coincide com o próprio assunto abordado, e isto de um modo tão magistral que, juntos, forma e conteúdo, se propõem a revelar e desvelar um mesmo tema: o equilíbrio (ou desequilíbrio) de um ecossistema. Afinal, do ponto de vista do argumento, o assunto do qual se trata não é o da formação de um ecossistema que se vê subitamente abalado por um fator que passa a entrar no jogo (o dinheiro) e que acaba por inverter a ordem natural das coisas? E o que falar da forma especial como este argumento é tratado e que, de parte em parte, vai mostrando todos os elementos integrantes de um todo, construindo assim – através da própria técnica de montagem – um verdadeiro ecossistema de imagens interligadas, tal como num caleidoscópio, dentro do qual todas as pecinhas interagem?

Esta é a tese que pretendo defender: neste filme, conteúdo & forma estão unidos de forma tão indissolúvel que aquele assunto do qual o argumento trata é o mesmo que se reflete nas imagens utilizadas, e vice-versa, de modo que o próprio tratamento dado às imagens traduz o assunto do qual se ocupa o argumento. Um não vive sem o outro, e o outro não vive sem o um, como os dois lados de uma coisa comum - o que faz com que a estrutura estética desta obra possa ser chamada de especular. Afinal, o que se reflete ali, se reflete lá, como num jogo de luz casado e contínuo.

E, só por isso, Ilha das Flores, se torna um filme tão interessante, digno de uma análise mais profunda, do qual este ensaio pretende ser apenas uma introdução.


Ilha das Flores: símbolo do desequilíbrio cósmico

Mas se as observações que faço soam arbitrárias, e se o tema do equilíbrio & desequilíbrio sistêmicos não estão presentes tanto no roteiro quanto na montagem, é de se considerar e perguntar sobre uma imagem fundamental que se torna recorrente ao longo do filme, formando quase que um refrão: o planeta Terra em movimento de rotação, girando em torno do seu próprio eixo. Ela aparece em trechos significativos:
· na própria abertura do filme (o que o coloca numa posição de destaque), tornando-se símbolo de algo que ainda não sabe muito bem o que é – mas que se espera que o filme venha a revelar;
· implícito na menção da latitude e longitude de Belém Novo, lugar onde se situa a plantação de tomates, cenário onde se inicia a história;
· no momento em que se demonstra literalmente que um dia equivale ao tempo que a Terra leva para girar em torno do seu próprio eixo, sendo pois o fator responsável pela formação das nossas horas e de como distribuímos os nossos afazeres ao longo desta jornada;
· segundos antes em que a imagem de uma lente de um microscópio contendo germes em movimento é rapidamente exibida, justamente no trecho em que se mostra como as doenças “acabam prejudicando o bom funcionamento dos seres humanos”, sendo que a forma circular da lente do microscópio é superposta à forma circular do nosso planeta Terra, traçando assim um paralelo entre o macrocosmo e o microcosmo e prefaciando aquilo que acredito ser o tema do filme: o equilíbrio cósmico. Ou o seu desequilíbrio.

Aliás, a forma circular é, por excelência, o símbolo retomado ao longo de todo o filme, sendo o movimento de rotação da Terra somente uma de suas variantes. Ele aparece, por exemplo:
· personificado no próprio tomate que tem uma forma arredondada e que, por mais simples e inócuo que seja, é comparado em certo momento a uma nuvem da bomba atômica, estabelecendo outro paralelo de equilíbrio natural e desequilíbrio anti-natural – além, é claro, de sua versão ora madura, ora estragada, que personifica ora uma situação de equilíbrio e, ora, uma situação de desequilíbrio;
· personificado pelo teleencéfalo humano, dentro do qual várias imagens se processam, como um caleidoscópio;
· no esquema traduzindo a proporção existente entre a produção de tomates do Sr. Suzuki e a produção brasileira que, por sua vez, é medida dentro da escala da produção mundial;
· na maneira como o dinheiro e os vários artefatos da produção humana vão se conjugando e empilhando, revelando uma grande espiral de imagens que acaba sendo coroada no centro por um slogan publicitário que anuncia: “Bruna, você usa soutien com lycra?”;
· traduzida na maneira quase que enciclopédica com que o filme é narrado ( kyklos = círculo + paidos = educação, cultura, formação da mente humana);
· personificado no relógio que realiza a contagem do tempo;
· na própria concepção de ilha, que é definida como uma porção de terra cercada de água por todos os lados.
No entanto, o que devemos considerar é que a forma circular, e mais propriamente o círculo, é o símbolo por excelência da perfeição, da coisa inteira, tendo sempre um centro e uma periferia, sendo o seu centro invisível e o seu contorno periférico a circunferência propriamente dita. Esta invisibilidade do centro sempre foi interpretada - pelas cosmovisões tradicionais – como o Princípio Maior de onde tudo se origina, e o traçado circunferente como a inesgotabilidade e variedade da manifestação do Princípio Maior, e que descreve propriamente o Mundo. Por isso, dentro da concepção simbólica das cosmovisões tradicionais, a circunferência é o símbolo do mundo em sua imensa variedade e multiplicidade, enquanto o seu centro (invisível) é o símbolo de uma ordem suprema de onde tudo se origina e para onde tudo converte.

Levando em conta essa concepção, parece que o filme trata à princípio do equilíbrio e do desequilíbrio cósmicos – mas não no sentido ecológico como geralmente interpretamos o bom ou o mal andamento do nosso sistema terrestre. E isto porque a imagem do planeta girando pontua no filme uma ordem em torno da qual tudo deveria girar mas que, estando ausente, permite justamente que a ordem natural das coisas se inverta, o caos se estabeleça e apareçam lugares tal como a Ilha das Flores.

E que ordem faltante é esta? Se não há como se recordar, saibam que esta informação já está dada no próprio início da película; aliás, antes mesmo que a primeira imagem se apresente e que é, como disse, a de um globo girando. No início do filme, são exibidas três frases sobre um fundo preto, cada uma por sua vez, e que acabam dando à história uma outra conotação do que esta até então apresentada:
Primeira Frase: “Este não é um filme de ficção”.
Segunda Frase: “Existe um lugar chamado Ilha das Flores”.
Terceira Frase: “Deus não existe”.

A ordem faltante é aquela que podemos depreender desta terceira frase, e pela tragédia do que ela significa mas que talvez sequer atentamos a medida que o filme vai prosseguindo: a ordem faltante é Deus. É de cunho espiritual. E é pela sua ausência que assistimos a tragédia como a que acontece em Ilha das Flores.

Mas, antes mesmo que esta exposição se mostre subitamente absurda e se torne apologética e enfadonha, devemos nos lembrar que, na cosmovisão antiga ou medieval, há uma noção da realidade dividida em 3 planos superpostos, a saber:

Idade Média ---- CORPO ------------------- ALMA ----------------- ESPÍRITO
Cristianismo ---- NATURA ----------------- HOMO ------------------ CÉU
Grécia ------------- PHYSIS ------------------ ETHOS ---------------- LOGOS

--------------------- ordem terrestre -------- ordem humana ------- ordem celeste
Dentro desta cosmovisão, concebia-se que a ordem suprema era a ordem celeste (aquela que estava para além da esfera astronômica), e que toda ordem natural e humana deveria se espelhar e copiar a ordem espiritual, de modo que uma sociedade considerada ordenada e equilibrada seria aquela que procurasse ser à imagem da esfera celeste ou espiritual. Temos um exemplo disso na fundação das cidades segundo o rito que os romanos haviam recebido dos etruscos, e também na repartição dada aos próprios acampamentos pelos hebreus que, mais tarde, se estendeu ao território de todo o país (1) [i].
Não parece, pois, que é este tipo de paralelo que o filme tenta estabelecer: um paralelo entre a ordem social e a ordem cósmica, tal como entendida pelas cosmovisões tradicionais? Se assim for (e acredito que seja), se torna necessário acrescentar ao esquema anteriormente elaborado este grandessíssimo fator ausente da sociedade moderna, de modo que passamos a ter a seguinte configuração sistêmica:
fora da ordem: lixo

ordem natural:
tomate, porco
ordem humana: Sr, Suzuki, Dona Anete
ordem econômica:
Supermercado, Fábrica de Perfumes

ordem espiritual: Deus

Ademais, somente esta configuração pode ser exata, visto que a supressão de um dos pólos (Deus) significa necessariamente a inflação do pólo oposto (o Lixo). Poderíamos , assim, conceber o Lixo como uma ordem que – pela supressão da ordem espiritual – acaba tomando a dianteira, substituindo-a definitivamente. Já disseram que vivemos num mundo sem Deus. Talvez isto seja o mesmo que dizer que vivemos na era do Lixo (2) [ii], onde tudo se torna descartável, inclusive o homem.
Não seria, pois, a Ilha das Flores um filme que mostra como os fatores de diversas ordens vão se interagindo dentro de uma seqüência específica e que, na ausência de um Fator Determinante, acaba criando uma nova ordem, uma ordem avulsa e à parte de todo o ecossistema, que expressa a inversão de tudo e que age tal como uma doença?

Creio que sim. E se a mensagem é esta, que ela sirva de alerta para o modo como há séculos estamos dispondo das nossas horas e distribuindo os nossos afazeres ao longo desta jornada que, no final das contas, se chama vida. Afinal, mesmo que durante os créditos finais apareçam frases que lembrem que este filme, na verdade, foi feito por Jorge Furtado, e que a última frase do texto, na verdade, é do “Romanceiro da Inconfidência” da Cecília Meireles, e que os temas musicais, na verdade, foram extraídos do “Guarani” de Carlos Gomes, e que os personagens, na verdade, são tais e tais atores, e que, na verdade, a maior parte das locações foi rodada na Ilha dos Marinheiros, a dois quilômetros da Ilha das Flores - todo o restante da obra ficcionada se configura como sendo extremamente verdadeira, tal como o filme anuncia: “o resto é verdade”.
É com esta frase que se fecha a exibição do filme. Aliás, é também assim que ele começa: lembram-se da frase inicial? De que “este não é um filme de ficção”.

E não é mesmo.
bibliografia
[i] (1) vide SÍMBOLOS DA CIÊNCIA SAGRADA, de René Guénon, Ed. Pensamento, 1993, página 88
[ii] (2) vide A CRISE DO MUNDO MODERNO, de René Guénon, Ed Veja, Lisboa, 1977, em especial o capítulo A Idade Sombria

ILHA DAS FLORES: fruto de uma inteligência sistêmica

Jorge Furtado

É notável como o curta-metragem Ilha das Flores aborda o desequilíbrio social e espiritual que estamos vivendo. Mais notável ainda porque suas imagens estão dispostas de um modo que remetem imediatamente à idéia de encadeamento, de engrenagem, demonstrando inclusive como todos os fatores estão ligados entre si, formando um circuito absolutamente fechado – um todo cuja integridade depende exatamente do jogo harmônico e equilibrado das suas partes.

Essa noção do todo esquematizado e do funcionamento equilibrado é a noção mais evidente do filme – e é a noção suprema do sujeito cuja inteligência é de natureza sistêmica e orgânica. Aliás, Ilha das Flores é um dos frutos mais expressivos de uma inteligência como esta.

Se assim for, e de acordo com a hipótese das 12 Perspectivas Fundamentais apresentada no capítulo anterior, o mapa astrológico do seu diretor[1] deveria estar com a Casa VI ocupada por um dos sete planetas tradicionais - o que de fato acontece. Ao calcularmos o seu mapa, vemos que o planeta Saturno se encontra posicionado dentro da Casa VI, demonstrando assim a relação existente entre uma configuração astrológica, um tipo de inteligência e uma obra cinematográfica que é a sua mais pura expressão. Vemos, assim, a relação existente entre astros e psique, intermediada e comprovada através de uma obra artística.

E que Saturno seja o planeta a aparecer dentro da Casa VI não é nem um pouco surpreendente e assustador: afinal, para o filósofo árabe Mohieddin Ibn’ Árabi, este planeta está associado a razão humana, àquela necessidade de encontrar um sentido, uma resposta, um entendimento para determinada ordem de experiência. Se levarmos em consideração a tese deste filósofo, teríamos que admitir, mesmo à título de hipótese, que o indivíduo que nascesse com o planeta Saturno localizado dentro da Casa VI procuraria uma razão para o Todo e para o seu funcionamento equilibrado.

Mas não é justamente isso que Ilha das Flores revela e testemunha? Essa característica se revela, entretanto, em outras obras suas. Por ocasião do lançamento do seu novo filme O Homem Que Copiava, a revista Época divulgou em junho de 2003 a seguinte manchete:

JUNTANDO OS PEDAÇOS
O excelente "O Homem Que Copiava" aposta nas simulações para organizar o quebra-cabeça da vida

ESTILHAÇOS
Lázaro Ramos faz o jovem que, tirando fotocópias, vê o mundo em fragmentos

O próprio diretor Jorge Furtado, em entrevista à Agência Carta Maior, em dezembro de 2003, dá o seguinte depoimento:

“Então, o objetivo era fazer algo sobre fragmentação, com um personagem muito fragmentado. (...) Olha, o Ilha das Flores já é, de alguma maneira, uma tentativa de fazer-se um hipertexto, né? Ele é um hipertexto, antes da Internet, pelo menos da Internet para mim. Era a idéia de que um texto leva a outro texto, uma palavra leva a outra palavra e, no final, as coisas acabavam concretizando-se em uma grande rede. Esta era a idéia do Ilha. E O Homem que Copiava é um pouco isso também (...). Eu, agora, me sinto atraído pelo contrário dessa lógica, em todos os sentidos. É a "unidade", em oposição à fragmentação”.

A uma série de outros depoimentos que se seguem, o entrevistador desta revista, Cláudio Szynkier, comenta:

· “Isso mostra como o filme constrói-se e molda-se organicamente. Os significados que ele vai adquirindo nascem dentro dele mesmo, às vezes sem ter nada a ver com o que foi planejado".

· “A descrição inicial que André faz das coisas que cercam o seu mundo sublinha o componente autoral presente no filme. É uma obsessão pela anatomia da realidade, pela dinâmica e influência dos objetos no viver diário do personagem. O dinheiro, quanto ganha, quanto vai sobrar, quanto falta, o que foi possível comprar, quanto tempo necessitaria para comprar aquilo que não foi possível; a copiadora, o que a máquina faz, o chefe, a gostosa; o quarto da menina. Se Ilha das Flores (curta de Furtado, rodado ainda na década de 80) aplicava uma tentativa de "biologia", que compreendia relações humanas e até coisas inanimadas, em O Homem que Copiava o que percebemos é uma intimista análise dos vetores da vida cotidiana de alguém. Mas, nos dois casos, há o apreço pelo ato de esmiuçar, compor a lógica dos ‘mundos’ ".

Não são estes, pois, comentários e depoimentos que testemunham justamente o foco e a direção de uma inteligência que insiste em ver e analisar o mundo de maneira sistêmica e orgânica? Não seria pois Ilha das Flores imagem exemplar criada por uma inteligência que poderíamos chamar de sistêmica? Aliás, o mesmo tipo de inteligência aparece presente e marca a obra de Henry Miller[2], escritor americano, para quem o homem era um todo composto de três partes: Sexus, Plexus e Nexus, os três famosos volumes que compõem a sua obra intitulada A Crucificação Encarnada, uma alusão ao próprio homem cuja imagem é a de uma carne em forma de cruz. Já no episódio Ejaculação da série Tudo o que Você Sempre Quis Saber sobre o Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar, concebido por Woody Allen[3] em 1972, vê-se que uma das partes do corpo humano não está funcionando: o pênis não consegue ter ereção e, ao se apurar a responsabilidade pelo problema, descobre-se que a ameaça se deu em outra parte do organismo: na consciência, revelando, de um modo bem criativo e humorado, como as partes de um mesmo todo estão interligadas.

O que há em comum entre estes três artistas, além do fio narrativo de suas obras ser entretecido por uma perspectiva sistêmica e orgânica? Todos nasceram sob um mesmo fator astrológico, tendo um dos sete planetas tradicionais localizados na Casa VI do seu mapa[4] - motivo suficiente para determinar esse tipo de visão e de abordagem. Aliás, um sujeito com tal configuração astrológica será aquele para quem os episódios que envolvem o dia-a-dia, os hábitos, a ordem e a desordem marcarão de modo indelével toda a sua existência e para quem os relógios, os quebra-cabeças, os mecanismos internos, as engrenagens e o ritmo se transformarão em imagens fundamentais na composição da sua obra estética: imagens-chaves que abrem a compreensão desta mesma obra.




mapa astrológico de Jorge Furtado


[1] JORGE FURTADO: 09/06/1959, 9:30 hs, Porto Alegre. Dito a mim mesmo por ocasião da Terceira Conferência Internacional do Documentário: Imagens da Subjetividade, São Paulo, 11/04/2003.
[2] HENRY MILLER: 26/12/1891, 12:30 hs, Manhattan,NY, USA.
[3] WOODY ALLEN: 01/12/1935, 22:55 hs, Bronx, NY, USA
[4] Henry Miller tinha Saturno na Casa VI, tal como Jorge Furtado, e Woody Allen tinha a Lua nesta Casa.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON

para Ana González


Vi o filme. Enfim, vi o filme. Fiquei oco e mudo por dois dias. Depois voltei ao normal, com forças para respirar e escrever. No entanto, sei que deveria permanecer oco e mudo, ainda sob o impacto da história, fazendo jus à sua beleza. Mas parece que tudo sofre mesmo da ação paradoxal do tempo – e por isso estou aqui, escrevendo.

Escrevendo na expectativa de fazer alguns comentários sobre a história, isto é, de quase chegar a fazer uma história sobre a história, visto que a vida não é nada sem uma boa história. Antes de tudo, devemos agradecer a F. Scott Fitzgerald pela sua narrativa, e por demonstrar que a vida tem a sua própria escritura, tem desenvolvimento próprio – como um livro que se auto-escreve, e cujos capítulos vão se enredando de um modo tão lógico e tão inimaginável que só resta ao último capítulo se juntar ao primeiro, fechando o círculo. A vida é círculo. Não deve ser por acaso que os relógios sejam redondos. E que o bater das asas de um beija-flor formem o símbolo do infinito: dois círculos sobrepostos, de uma continuidade elegante e levemente elíptica.

Será a infinitude o quadrado ou o dobro da vida? Será esta a equação matemática que, apesar de oculta, constitui a trama da existência? Não sei, não sei. Só o que sei é que, depois de ter visto O Estranho Caso de Benjamin Button, cri, mesmo que por um breve instante, que o fim e o começo não existem – vide o anacronismo expresso da história. E que estes só são uma intercessão do tempo. E que raramente saímos do seu círculo, exceto quando percebemos que há uma continuidade infinita que nos abarca e nos engloba, que nos redime, nos orienta e nos enche de glória - o que só ocorre para quem se resigna, aquiesce e aceita essa Imensidão.

Benjamin Button aceita. Mamãe aceita.

Outros personagens, cada um a seu modo, aceitam ou aprendem a aceitar.

Eu, como sou osso duro de roer, estou aqui tentando aprender alguma coisa.

O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON

continuação: parte 2



















Nesta tentativa de aprendizado e de compreender a Imensidão, não pude me furtar de olhar o mapa astrológico do autor da história. Sou astrólogo e, como astrólogo, sei o quanto os astros lançam luzes que nos permitem uma boa compreensão. Mas fiz isso sem muita esperança: afinal, não conheço a vida e a obra de F. Scott Fitzgerald, nem mesmo em profundidade, da qual esse conto é uma pequena mostra, e que foi adaptado para o cinema por Eric Roth e Robin Swicord e dirigida por David Fincher, cujos mapas astrológicos não encontrei mas que, sem sombra de dúvida, poderiam lançar luzes no que vimos nas telas de cinema. Afinal, não podemos nos esquecer disto: sobre a obra original do autor - que tem uma visão de mundo muito específica -, incidiu a visão e a mentalidade de outros artistas que acabaram lhe dando um outro desenho, uma outra configuração. Não havia como esperar que, diante de todos esses obstáculos, esta configuração cinematográfica viesse a aparecer refletida nas configurações celestes presentes no mapa do Fitzgerald.

Ainda sim, sem muita esperança, fui lá dar uma olhadinha, na expectativa de confirmar se no mapa do Fitzgerald[1] a sua Casa XII se encontrava preenchida por algum planeta visto que esta é a condição necessária para que um indivíduo considere - ao longo de toda a sua existência - o infinito ou o fim. Mas como era de se esperar, esta configuração celeste não aparecia em seu mapa astral.

Seja como for, é importante notar que o indivíduo – que tem algum dos sete planetas pessoais localizados na Casa XII do seu mapa astrológico - enfoca a vida pela perspectiva da finalidade e vê sentido no mundo em função de certas forças maiores que parecem determinar o fim e o rumo de tudo, passando então avaliar tudo em escala macroscópica e nutrindo um interesse profundo em relação ao modo como as coisas caminham aparentemente sem sentido ou direção. Este, afinal, é o indivíduo para quem o além, o invisível, o providencial, o infinito e o grandioso - seja na forma de céu, de deserto ou de mar – estão carregados de informações importantes a respeito do mundo, e para quem os episódios que configuram situações por demais abertas ao desconhecido ou por demais fechadas, limitando a sua liberdade, marcarão de modo indelével toda a sua existência.

Um dos grandes exemplos que se pode tomar do sujeito com este tipo de mentalidade é Galileu Galilei, o astrônomo, cujo mapa astral[2] mostra júpiter e saturno dentro da Casa XII. Em O Ensaiador, ele diz uma das frases mais célebres da sua carreira:

“Sr Sarsi, a coisa não é bem assim. A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante os nossos olhos (isto é, o universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto. (...) Eu não gostaria, Ilustríssimo Senhor, de avançar demais em um oceano infinito, onde não poderia depois voltar ao porto; nem gostaria, enquanto procuro remover uma dúvida, de dar motivo a levantar cem delas, como receio que tenha acontecido, ao menos em parte, com aquele pouco afastamento meu da beira da água: quero, para isto, reservar outra ocasião mais oportuna”.

Mas há outros exemplos de indivíduos cuja mentalidade considerava a vida por esta perspectiva finalística e macroscópica, e cujas palavras revelam e traduzem bastante este modo muito específico de ver o mundo.

Assim disse o poeta T. S. Eliot, com sol na Casa XII[3]:

“Não deixaremos de explorar e, ao término da nossa exploração deveremos chegar ao ponto de partida e conhecer esse lugar pela primeira vez”.

E assim disse o nosso médium Chico Xavier, com lua na Casa XII[4]:

“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”.

Não se pode deixar de mencionar o viajante e escritor Paul Bowles, conhecido internacionalmente pelo seu livro O Céu que Nos Protege, e que teve uma feliz adaptação para o cinema feita por Bernardo Bertolucci. Tanto no romance quanto no filme frisa-se o perfil do verdadeiro viajante: é aquele que se abre ao desconhecido, sem rumo e direção. Paul Bowles, com saturno na Casa XII[5], diz:

“Se os povos e as suas maneiras de viver fossem semelhantes em qualquer outro lugar no mundo, não haveria muitos pontos de partida de um lugar para outro."

Essa mesma noção de caminhar sem rumo e à esmo é aquela que aparece na boca do escritor Anatole France que tinha mercúrio e marte na Casa XII[6]:

"Vaguear restabelece a harmonia original que uma vez existiu entre o homem e o universo”.

Noção que, mesmo sendo expressa de maneira vaga, inevitavelmente nos remete a outra noção: a de destino, uma das maiores metáforas do imponderável. É o que se percebe na letra da música Até o Fim do nosso compositor Chico Buarque, que tinha júpiter e marte na Casa XII[7]:

“Quando eu nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim.”

É o que se percebe também nas palavras da escritora Virginia Woolf, que tinha lua, júpiter e saturno na Casa XII[8]:

“Terá o dedo da morte de pousar de vez em quando no tumulto da vida para evitar que ele nos despedace? Tal será a nossa condição que devamos receber, diariamente, a morte, em pequenas doses, para podermos prosseguir na empresa da vida? E então, que estranhos poderes serão esses que penetram nossos mais secretos caminhos e mudam nossos mais preciosos bens, a despeito de nossa vontade? (...) A natureza, que faz tantas trapaças conosco, plasmando-nos tão desigualmente de argila e de diamantes, de arco-íris e de granito, encerrando tudo em estojos tão incongruentes, pois às vezes o poeta tem cara de açougueiro e o açougueiro cara de poeta; a natureza que se compraz com a confusão e o mistério, de modo que, mesmo hoje (1 de novembro de 1927), não sabemos por que subimos ao primeiro andar nem porque descemos, e os nossos mais cotidianos movimentos são como a passagem de um navio por um mar desconhecido, e os marinheiros do mastro principal perguntam, assestando seus óculos para o horizonte: "Aquilo é terra, ou não?", ao que, se somos profetas, respondemos, "É"; se somos verídicos, dizemos: "Não".”

Diante do exposto, o que posso dizer? Que a obra que ora assistimos no cinema – personificada pelo beija-flor que simboliza o infinito – inevitavelmente nos remete a pensar em tudo isso, mesmo que subliminarmente. E por isso mesmo ela nos serve pelo menos como uma boa ilustração sobre o Grandioso e o Imponderável, temas com que algumas pessoas ocupam a sua mente, seja eventualmente, seja freqüentemente.

Pode ser que Fitzgerald tenha se ocupado eventualmente deste tema, e que esta não seja a grande característica da sua obra. Pode ser até que esta tenha sido a abordagem feita pelos roteiristas e diretor sobre o conto original do escritor. Seja como for, a mensagem foi dada: a vida tem seu próprio caminhar, tem sua própria escritura, e ela se fecha e se desenvolve paradoxalmente, como num círculo.

Por isso, pode ser que a vida tenha mesmo um ciclo.

Pena que algumas pessoas só percebam isso no fim.

Ou quando assistem filmes como esse, sobre Benjamin Button.



Sites consultados:

http://wwws.pt.warnerbros.com/benjaminbutton

http://www.astrocye.com/webcharts/search.htm

http://www.astrodatabank.com

http://www.constelar.com.br/mapasdobrasil/index.php


[1] FRANCIS SCOTT KEY FITZGERALD: 24/09/1896, 15:30 hs, S Paul, Minnesota, EUA
[2] GALILEU GALILEI: 26/02/1564, 15:40 hs, Pisa, Itália.
[3] THOMAS STEARNS ELIOT: 26/09/1888, 7:45 hs, St Louis, MO, EUA
[4] FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER: 2/04/1910, 1:00 hs, Pedro Leopoldo, MG
[5] PAUL FREDERIC BOWLES: 30/12/1910, 15 hs, Nova York, EUA
[6] JACQUES ANATOLE FRANÇOIS THIBAULT: 16/04/1844, 7 hs, Paris, França.
[7] FRANCISCO BUARQUE DE HOLLANDA: 19/06/1944, 11:35 hs, Rio de Janeiro, RJ.
[8] VIRGINIA WOOLF: 25/01/1822, 12:05 hs, Londres, Inglaterra.

terça-feira, 12 de maio de 2009

ASTROLOGIA: INTEGRAÇÃO ENTRE DEUS, COSMOS E HOMEM

trabalho apresentado no curso de Filosofia da Religião ministrado pela professora Clara Acker na UFRJ no segundo semestre de 2007.


para Adalgisa Botelho, pela observação quase que premonitória dada no início. Para Cristina Machado, pelo apoio e amizade dados durante. Sabe lá o que será do fim.



INTRODUÇÃO

Atrás da literatura e cultos da Babilônia e Assíria, atrás das lendas e mitos, atrás do Panteão e das crenças religiosas, atrás inclusive dos escritos que parecem ser meramente históricos, há uma concepção astral do universo e de seus fenômenos que afeta todo o pensamento, crença ou culto e que penetra inclusive no campo da atividade intelectual secular, incluindo todos os ramos da ciência cultivados na Antiguidade.

Morris Jastrow
[1].

A Astrologia por diversas vezes foi chamada de “A Grande Ciência” ou de “A Grande Arte”, e isto ocorreu provavelmente por conta da grandeza do seu objeto de estudo: a relação entre a estrutura celeste e os diversos fenômenos terrestres e, em especial, o lugar que cabe a cada indivíduo dentro do cosmos – o que reconhecemos vagamente pelo nome de destino.
Estes epítetos conferidos à Astrologia talvez estejam relacionados ao fato dela constituir um saber primitivo, isto é, um saber primeiro, original, do qual todos os outros saberes se tornaram derivados desde que o homem começou a se interessar por investigar cada fenômeno em sua particularidade. Investigação - diga-se de passagem – que contribuiu para que se perdesse a noção de um Todo Maior que servia de lastro e fundamento para explicar tudo o que ocorria. Todo Maior, este, que aparecia na maior parte das vezes personificado nos astros e na arquitetura celeste.
Talvez a grandeza devida à Astrologia resida nisto: no fato dela ter composto um saber que se fundamentava na noção de totalidade e de unidade original e, sobretudo, por ter servido, no alvorecer de toda e qualquer civilização, como um critério explicativo, isto é, como uma chave para compreensão de todo e qualquer fenômeno, seja este natural, humano ou religioso. Se assim for, o título de grandeza dado à Astrologia se justifica pelo fato dela ter ocupado um insuspeitável posto de maternidade, com a qual alguns conhecimentos sempre mantiveram laços estreitos de parentesco e filiação; laços tão íntimos que, se forem devidamente estudados, poderão, quem sabe, esclarecer o título que ela carrega, bem como revelar o seu lugar dentro do conjunto dos saberes humanos.
O trabalho que se segue é uma tentativa primeira de analisar tais laços e ver como certos conhecimentos, ao se irmanarem em função de uma totalidade astral, inevitavelmente apontam em direção ao saber astrológico, demonstrando o quanto se torna importante estudá-los todos em conjunto, e isto para o bem da compreensão da própria Astrologia.


OS DEUSES E A RELIGIÃO: A EXPRESSÃO MÁXIMA DA TOTALIDADE

Tudo está cheio de deuses.

Tales de Mileto

A frase acima, atribuída a Tales de Mileto, é uma frase tão intrigante quanto reveladora: nela, percebemos que o pensador jônio estabelece uma relação entre os deuses e tudo. Esta relação, aliás, se torna uma marca que vem a caracterizar o que se concebe como a Filosofia Natural dos gregos, onde as especulações sobre a natureza aparecem imbricadas com especulações de ordem religiosa. É o que testemunhamos, por exemplo, nos diversos fragmentos que nos chegaram desta época remota.
No entanto, nestes diversos fragmentos não há um consenso absoluto com relação aos laços que unem os deuses e tudo, visto que cada filósofo pensou e formulou, a sua maneira, as possíveis relações entre a dimensão Natural e a dimensão Sobrenatural, entre a dimensão Física e a dimensão Metafísica, entre o plano Inferior e o plano Superior que são, todas, variações conceituais criadas também ao longo da história da filosofia para tratar desta possível relação entre Deus e o universo físico.
Não é surpreendente pois que estas relações reapareçam nas discussões que o helenista Walter F. Otto propôs acerca da origem e da natureza dos deuses gregos, bem como do fenômeno religioso, e que a história intelectual humana que se seguiu tratou de travestir e deformar. Seu pequeno livro Teofania[2] adverte e dá uma mostra das diversas confusões conceituais que prejudicaram a elucidação da natureza própria do divino, perpetuando preconceitos que não só turvaram o entendimento do que seja Deus mas, sobretudo, do que seja o Mundo e o Homem.
Para Otto, Deus não pode ser tomado:

· como uma força da Natureza que a ciência depois se encarregou de revelar e traduzir: “Já é tempo de notar a enorme ingenuidade com que os pesquisadores das últimas gerações têm projetado no homem arcaico sua própria imagem. Assim como eles não conseguiam ver nos cultos mais antigos outra coisa que não primitivas operações técnicas, as imagens dos deuses se lhes con­verteram em pálidas concepções pré-científicas dos fenómenos naturais... (...) Por isso, até o dia de hoje as análises científicas da religião grega estão todas cheias de deuses da vegetação, deuses de fenómenos meteorológicos, deuses do ano, deuses da primavera, deuses do inverno e assim por diante; ou seja, estão repletas de seres que recebem o nome de "deus", mas que em si mesmos nada mais são que uma vontade acrescentada como causadora ao acontecer natural de cada momento. (...) ...primitivamente, um deus nada mais terá sido que uma força especial da natureza cujo conceito, no transcurso dos tempos, "evoluiu" até converter-se em uma pessoa veneranda, tal como os evolucionismos costumam tirar algo do nada como que por arte de prestidigitação. O fato de que, desde o princípio, a idéia de Deus devera per­tencer a uma dimensão ontológica distinta de todas as noções de causa e efeito e que jamais teria surgido na mente de um ser humano se o próprio deus não se revelasse como tal não entra em linha de conta para os estudiosos...[3]

· como uma força diferente e à parte da natureza humana cuja psique, no entanto, só teve que se dar o trabalho de personificá-la: “... os deuses não se manifestam apenas nos fenó­menos da natureza e nos acontecimentos fatais; manifestam-se também no que move o homem interiormente, determinando sua atitude e suas açóes. Em um mundo pleno do divino, o homem grego não olha para seu íntimo em busca da origem de seus impulsos e de suas responsabilidades; volta os olhos para a amplitude do Ser, e onde nós falamos de disposição interior, encontra as realidades vivas dos deuses. (...) Neles, as potências da vida que nós conhecemos como es­tados de ânimo, inclinações, exaltações, são formas ontológicas da natureza divina que, como tais, não dizem respeito apenas ao homem; operam na terra inteira e em todo o cosmo com seu ser infinito e eterno: Afrodite (o feitiço do amor), Eros (a ener­gia amorosa, procriadora), Aidós (a delicadeza e o pudor), Éris (a discórdia) e muitos outros. (...) O que move o homem no seu íntimo é o ser tomado por divinas potências que, como tais, por toda parte atuam. (...) Por isso a justiça, a honradez, a moral etc. podem em qualquer momento mostrar-se envoltas no esplendor do ser divino. Por menos que o consinta nossa mentalidade, no fundo esta ideia tampouco nos é alheia. Também nós representamos a Fé, o Amor e a Justiça como génios celestiais e com certeza não o fazemos apenas por apego a velhas tradições. Chama-se a isto, irrefletidamente, "personificação", em vez de admitir que há muito mais em nossa experiência do que aquilo de que costumamos tomar nota[4]”.

Lendo estes trechos, conseguimos ter uma idéia, mesmo que vaga, do que Otto concebe como divino. Mas em outros trechos da obra ele formula explicitamente tal noção:

“Já para os gregos, como temos dito, tanto quanto os ordenamentos da natureza elementar que nós, ainda conforme a mesma perspectiva nada grega, chamamos de leis, esses princípios são realidades e verdades que têm sua consistência na interconexão das coisas[5]”.

“O divino em cujo seio o homem sabia-se amparado, neste caso não é o "absolutamente outro" em que se refugiam aqueles para os quais a realidade do mundo se acha dessacralizada. Pelo contrário, é o que nos rodeia, o meio em que vivemos e respiramos, que nos comove e ganha forma na claridade de nossos sentidos, de nosso espírito. É onipresente. Todas as coisas e fenómenos falam dele, na hora magna em que falam de si mesmos. Não falam de um Criador nem de um Senhor, e sim do Ser eterno que tomando forma neles se revela
[6]”.

“Este saber de uma pletora de deuses que não apenas vive no universo, antes é o universo, nada tem a ver com o panteísmo
[7]”.

“Com isso caracterizamos a essência da experiência grega do divino. Mostra-o cada qual a seu modo: Apolo manifesta o ser do universo em sua clareza e ordem, como conhecimento e canto sapiencial, como purificação dos enleios demoníacos. (...) No espírito de Dioniso, vem à luz o mundo em sua forma primeva, como primitivo furor e gozo sem limites. (...) Poderíamos ir adiante, mas essas imagens bastam. Porventura não são elas todas, formas primordiais da vida infinita do mundo, de seus deleites e de seus tenebrosos mistérios? Em verdade, pois, as realidades do mundo outra coisa não são senão deuses, presenças e manifestações divinas. Cada uma delas, em todos os seus níveis e em todas as suas esferas, está cheia do Deus que se revela tanto no elementar como no vegetal e no animal — e no ápice mostra um semblante humano. O que cada um dos deuses patenteia é sempre o mundo em sua totalidade. Pois em cada uma das revelações particulares que eles constituem encerram-se todas as coisas
[8]”.

Nestes trechos – sobretudo nas frases por mim demarcadas – vê-se o quê de algum modo já era anunciado pela boca dos filósofos antigos: que tudo está interligado – querendo dizer com isso que há um todo no qual Deus, Universo e Homem se fundem e se confundem. Dentro desta concepção, o Universo, ou melhor, o plano celeste, não só era a morada dos deuses mas também se revelava como uma espécie de moldura dentro da qual se pintava e se desenrolava toda a história natural e humana. Não é a toa que Otto demarque o céu como um dos três estágios no qual a divindade se apresentava e se manifestava, juntamente com os ritos e a palavra:

“Em primeiro lugar, a posição ereta, voltada para o céu, exclusiva e própria do ser humano. É o primeiro testemunho do mito do céu, do sol e das estrelas, que neste caso não se exprime por palavras e, sim, pela tendência do corpo a erguer-se. Já não lhe reconhemos o significado religioso. Mas dele estamos conscientes no tocante a outras atitudes, a que estamos acostumados desde tempos imemoriais como, por exemplo,o ato de deter-se respeitoso ou fascinado (em latim: superstitio), o ato de erguer os braços e as mãos ou, ao contrário, o de inclinar-se e ajoelhar-se, o juntar as mãos e etc. Na origem, essas atitudes não são mera expressão de uma fé: são a revelação do divino no ser humano, são o próprio mito a manifestar-se[9]”.

Diante do exposto, percebemos que o céu se encontrava investido de potências e que esta investidura parecia ser a própria encarnação da divindade, ambos determinando - céu e deuses - a sucessão de tudo. É como se todo o sistema solar, com sua estrutura específica e com suas revoluções planetárias, pudesse de algum modo determinar todo o desenrolar natural no planeta Terra como, por exemplo, as estações e eventos meteorológicos dos mais variados portes, mas também infiltrar-se em eventos de caráter histórico e psicológico, tais como as pestes e as guerras, bem como na disposição do rei ou do inimigo para agir de determinado modo.
Que toda a extensão desta determinação seja incompreensível aos olhos da mentalidade moderna é absolutamente compreensível, visto que passamos a considerar a Natureza como um elemento completamente avulso e à parte de um Todo onde a dimensão Metafísica e Humana também se encontravam entrelaçadas. É como observa Seyyed Hossein Nasr em seu livro O Homem e a Natureza, diretor da Academia Imperial Iraniana de Filosofia e professor de filosofia da Universidade de Teerã:

“Hoje, quase todo mundo que vive nos centros urbanizados do Ocidente sente intuitivamente a falta de alguma coisa na vida. Isto deve-se diretamente à criação de um ambiente artificial de onde a natureza foi excluída ao limite máximo possível. Mesmo o homem religioso, em tais circunstâncias, perdeu a noção do significado lógico da natureza. (...) Que se destruiu a harmonia entre homem e natureza é um fato que a maioria das pessoas admite. Mas nem todos percebem que este desequilíbrio se deve à destruição da harmonia entre o homem e Deus.(...) É esta razão porque se faz necessário começar nossa análise ocupando-nos primeiramente das ciências naturais e dos pontos-de-vista que dizem respeito ao significado filosófico e teológico das mesmas e, a seguir, das limitações a ela inerentes – e que são responsáveis pela crise que a aplicação e aceitação da visão de mundo destas ciências trouxeram ao homem moderno[10]”.

Que tudo isto tenha se tornado incompreensível é até compreensível, mas não aceitável. E não é aceitável justamente porque a perda da noção deste Todo Maior - em que os planos natural, humano e divino se encontravam entrelaçados – impediu não só que se apreciasse e se entendesse com razoável clareza cada um desses âmbitos isoladamente mas também que se aquilatasse o ônus e o prejuízo do fato destes conhecimentos terem caminhado e se desenvolvido como se estivessem desconectados uns dos outros – mas que, na realidade, nunca estiveram.
A gravidade desta situação intelectual se manifesta a olhos vistos na medida em que nem sempre a lei ou a regra que institui o que é melhor para o ser humano confere e se adéqua ao que é melhor para a natureza, e vice-versa, tal como nem sempre a lei ou a regra que institui o que é melhor para Deus se adéqua ao que é melhor para natureza e para o homem. Sendo assim, temos que considerar que a busca de uma lei integral que atenda simultaneamente à demanda destes três campos ou domínios tomados como distintos talvez seja a mais alta aspiração intelectual humana, presente na mente de boa parte dos eruditos da antiguidade mas que, tendo sido esquecida e banida quase que por completo do horizonte das investigações atuais, transformou a cultura da Era Moderna na mais grandiosa obra de esquizofrenia jamais realizada ao longo da história.
Tal situação se constitui, sem sobra de dúvida, num prejuízo para a Astrologia, cujo entendimento e cuja legitimidade ficam ameaçados na medida em que não se vislumbra e não se reconhece mais esse Todo Maior que englobava, num único conjunto, fenômenos de ordem natural, humana e divina; Todo Maior, este, que constitui o seu alicerce. Não sendo reconhecido mais o seu alicerce, que esperança pode haver de que a Astrologia seja reconhecida como um campo do saber, tal como era outrora?
Esperança alguma – e daí a importância de se investigar os laços que unem o âmbito divino ao âmbito natural e humano, tal como podemos depreender das reflexões de Walter F. Otto e de Seyyed Hossein Nasr. Contudo, é o que verificamos também nas palavras do filósofo Georges Gusdorf, e quando voltamos a vislumbrar em que medida este céu – o céu astronômico – pode determinar eventos de escala natural e humana.


O UNIVERSO E A COSMOLOGIA: A TOTALIDADE DO COSMOS

Tudo é ritmo; todo o destino do homem é um ritmo celeste, tal como o é toda obra de arte; tudo se eleva dos lábios poéticos de deus, e quando o espírito do homem se lhe submete, surgem os destinos luminosos em que se manifesta o gênio, e a poesia vem a ser uma luta pela verdade.... E deste modo o deus usa o poeta como uma flecha para disparar do arco seu ritmo.

Höderlin

O filósofo francês Georges Gusdorf nos dá uma breve idéia em que medida a estrutura astronômica possa estar associada ao desenrolar dos fatos, sejam estes de escala natural ou humana. Para ele, o desenvolvimento matemático da ciência astronômica criou condições de se estabelecerem leis que serviram para medir tudo o que se sucedia no plano natural e humano. Esse progresso intelectual, aliás, colocou o ser humano num novo patamar histórico visto que a partir dele diversas ciências puderam ser racionalmente englobadas num único todo inteligível. A este novo modo de pensar e raciocinar o mundo Gusgorf deu o nome de Astrobiologia. A Astrobiologia aparece como um princípio de causalidade integral, cujo campo de extensão coincide com o real na sua totalidade:

“A nova idade intelectual e espiritual corresponde à apa­rição de um vasto conjunto de representações e de crenças que se têm designado pelo nome de astrobiologia. A astrobiologia introduz um pensamento de escala cósmica. Ela articula as aparências para melhor unificá-las, ela sistematiza e substitui as ligações demasiadamente frouxas da participação e da perti­nência pela idéia de uma regulação impessoal e inteligível.. (...) A astrobiologia é, assim, o primeiro pensamento verdadeira­mente universal que engloba o domínio cósmico e a ordem vital. (...) . As idéias ordenam-se entre si assim como os estados se organizam de uma maneira inteligível, assim também como os ritos tradicionais e as práticas mágicas se reagrupam numa religião coerente. (...) Em geral, pode-se dizer que a astrobiologia está animada por um sentido profundo da unidade sintética do cosmos. A observação dos movimentos regulares dos planetas pelas técni­cas da astronomia nascente fornece à reflexão humana o pro­tótipo de uma legalidade perfeitamente inteligível, que desvelam relações numéricas simples e perfeitas. É por isso que o céu, fonte e exemplário de toda a verdade, é visto como a pátria dos deuses. Caldeus e chineses até Pitágoras e Platão, no pró­prio cristianismo, a representação do céu permanece associada à da morada divina. São os deuses do céu, assimilados aos astros, que comandam o devir dos seres e das coisas. O seu movimento circular é o arquétipo de um devir cujo movimento o calendário, quase que em toda a parte, e graças à conjunção da astronomia e da liturgia, se esforça por restituir. O ciclo das esta­ções obedece aos ciclos planetários, assim como a ele obedecem os trabalhos e os dias, as horas e a sorte dos homens tanto no seu conjunto como no seu pormenor. A religião aparece, então, estreitamente vinculada a este devir do universo: ela define as observâncias rituais destinadas a manter o homem na obediência às forças transcendentes que justificam o movimento do mundo.(...) Este conjunto de especulações e de crenças forma como que o núcleo de concepções do mundo, cujo teor particular pode variar segundo o espírito dos povos que os levam em conta. Mas, para além dos disfarces religiosos, mitológicos ou políticos, encontra-se sempre uma mesma estrutura mental, um análogo exercício da razão endereçada a pôr em ordem o real. A pri­meira noção da lei intervém como uma realidade transcendente, cujo campo de aplicação engloba também a física, a astronomia, tanto quanto a política e a moral. Esta exigência tende, aliás, a reagrupar na mesma obediência tanto deuses quanto homens. (...) Encontra-se afirmado assim o princípio de uma causalidade integral, cujo campo de extensão coincide com o real na sua totalidade. A as­trologia, que durante milénios se desenvolverá como uma ciência exata, exprime um dos aspectos desta inteligibilidade radical do universo, já que os acontecimentos humanos acham-se reduzidos à mesma obediência que o devir material[11]”.

Querendo ou não, as palavras de Gusdorf são contundentes, pelo menos no que tange a explicação deste novo raciocínio desenvolvido pelo homem que pretendia, com um único golpe da inteligência, compreender como todos os domínios da experiência humana se encontravam entrelaçados. Para Gusdorf, como vemos, o raciocínio astrobiológico é um raciocínio nascido em função do desenvolvimento crescente da matemática aplicada à astronomia, o quê permitiu avaliar racionalmente a totalidade do mundo de um modo até então inimaginável, estabelecendo por isso mesmo um conhecimento cujo objetivo se firmava no propósito de descortinar não a causa particular de cada domínio mas, sim, a causa integral - aquela que revela justamente como todos os domínios se encontram integrados num único conjunto e que tem, como critério de medida, a estrutura celeste.
Neste sentido, percebe-se em que medida o céu se torna uma régua cuja ambição é poder aferir e explicar tudo o que ocorre em todos os domínios da vida terrestre. O céu com seus astros personificam assim uma espécie de verdade suprema, uma chave que parece abrir todas as portas. E não é difícil de entender o porquê: no vasto domínio do sistema em que habitamos há não só uma estrutura mas também uma regularidade que parece garantir e determinar tudo o que ocorre no nosso planeta, sejam estes eventos de escala natural ou humana. Para Gusdorf, a As­trologia exprime exatamente esta inteligibilidade e esta racionalidade inerente ao próprio universo que habitamos – o que, por si só, seria suficiente para colocá-la numa linha de investigação científica, por mais que isto soe paradoxal tanto aos cientistas quanto aos próprios astrológos.
Querendo ou não, a Astrologia se assenta numa racionalidade, muito embora esta razão seja aquela que explique ou procure explicar como todas as coisas se encontram dispostas e arranjadas dentro do conjunto cósmico, vindo daí, talvez, a complexidade – mas também a beleza – do seu estudo. Por isso, a possibilidade mesma de haver uma investigação reflexiva e metodológica sobre essa causalidade integral inevitavelmente coindirá com a elevação da Astrologia ao estatuto de ciência, o que talvez não tenha ocorrido ainda devido à perda de interesse cada vez mais crescente que o homem foi nutrindo ao longo da história com relação a esta causa - a causa de todas as causas -, permitindo que ela figurasse como uma quimera, uma utopia remanescente do passado fundada em crendices tolas e absurdas.
É toda esta problemática de caráter epistemológico em relação à Astrologia que talvez tenha levado o filósofo Edgar Morin a admitir[12]:

“Como vimos, a astrologia não é um folclore residual que a sociedade moderna vá fazer desaparecer. Filão marginal na histórica do Ocidente, nem por isso permanece insensível a essa história, idêntica a si própria desde as suas origens. (...) ... a sua lógica fundamental pretende conduzir os fenômenos irregulares do universo humano para a ordem mais regular e mais fundamental que a humanidade jamais conheceu: a ordem do céu. Por aqui se vê que a astro-lógica é da mesma natureza que a lógica que se irá desenvolver mais tarde no determinismo universal, o qual reconduz a aparente desordem dos fenômenos à ordem rigorosa das leis naturais. O parentesco vai mesmo mais longe: o determinismo astrológico é tão implacável e também tão pouco implacável como o determinismo científico: tão implacável porque nunca nenhuma lei há de poder ser violada e não há lugar para a contingência; tão pouco implacável porque estes dois determinismos são ambos captados, utilizados, manipulados para e pela ação do homem. (...) A concepção micro-macrocósmica do mundo é fundamental, ou arcaica, no sentido em que é o primeiro conceito unitário e coerente do universo que emerge no homem, e no sentido em que todo o espírito humano a tem, mais ou menos virtualmente, mais ou menos profundamente, em si. (...) [A astrologia] tem decerto uma base científica (o conhecimento de uma ordem celeste) e uma base organizacional (integração da ordem eco-sistêmica no sistema social), mas uma e outra são integradas e envolvidas nujma concepção mágica (a relação micro-macroscópica). Esta coagulação e interpenetração do científico, do organizacional, do mágico, não denota uma tipo de pensamento primitivo ou selvagem radicalmente diferente do nosso. O nosso é constituído pelos mesmos elementos, mas segundo outras combinações, outras hierarquias. (...) A astrologia torna-se a mais científica das magias e a mais mágica das ciências. (...) A astrologia, por causa desta dupla essência, mergulha no que há de mais fundamental na arqué antropológica, ao mesmo tempo que elabora os fundamentos da modernidade: o cálculo e a racionalização científica. Mesmo quando a astronomia vier a se separar dela, a astrologia há de ficar agarrada a sua cientificidade de base. Donde o seu caráter ainda hoje singular: ser a mais antropo-cosmomórfica e a mais científica das doutrinas ocultas. (...) Ciência mágica e já não religião, a astrologia pode a partir de então coexistir eventualmente com outras religiões, se estas tiverem um mínimo de tolerância em relação às magias que lhes são exteriores; com outras ciências, enquanto estas não se dissociarem da magia. Assim a astrologia vem a coexistir mais ou menos pacificamente com o cristianismo, é tolerada ou reconhecida como ciência auxiliar pelo tomismo, é rejuvenescida pelo espírito panteísta do Renascimento. Será no fim do século XVII que a conjunção da contra ofensiva católica (contra a heresia e os restos de paganismos) e da ofensiva científica racionalista contra a magia vai relegar a astrologia ao gueto ocultista. A astrologia, que já não era religião, deixa também de ser ciência. É denunciada como superstição. E de fato depois da separação da astronomia, a astrologia já não é ciência – o que quer dizer que ela deixa de participar na investigação e no trabalho de observatório[13]”.

Podemos tomar estas palavras como uma advertência para que a Astrologia volte a participar de pesquisas científicas, participação da qual foi excluída e que deveria retomar? Ou será que as reflexões emprendidas por Morin no livro em questão pelo menos não nos apontam para possibilidade da importância da retomada dos estudos e investigações astrológicos? No final do capítulo que lhe cabe no livro, ele diz:

Mas o verdadeiro campo da astrologia moderna é a pessoa. Recordemos: a ciência dá à pessoa os meios para a ação – mas não pode conceber a própria pessoa. A pessoa não é mais do que o resíduo irracional da objetividade científica. (...) Ora, a astrologia moderna arvora-se precisamente em ciência da pessoa.... foi a isto que se chamou, neste estudo, de psico-astrologia. (...) Na verdade, a psico-astrologia ocupa o lugar duma ciência da personalidade que ainda não existe ou que, quando muito, a psicanálise começa a esboçar. (...) [A Astrologia] proporciona à pessoa uma resposta para a obscuridade misteriosa de sua própria identidade. (...) [Mas] a astrologia sofre ainda de inconsistência empírica: as exatidões das suas análises são demasiado vagas ou ambivalentes, os seus erros de predição demasiado numerosos; sofre também de absurdo lógico. Para que a astrologia fosse logicamente fundamentada, seria preciso supor que o ser humano [formado por influências genéticas e sociais, fosse formado também por uma terceira influência[14]] que estaria inscrita no céu zodiacal do seu nascimento e que, na constituição da personalidade individual, reduziria a um papel puramente superficial o alcance das outras duas [influências]. Isto não é absolutamente impossível, mas também não é evidentemente crível. A crença, mais uma vez, parte daquilo que é o primeiro enigma e a perturbação permanente de qualquer ciência objetiva: a pessoa. Se a ciência atual não reparar na pessoa, se a astrologia for uma falsa ciência, então teremos de procurar a scienza nuova[15] ”.

Se todas estas discussões não demonstram como o assunto astrológico é por demais complexo e espinhoso, pelo menos elas revelam o quanto a Astrologia é um saber que se encontra infiltrado e radicado nos mais variados domínios, mostrando as suas pegadas ora no âmbito científico, ora no filosófico e ora no religioso. A Astrologia, de algum modo, parece ser esse saber de natureza ambígua, senão (me perdoem o neologismo) tribígua, visto que ela parece ter seus alicerces fundados nestes três territórios: no natural, no psicológico e no espiritual, vindo daí outra dificuldade que impõe o seu estudo.
Isto deveria ser suficiente para convencer, a nós astrólogos, da importância de todo e qualquer estudo de natureza sistêmica ou interdisciplinar que procurasse vislumbrar pelo menos como estes territórios tangenciam uns nos outros ou como eles estão interligados. Por isso é que qualquer formação intelectual que se adicione à outra se mostra sempre tão fecunda - caso em que astrônomo Antony Aveni se revela exemplar, a ser seguido, quem sabe, por nós astrólogos.


A ASTROLOGIA: UM RETRATO INTEGRAL DO HOMEM?

Quando despontam os dias de primavera e o alento fecundo do Zéfiro volve, primeiro as aves do céu, oh deusa [Afrodite], plenos os corações de teu poder, anunciam teu advento. As bestas ferozes cruzam aos saltos os prados frondosos e atravessam a nado bruscas correntezas, seguem-te por onde quer que as conduzas, presas do teu fascínio: no mar, nas serranias, na folhagem que as aves habitam, nos campos viçosos, tu lhes enches o peito de doce amor; por ti inflamadas, propagam as espécies.

Lucrécio

O astrônomo americano Anthony Aveni, na expectativa de compreender o significado dos mitos que envolviam eventos de ordem astronômica, decide adquirir formação em antropologia e, do diálogo destas duas disciplinas, desenvolve uma análise bastante instigante que vem a ser registrada no seu livro Conversando com os Planetas: como a Ciência e o Mito Inventaram o Cosmo[16].
Já o subtítulo do mesmo não é um despropósito: afinal, ao longo da sua jornada antropológica, foi descobrindo diversos obstáculos que impediam os astrônomos de entenderem os mitos relacionados ao céu, visto que estes tomavam como superstição aquilo que já configurava uma tentativa legítima do ser humano em descobrir e vislumbrar a ordem e o funcionamento do mundo em que habitamos. Ao longo da sua obra, vai tecendo considerações tão importantes a respeito do confronto entre mito e ciência que talvez elas sirvam de prefácio a este trabalho, bem como de advertência para qualquer um que decida investigar assunto tão delicado quanto espinhoso:

“Nunca poderemos saber como as pessoas do passado compreen­diam seu Universo — como elas descobriam as maneiras pelas quais suas muitas partes harmonizavam-se em conjunto — se não fizermos uma tentativa de ver o que elas viam, ouvir o que elas ouviam, sentir o que sentiam, provar o que provavam e cheirar o que cheiravam. A compreensão de como a natureza e a cultura estão relacionadas come­ça com a observação do comportamento complexo de coisas e fenó­menos em seu cenário natural. Mas, mais do que isso, precisamos ler o que eles escreveram para compreender como nossos ancestrais tra­duziram o que viam no céu em conceitos espaciais estranhos a nossas modernas mentes racionais — pitorescas mitologias sobre os deuses e a vida após a morte, um mundo de zodíacos e horóscopos astrológicos. Acabaremos descobrindo que a proposta básica de sua mitologia — criar ordem na natureza por meio da observação de suas nuanças sutis que afetam nossos sentidos — difere pouco da proposta de nossa ciência moderna. E, enquanto estivermos viajando entre as encruzi­lhadas do mito e da ciência planetária, veremos que o bom senso de uma era torna-se a superstição de outra[17]”.

“Este não é um livro sobre ideias tolas. Ele é dedicado a explorar o contexto — o ambiente cultural e natural — no qual uma variedade de explicações sobre o comportamento dos planetas foi formulada. O fato de encontrarmos ou não semelhanças reveladas que ainda sejam válidas é menos importante para mim. O mais importante é que o pro­cesso mental da descoberta científica não mudou. Criamos ordem e unidade integrando fenômenos e conceitos aparentemente não rela­cionados. (...) Criar unidade é parte de um desejo humano natural de buscar a ordem, de construir um mundo menos cheio de dissimilitudes. É ra­zoável pressupor que, de todos os eventos da natureza, aqueles que acontecem no céu, por serem os mais fidedignos e confiáveis com que nossos sentidos se defrontam, ofereceriam o modelo ideal ao qual as sociedades organizadas se voltariam para procurar a estrutura em si mesmas, para descobrir padrões escondidos de comportamento entre sua vida e a vida dos astros. A astrologia, assim como a astronomia, começou quandoas pessoas perceberam que as periodicidades celestes ofereciam as páginas em branco numeradas ideais nas quais a civilização poderia escrever sua história
[18]”.

“Precisamos encarar os fatos: em muitos sentidos, nossos antepas­sados não eram como nós. Quando se tratava de categorizar fenóme­nos naturais, eles eram integradores e não diferenciadores. Eles não compartimentavam seu conhecimento do mundo em campos separados e não relacionados de estudo — como biologia, geologia, química e física — e não reduziam os eventos a explicações encadeadas de cau­sa e efeito. A maioria deles demonstrava uma tendência a interrelacionar o comportamento das coisas no céu com outros aconteci­mentos na natureza que eles captavam em seu universo de sentidos
[19]”.

“Cada curva, guinada e reviravolta sutil, cada desaparecimento e reaparecimento atentamente observado no ciclo do planeta era cuidadosamente anotado em um roteiro de vida tão rico e complexo quanto uma peça de Ibsen ou uma efeméride de Ptolomeu, tão vibrante e pitoresco qunato a Odisseia de Homero ou uma ópera de Verdi. A perda é nossa se escolhemos descartar a mitologia celeste como uma superstição puramente não científica. Ela tem seus elementos reais e vale a pena desbravá-los
[20]”.

No livro em questão, todo desbravar do autor está voltado para os significados que as civilizações antigas emprestaram ao planeta Vênus. Mas para que suas observações façam sentido, torna-se necessário explicar, aqui, a trajetória celeste deste planeta, tal como o próprio astrônomo-antropólogo o fez em seu livro.
Para começar, suas observações, de maneira insistente, não residem sobre a trajetória circular ou elíptica do planeta (visto que esta órbita é aquela que o planeta descreve em torno do sol) e que leva 225 dias para se completar, correspondendo ao que os astrônomos chamam de ano venusino. Ou seja: suas observações não residem sobre esta trajetória, isto é, sobre uma trajetória tal como ela é vista por alguém que estivesse fora e bem distante do sistema solar. Para Aveni, a trajetória que se tornava foco de atenção do homem antigo era aquela que o planeta descrevia visivelmente no céu, ou seja, tal como ele era visto por um observador que estivesse sobre a superfície terrestre. Era este céu visível que se tornava fonte de todos os mitos criados, com seus planetas subindo no horizonte ao leste, atingindo o ápice em determinada altura e depois indo morrer a oeste, num ponto diametralmente oposto.
No que se refere ao Sol, ao seu nascer e morrer, entendemos muito bem isso. Mas... e no que se refere ao planeta Vênus? Além dele ser chamado de Estrela da Manhã por aparecer como uma estrela fulgurante ao amanhecer, ele é também aquela estrela cintilante que aparece logo depois que o sol se põe, sendo chamado por isso mesmo de estrela matutina ou vespertina, respectivamente. Mas, seja num caso ou no outro, o planeta Vênus está sempre próximo do Sol, isto é, ele está se levantando ou se pondo logo antes ou logo depois do Sol. Por conta disso, por ser confundido com uma estrela brilhante e por estar sempre acompanhando o percurso próprio do astro mais brilhante de todos, a sua observação e seus registros se fizeram notórios na história da astronomia.
Mas o seu percurso tal como é visível no céu é curioso: Vênus permanece visível no céu em torno de 263 dias, depois some por cerca de 8 dias, depois volta a reaparecer por mais 263 dias, voltando a desaparecer por quase 50 dias, totalizando um ciclo de 584 dias – o que é considerado o ciclo de visibilidade do planeta. Ou seja: Vênus tem dois períodos iguais de aparecimento pontuados por dois intervalos desiguais de desaparecimento. E mais: quando Vênus aparece logo antes do Sol ao amanhecer no horizonte, ele está brilhando em toda sua potência, mas quando se encaminha ao longo do seu ciclo para desaparecer por definitivo do céu durante alguns dias, vai se tornando cada vez menos brilhante.
Com relação a este movimento de visibilidade e invisibilidade do planeta Vênus, Aveni levanta dados interessantes:

“Na Tabela de Vénus o Códex Dresden, um antigo livro sacerdotal Maia que irei examinar no Capítulo 4, o escriba descreve ciclos de fe­nómenos celestes que não têm nenhuma analogia real em nossa astro­nomia atual, incluindo os momentos em que Vênus está visível no céu do entardecer ou do pré-amanhecer. Tais intervalos foram canoniza­dos em cada página dessa tabela. Quando mapeamos os períodos de desaparecimento de Vénus ao longo de vários anos sazonais, confor­me observação a partir do território maia, descobrimos que a ausência do planeta é mais curta quando Vénus desaparece na estação seca e mais longa durante o tempo das chuvas. Em outras palavras, o inter­valo de tempo que Vénus permanece fora de vista no céu é um bom in­dicador de quando os períodos chuvosos e secos acontecem no ciclo sa­zonal[22]”.

Nos registros astronômicos deste livro Maia, vemos que o período de invisibilidade do planeta Vênus aparece associado aos períodos de seca ou chuva – o que determina, dentre outras coisas, escassez e abundância de alimentos. Será por isso que os mitos referentes a este objeto celeste – o planeta Vênus - aparece freqüentemente associado à fecundidade e sexualidade? Temos que lembrar que a deusa Vênus, na mitologia grega, aparece como a deusa do amor. Esta hipótese se reafirma com o modo como os sumérios computavam o percurso do mesmo objeto celeste:

“Da mesma forma como os sumérios dividiram a região do Tigre-;Eufrates em cidades-Estado, eles também segmentaram seu céu em três áreas longitudinais. Cada um desses setores do céu era associado a uma região ou país na Terra, nomeada de acordo com os deuses: Anu para o Elam, a leste do Eufrates; Ea para Amurru, a oeste; Enlil para Akkad, espremida entre as outras duas. Quando um peregrino[23] entrava em uma determinada zona celeste, seu augúrio referia-se às terras atribuídas àquela zona; por exemplo, o primeiro nascer de Vé­nus em Anu trazia (em geral) um augúrio de abundância para as terras a leste do rio. Como poderíamos esperar, a mensagem frequentemen­te era codificada na metáfora de satisfação sexual acompanhada de im­plicações morais. Quanto maior a frequência do ato sexual, mais no­vos frutos da videira iriam brotar, e quanto mais realizamos o ato se­xual, mais crianças, os frutos de nossa videira, trazemos para o mun­do. Um dos augúrios diz: Quando Vénus estiver alta, prazer da copulação. Quando Vénus estiver em seu lugar, elevação das forças hostis, ´plenitude´ das mulheres deve haver na terra[24]”.

Aqui, a relação entre fecundidade natural e fecundidade humana parece ser puramente metafórica – se não fosse pelo fato de que o período em que Vênus fica visível no céu corresponde a 263 dias, ou seja: nove meses, duração da gravidez humana[25]... Será que aqui a relação deixa de ser pura metáfora, pura poética, e assume ares mais concretos, mais verossímeis?
É de se notar também que a estátua de Apolo em Delos sustinha na palma da mão as três Graças, tal como lembra Walter Otto no seu livro Teofania[26]. Sabemos, se formos versados em mitologia Grega, que as três Graças estão diretamente associadas à Vênus – mas por quê elas, as Graças, aparecem sobre a palma de Apolo? Ou melhor: há algum porquê que possa nos elucidar a relação existente entre este mito em forma de estátua e a astronomia? Há? Afinal, Vênus nunca se distancia do Sol em sua trajetória celeste, e seria concebível que de algum modo este dois planetas aparecessem personificados juntos – tal como na estátua em questão. Mas.... e as três Graças? Será que Elas não estão associadas aos três estados básicos com que Vênus figura no céu: a Vênus matutina, a Vênus vespertina e a Vênus invisível, isto é, aquela que migrou para o mundo inferior?
Seja como for, não é difícil imaginar que o percurso da descida de Vênus no céu até alcançar a total invisibilidade por debaixo do horizonte terrestre possa aparecer personificado, nas mais diversas mitologias, como uma verdadeira descida a um mundo invisível e desconhecido: ao outro mundo. A isto, Aveni observa:

“Em qualquer língua, a história nos conta muito sobre as crenças de pessoas quanto à morte e a outra vida, ao poder de ressuscitar os mortos, à relação entre os vivos e os mortos. O que está por detrás disso é uma curiosidade sobre o mundo dos mortos em geral – os males da pilhagem, saque e outros infortúnios que o desconhecido é capaz de infligir sobre a raça humana e nossa capacidade de reter ou perder o que possuímos[27]”.

Aliás, o mito referente à Vênus sumérica, Inanna Ishtar[28], é bastante curioso no que tange às características do planeta Vênus: a deusa abandona sua morada celestial e parte, na sua jornada, para o mundo inferior, tendo que passar então por sete portas. À medida que vai descendo, vai se despindo de seus trajes riquíssimos e, ao chegar definitivamente no mundo inferior, onde o pó se torna alimentação e a argila comida, ela é morta e pendurada numa estaca. Como ela não retorna ao mundo superior ao longo de 3 dias e 3 noites, seu mensageiro Ninshubur clama por socorro aos deuses – mas somente o deus da água, Enki, se prontifica a ajudá-la, insuflando água por todo o pó e argila que nela se infiltrara. Inanna desperta e retoma o seu caminho ao grande mundo de cima, recuperando suas vestes enquanto passa novamente pelos sete portões.
Será que neste mito não fica muito evidente a sua relação com eventos de ordem astronômica? Será que o ato de se despir e de se vestir não está associado à perda e a recuperação do brilho que é próprio a Vênus? Será que as sete portas não estão associadas aos sete planetas celestes, até então conhecidos? Será que o seu período de desaparecimento no mundo inferior não corresponde de algum modo aproximado ao período em que o planeta desaparece sob o horizonte? Será que o único deus que vem a ajudá-la não é justamente aquele que meteorologicamente está associado às chuvas, a abundância e fertilidade?
Será?
Ou não será tudo isso pelo menos significativo para supormos que as relações entre astros, natureza e homem não são meramente poéticas e metafóricas, havendo pois relações insuspeitadas que as tornam inteligíveis caso sejam analisadas e descobertas, tal como Anthony Aveni o fez?
Se assim for, quem sabe a convergência de diversas disciplinas venha a permitir com que se deslinde todo esse imenso quebra-cabeça que é a vida humana, e que em tempos remotos reunia, num único conjunto compreensível, o âmbito espiritual, psicológico e natural.


BIBLIOGRAFIA

AVENI, ANTHONY. Conversando com os planetas: como a Ciência e o Mito inventaram o Cosmo. São Paulo: Mercuryo, 1993.

BERTOLA, FRANCESCO. Imago Mundi: la rappresentazione del cosmo attraverso i secoli. Itália: Biblos, 1997.

BÖHRINGER, SIEGFRIED. Astrologia: cosmo e destino. Petrópolis: Vozes, 1992.

CORNFORD, F.M. Principium Sapientiae: as origens do pensamento filosófico greco. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989.

CUMONT, FRANZ. Astrologia y religion en el mundo grecorromano. Franz Cumont. Espanha: Edicomunicacion S.A, 1989.

GUSDORF, GEORGES. Mito e metafísica. São Paulo: Convívio, 1980.

JASTROW, MORRIS. The Religion of Babylonia and Assyria. USA: Dodo Press, 2007.

KIRK, G.S e outros. Os filósofos Pré-socráticos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2005.

MORIN, EDGAR e outros. O Retorno dos Astrólogos. Lisboa: Ed. Moraes, 1972.

NARS, SEYYED HOSSEIN. O homem e a natureza. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

OTTO, WALTER F. Teofania. São Paulo: Odysseus, 2006.

STUCKRAD, KOCKU VON. História da Astrologia: da antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Globo, 2007.

TARNAS, RICHARD. A epopéia do pensamento ocidental. São Paulo: Bertrand do Brasil. 1999.

WHITFIELD, PETER. Astrology, a history. New York: Harry N. Abrams, 2001.

notas de rodapé:
[1] JASTROW, MORRIS. The Religion of Babylonia and Assyria. USA: Dodo Press, 2007.
[2] TEOFANIA, O Espírito da Religião dos Gregos Antigos, Walter F. Otto, Ed. Odysseus, SP, 2006.
[3] Obra citada, págs 33 e 34
[4] Obra citada, págs 69,70 e 71.
[5] Obra citada pág 71
[6] Obra citada pág 86
[7] Obra citada pág 112
[8] Obra citada pág 123
[9] Obra citada pág 43
[10] O Homem e a Natureza, de Seyyed Hossein Nasr, Ed. Zahar, 1977.
[11] págs 131, 132, 133 e 134 de MITO E METAFÍSICA, de Georges Gusdorf, ed. Convívio, SP, 1980.
[12] este trecho foi acrescentado ao meu texto original em função de sua apresentação na Astrológica 2008, evento realizado pela Escola Gaia em São Paulo, ocasião em que o astrólogo Boanerges me fez lembrar da pertinência das observações de Edgar Morin em relação a reflexão que estava propondo.
[13] págs 187,190, 191, 192, 193, 196, 199 de O RETORNO DOS ASTRÓLOGOS, de Edgar Morin e outros. Ed Moraes, Portugal, 1972.
[14] alterei neste trecho a terminologia técnica utilizada pelo autor, visando uma maior compreensão do assunto.
[15] págs 206, 207, 215 e 216 do livro citado.
[16] Conversando com os Planetas: como a Ciência e o Mito Inventaram o Cosmo, de Anthoy Aveni, Ed Mercúrio,SP, 1993
[17] Obra citada, pág 8.
[18] Obra citada, págs 19 e 20.
[19] Obra citada,pág 24 e 25.
[20] Obra citada, pág 55.
[22] Obra citada, pág 13
[23] entenda-se planeta.
[24] Obra citada, pág 66, 67.
[25] O próprio Aveni anota isso na pág 42.
[26] Obra citada, pág 108
[27] Obra citada, pág 70.
[28] narrado por Aveni na obra citada, págs 67e 68.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

EM DEFESA DA ASTROLOGIA


Pitágoras, no século 6 AC, fundou uma escola filosófica que preconizava os números como representação da estética universal, uma ponte entre a razão humana e o mundo natural. Segundo os pitagóricos, tudo podia ser representado por números, sendo o papel do filósofo descobrir as relações secretas entre eles e a natureza. Os pitagóricos criaram a noção de harmonia para representar o estado de transcendência que é atingido quando nossas aspirações estéticas, manifestas por meio dos números e suas relações, encontram ressonância no mundo real. Ordem, beleza e simetria são unificadas em uma experiência que une o místico ao intelectual. Essa busca pelo que é tanto racionalmente belo quanto relacionado com uma descrição do mundo real é o que inspira grande parte da obra científica tanto no passado quanto hoje. Nós, como os pitagóricos, também celebramos a harmonia dos números na descrição científica da natureza.

MARCELO GLEISER


A Astrologia e o preconceito existente

O tema astrológico é um tema de grande popularidade, presente na seção de horóscopos de todo e qualquer jornal ou revista. No entanto, por maior que seja a sua popularidade, vale a pena atentar para o fato de que toda discussão a respeito deste assunto tem se mostrado bastante superficial e leviana, impedindo que o debate progrida e chegue a um bom termo. Aliás, para a maioria das pessoas, sejam estas letradas ou não, toda a análise que se poderia fazer a respeito deste assunto já foi feita, dando-o por liquidado, quando, na realidade, há muito ainda que se discutir sobre este tema. Ou pior: talvez ele sequer tenha sido discutido de maneira intelectualmente honesta e responsável.

Dizem que um dos motivos fundamentais pelo qual o ser humano se lança no desconhecido e procura desvendá-lo é a necessidade inalienável do seu espírito pela verdade ou por um pouco mais de luz. Parece, assim, que a única coisa capaz de sossegar a mente humana reside na possibilidade de alcançar uma clareza sobre os fatos e os fenômenos que a cercam – uma clareza, se não absoluta, pelo menos razoável. Mas alcançar clareza e certeza sobre as coisas não é nada fácil: elas são elaboradas às custas de muitas dúvidas, e estas, nem sempre, são enfrentadas com paciência e rigor. Aliás, muitos homens que se consideram “homens do saber” não enfrentam as dúvidas com honestidade intelectual e, diante da sua enorme impotência mental perante o desconhecido, formulam uma certeza às pressas, completamente arbitrária, acreditando que assim chegaram a única conclusão a que se poderia chegar.

Devemos considerar que estes “homens do saber” talvez se esquivem da causa pela qual dizem trabalhar e, deixando de enfrentar as enormes incertezas e contínuas críticas e revisões que a tarefa intelectual exige, acabam construindo teses e teorias em que jamais há a marca da autêntica universalidade: daquela universalidade contemplativa, onde se vislumbra de uma só vez a coerência, a harmonia, a integridade e a visão de conjunto. Aliás, sem este nível de universalidade que eleva nossa inteligência acima das incertezas, continuamos imersos nos fatos variados e múltiplos que ofuscam nossa capacidade de interpretação e nos levam a elaborar teorias fragmentadas e vazias, maculadas pela visão e pela opinião pessoal. Deveríamos inclusive nos lembrar das advertências de Max Weber ao dizer que “se o cientista topa com fatos que não pode explicar com os meios atuais da investigação científica, não lhe cabe negá-los em nome seja do que for, ou ignorá-los, ou relegá-los à esfera da superstição[1]”.

Por isso, antes de levarmos em consideração as objeções e os elogios fanáticos que geralmente são feitos com relação à Astrologia - ou contra qualquer outro assunto – deveríamos investigar todas as suas implicações, sobretudo as de ordem histórica, antropológica e filosófica, verificando assim sua possível legitimidade e valia. Quem sabe uma investigação de tal porte esclareça alguns de seus pontos obscuros, vítimas freqüentes de preconceitos.

Astrologia: uma cosmovisão

A antiga divisão do universo num desenvolvimento objetivo no espaço e no tempo, por um lado, e numa alma que reflete esse desenvolvimento, por outro, já não serve para ponto de partida caso se queira compreender as ciências modernas da natureza. É, antes de tudo, a rede de interligações entre o homem e a natureza o objetivo central da ciência.

WERNER HEISENBERG

O tema astrológico nunca passou ao largo do corpo de conhecimentos e dos interesses humanos como parece. Afinal, o entendimento de si mesmo bem como do que existe em torno sempre foi - e continua sendo - a mola que impulsiona a inteligência dos homens. Não é à-toa, pois, que este tema apareça equacionado de diversas maneiras em discussões que, aparentemente, não tem nada de astrológico.

O tema astrológico - para enfado de uns e para o histerismo de outros - é um tema que está inextricavelmente associado à idéia que o homem sempre nutriu sobre o lugar da espécie dentro do cosmos, e isto nas mais diversas épocas e civilizações. Ao longo dos séculos, o ser humano sempre tentou compreender melhor a si mesmo e o mundo que o cerca e cada época da história ficou caracterizada por elaborar este entendimento de um modo muito particular. Cada época, a seu modo, teve o que chamamos de cosmovisão: um modo muito próprio de compreender não só o Homem e a Natureza mas também a Deus.

Esta cosmovisão se encontra boa parte das vezes personificada na concepção que o homem nutriu e formulou sobre o cosmos e o mundo: não é a toa que a Astronomia figure como uma das ciências que primeiro se desenvolve e alcança rapidamente sua perfeição, e isto em quase todas as civilizações. De certo modo, o conhecimento da natureza e da estrutura do cosmos, sobretudo dos astros, dava ao homem a imagem necessária do cenário onde se desenrolava a sua vida. Desde a Antigüidade até a Idade Média, compreendia-se que o mundo estava estruturado e organizado em três níveis ou dimensões, a saber:

1. a dimensão física ou natural
2. a dimensão humana
3. a dimensão sobre-natural ou meta-física

Esta cosmologia tinha sobretudo uma característica: estabelecia um hierarquia entre a dimensão física e metafísica, isto é, entre o plano inferior e superior, entre o mundo sensível e inteligível, entre a Natureza e Deus, tendo, no centro, o Homem. Esta hierarquia não só determinava tudo o que podia ocorrer em cada uma destas 3 dimensões mas, também, a maneira específica como cada uma poderia ser conhecida: das alturas do plano superior até a base do plano inferior, estabelecia-se uma via de mediação por onde o infinito tocava e conhecia o finito e por onde o finito tocava e conhecia o infinito também. Era por essa via de mediação que Deus tocava e conhecia o Homem, assim como o Homem tocava e conhecia Deus. Mas, para que isso ocorresse, havia toda uma trajetória, todo um percurso que ora era realizado num salto único e súbito e ora era realizado passo a passo, numa seqüência sujeita a leis bastante rigorosas.

Desse modo, o mundo era concebido como uma esfera fechada em si mesma, no interior da qual tudo se processava: do divino e imóvel motor do universo até o mundo sublunar, partia a força que agia sobre sucessivas camadas, se propagando numa seqüência contínua e ordenada. Por maior que fosse a distância entre o começo e o fim deste processo, tudo era compreendido e explicado por se conceber o cosmos como um todo fechado devidamente organizado e hierarquizado.

É tendo esta cosmologia como pano de fundo cultural que a Astrologia se sustentou e aflorou ao longo dos tempos, ora em sua versão doutrinal e mística, revelando o aspecto propriamente primitivo e original de adoração e revelação dos Céus, e ora em sua versão racional, revelando o aspecto propriamente astronômico e matemático deste saber que acabou atravessando toda a Idade Média como um princípio de inteligibilidade do Mundo, isto é, como um modo de compreender tanto a existência humana quanto o mundo em torno, tal como Ernst Cassirer explica em seu monumental livro O Indivíduo e o Cosmos na Filosofia do Renascimento[2]. A despeito das tremendas disputas dialéticas que se travaram sobre o tema astrológico em plena Idade Média, ainda assim ela pode continuar incólume como princípio de conhecimento do mundo que entendia e interpretava, num só golpe de olhar, o lugar que cabia à Natureza, ao Homem e a Deus.

O próprio Dante Alighieri a admitiu neste sentido. Em sua obra chamada Convívio[3] ele nos revela um sistema completo de conhecimento que corresponde ponto por ponto ao sistema astrológico. As sete ciências do Trivium e do Quadrivium - que compunham o sistema pedagógico chamado de Artes Liberais - eram associadas explicitamente às sete esferas planetárias, deixando entrever que um possível processo tanto de ascese espiritual quanto de formação intelectual se dava quando o indivíduo cumpria gradativamente as exigências contidas em cada uma destas sete ciências, e quando no final se compreendia todos os mistérios que se encontravam escritos no livro celeste.

Neste sistema, a Astrologia aparece por último, como que coroando as outras disciplinas que se propunham, todas, a levar o indivíduo a elaborar paulatinamente a totalidade da experiência de uma maneira em que ela se tornasse compreensível. Na história da cultura ocidental esse sistema existiu, quase sem interrupções, desde a Antigüidade até a Idade Média, se tornando o berço e a fonte de onde nasceram quase todos os conhecimentos mais significativos da nossa cultura:

AS ARTES LIBERAIS

ciências do trivium

Gramática: disciplina que levava o indivíduo a perceber a base material em que se constrói o discurso e que lhe dá um corpo ( como, por exemplo, no estudo dos sons das palavras e - ainda em algumas culturas - da imagem das letras), demonstrando dessa maneira o elo existente entre a dimensão física e a dimensão lingüística e simbólica;

Retórica: disciplina que levava o indivíduo a perceber que há diversas e variadas maneiras de causar uma comoção e uma reflexão no outro, estimulando-o a participar também da experiência do conhecimento, se deparando, assim, com o fato de que a dimensão metafísica deve ser apreendida por cada inteligência em particular, demonstrando dessa maneira o elo existente entre a inteligência particular e a alheia;

Lógica: disciplina que levava o indivíduo a perceber uma certa exigência que move forçosamente o raciocínio numa direção específica, impulsionado pela necessidade de desenvolver uma síntese cada vez mais abrangente dos fatos e que lhe coloca na condição de participar, em níveis e graus variados, de um plano superior, demonstrando dessa maneira o elo existente entre a dimensão cognitiva e a dimensão metafísica, isto é, entre a inteligência individual e uma certa inteligência universal, o Logos.

ciências do quadrivium

Aritmética: disciplina que levava o indivíduo a perceber não tão somente o número pela sua característica quantitativa visto que, para que as coisas sejam várias e possam ser contadas, elas têm que ser necessariamente uma, isto é, ter unidade, revelando então o caráter essencial e substancial das coisas existentes, a sua estrutura elementar, demonstrando que tudo é o que é por possuir uma “misteriosa” força de unidade e integridade que faz com que as coisas se apresentem e sejam desta maneira - e não de outra. A aritmética era, antes de tudo, um estudo das identidades.

Geometria: disciplina que levava o indivíduo a perceber como as unidades se distribuem ao longo do espaço e o ocupam, demonstrando que as idéias de proporção (da dimensão espacial) bem como as de perspectiva (da direção espacial) eram desenvolvidas com o fim de estabelecer o equilíbrio e a harmonia espacial.

Música: disciplina que levava o indivíduo a perceber como as unidades se manifestam ao longo do tempo, isto é, o compasso de duração típico de cada coisa, revelando o ritmo sob o qual tudo se desenvolve, demonstrando que a idéia de melodia era desenvolvida com o fim de estabelecer o equilíbrio e a harmonia temporal.

Astronomia-Astrologia: disciplina que levava o indivíduo a perceber o laço existente entre as três noções anteriormente apreendidas, isto é, entre a noção de unidade, espaço e tempo, demonstrando que cada coisa, por ser o que é, se desenvolve ao longo de um tempo e ocupa um certo lugar que lhe são muito peculiares, revelando assim os laços e as relações existentes entre a estrutura elementar particular (o microcosmo) e a estrutura universal (o macrocosmo), permitindo descobrir a unidade dentro da diversidade, a ordem dentro do caos - tudo com o fim de estabelecer, digamos, o equilíbrio e a harmonia existencial. A Astrologia era a disciplina se ocupava com o estudo do significado do céu, enquanto a astronomia tratava somente do aspecto físico e descritivo deste mesmo céu, sem o seu conteúdo simbólico. A Astrologia era, antes de tudo, um estudo astronômico sobre o sentido e o significado de como todas as coisas estão arranjadas. A Astrologia, pois, não passava de uma astronomia significativa[4].

Estas 7 ciências levavam o ser humano a compreender as regras e as leis que se encontravam embutidas em cada um dos objetos estudados, e isto de um modo que no final se pudesse contemplá-las dentro de um único conjunto, personificado na Estrutura e Harmonia Celeste. Por isso, as Artes Liberais não compunham um simples agregado casual de disciplinas, nem mesmo uma combinação engenhosa de elementos díspares juntados tão somente em vista do desenvolvimento pedagógico a que se propunham. As Artes Liberais compunham um sistema, uma unidade dotada de coesão intrínseca, por mais que historicamente esta unidade se mantivesse velada e não fosse abordada textualmente de maneira explícita, e por mais que o conteúdo de uma disciplina nem sempre demonstrasse claramente a correlação existente com as outras, visto que, ora e meia, uma disciplina se tornava mais valorizada do que as demais, fazendo com que os laços existentes entre elas se tornassem mais tênues[5]. No entanto, tão íntimos e inextricáveis eram estes laços que se poderia dizer, sem exagero, que constituíam uma só ciência estudada sob sete aspectos diferentes, se tornando representativa não tão somente em cada uma de suas partes isoladas como também na estrutura do seu conjunto.

O resultado de tudo isso é a formação de uma cosmovisão bastante singular: uma espécie de astrologia escolástica ou de escolástica astrológica, em que a pedagogia da época[6] e a arquitetura das Igrejas[7] procuravam espelhar a proporção da estrutura celeste. Por isso, estudar a Idade Média se torna uma fonte vital para compreender os laços que uniram a vida do espírito à vida intelectual, e o status ao mesmo tempo paradoxal e soberano que a Astrologia alcançou como um sistema de conhecimento por esta época.

No entanto, é a partir da Renascença que se estilhaça o quadro com que tradicionalmente se compreendia e concebia as relações entre a Natureza, o Homem e Deus. A partir desta época, a cosmovisão reinante sofre uma mudança drástica, inaugurando uma nova cosmovisão e realizando, por isso mesmo, aquilo que se chama de mudança de paradigma: uma mudança no ato de ver, de pensar e compreender todas coisas. Ao longo deste período, vamos assistindo uma separação cada vez mais nítida e definitiva entre três dimensões que se encontravam até então entrelaçadas, inaugurando uma nova concepção de Natureza e de Homem que não só se sobressaía dentro da antiga cosmovisão mas que, também, ia engolfando e eliminando o lugar e o valor que Deus e os astros ocupavam dentro dela. É este episódio que marca uma ruptura definitiva com o Divino, com o plano metafísico e espiritual - um obscurecimento de todo o supra-sensível - com frisa o grande historiador do Renascimento Jacob Burckhardt no livro chamado A Civilização do Renascimento em Itália[8].

E é esta ruptura que vai determinando também a possibilidade da Natureza ser investigada independentemente de uma especulação mais filosófica, sem uma raiz metafísica que lhe investia de significado[9], estabelecendo um divórcio entre método experimental e mera especulação, ou seja: entre a futura ciência moderna e a filosofia. É esta situação que acabou colocando a prática à parte de toda e qualquer teoria – aquela teoria que originalmente significava contemplação.

A partir de então, o ser humano vai mergulhando cada vez mais a sua inteligência e o seu espírito na matéria bruta e informe, na Natureza, em busca de uma razão que antes era compartilhada com o próprio Homem e Deus. A partir de então, diante da sua inteligência, só existe unica e exclusivamente uma Natureza a ser investigada. Neste sentido, vemos que a inclinação à multiplicidade e heterogeneidade do mundo sensível e o esforço para compreendê-lo leva a criação do novo conceito de Natureza mas também ao novo conceito de Homem, que executa de maneira heróica este empreendimento, visto que se descobre com liberdade suficiente para conhecer o mundo por si próprio, através do seu gênio e da sua vontade, sem a intermediação de Deus ou dos astros.

Vemos, assim, que o “quadro de referência” com que se entendia e se interpretava todas as coisas até a Idade Média era de natureza cósmica, isto é, era do tamanho do cosmos[10] – e, dentro deste universo intelectual, a Astrologia se tornava um saber admissível justamente porque a estrutura cósmica era tomada como o modelo, a medida mesma e o critério de entendimento do mundo, se tornando o seu princípio de inteligibilidade. No entanto, tendo o “quadro de referência” mudado a partir da Renascença, isto é, tendo uma ruptura epistemológica se processado, não só o entendimento de mundo se alterou como também a Astrologia deixou de ser concebida como era: um campo do saber.

Se assim for, toda esta sucessão dos fatos indica algo muito mais grave: que a fragmentação da cosmologia que reinou até a Idade Média corresponde ipsis literis à fragmentação dos saberes, isto é, à impossibilidade de vê-los em conjunto, de forma panorâmica e integrada. Infelizmente, a expansão do conhecimento em todos os seus mínimos detalhes pode se dar a prejuízo e a custo do senso de unidade e do todo. É isto que talvez tenha ocorrido a partir da Renascença: enquanto as Ciências da Natureza e as Ciências do Homem passaram a se desenvolver e se sobressair, toda a moldura metafísica e espiritual na qual elas estavam inseridas foi perdida totalmente de vista, se tornando esquecida e, por que não dizer, soterrada. Formamos, nós modernos, uma sociedade e uma cultura cujos saberes não fazem sentido; estão esvaziados de uma significação última que se via até então resguardada pela plena soberania da dimensão metafísica e espiritual.

Toda esta problemática de ordem cultural aponta como solução a retomada do senso de unidade do Todo Cósmico e, por incrível que pareça, quando isto vier a acontecer, talvez a Astrologia se revele como uma grande chave para a compreensão desta problemática, visto que ela sempre vigorou como um princípio de inteligibilidade do mundo. Quando isto vier a acontecer, quem sabe se aquilate o verdadeiro lugar da Astrologia dentro da cultura humana e a importância inadiável de uma discussão mais profunda e séria sobre este assunto.

Ademais, a tentativa de ver toda a produção cultural humana dentro de um único conjunto não só coloca como centro de interesse supremo o entendimento do lugar do Homem dentro do Cosmos como também estimula e desperta discussões que aparentemente não têm nada de astrológico. É o que se pode observar na Carta da Transdisciplinaridade, adotada no Primeiro Congresso Mundial da Transdisciplinaridade, realizado em Portugal em novembro 1994, e redigida por Lima de Freitas, Edgar Morin[11] e Basarab Nicolescu. Alguns de seus artigos, se não são propriamente de natureza astrológica, são de uma investidura louvável:

"Artigo 8: A dignidade do ser humano é também de ordem cósmica e planetária. O surgimento do ser humano sobre a Terra é uma das etapas da história do Universo. O reconhecimento da Terra como pátria é um dos imperativos da transdisciplinaridade. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade, mas, a título de habitante da Terra, é ao mesmo tempo um ser transnacional. O reconhecimento pelo direito internacional de um pertencer duplo - a uma nação e à Terra - constitui uma das metas da pesquisa transdisciplinar;

Artigo 3: A transdisciplinaridade é complementar à aproximação disciplinar: faz emergir da confrontação das disciplinas dados novos que as articulam entre si; oferece-nos uma nova visão da natureza e da realidade. A transdisciplinaridade não procura o domínio sobre as várias outras disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa”.

Esta idéia de que há uma ordem capaz de englobar, num único conjunto, os conhecimentos de ordem natural, humana e religiosa é uma idéia propriamente astrológica, senão o seu fundamento. Afinal, qual dos saberes postula a existência de uma ordem que atravessa planos tão diversos, mostrando que há uma analogia e uma identidade de fundo que os iguala? Que saber é este?

Este saber é o saber astrológico.

A Astrologia e suas perspectivas futuras

Tudo isso leva a crer que a Astrologia seja exatamente isto: uma forma de conhecimento que se interpõe entre o Homem e a Natureza numa espécie de confronto especular, com a intenção de interpretá-los sob um mesmo parâmetro. Mas se pode parecer absurdo que o conhecimento astrológico tenha pretendido - ou realizado - isto, deve parecer igualmente absurda qualquer tentativa intelectual de encontrar um ponto de união entre as ditas Ciências Humanas e Naturais, tal como pretendem a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade. E isto porque a Astrologia foi, sem sombra de dúvida, a primeira forma de conhecimento interdisciplinar que o Homem concebeu - daí a sua complexidade. Anular o seu valor e o seu mérito é não reconhecer que aquilo que atualmente o Homem vem tentando conquistar no campo do conhecimento é idêntico ao que pelo menos foi concebido num passado remoto.

Por isso, o tema astrológico não é apenas um resíduo cultural e antropológico que a história possa atestar: é uma ambição intelectual do homem, sempre a ser escrita. E proscrita. E reescrita. Por isto é que ele não pode ser tratado de maneira leviana com vem sendo tratado. Ele não é apenas um tema do passado: é do futuro do Homem, de sua espécie, que procura entrever o lugar que lhe está designado no mundo pelo fato da estrutura cósmica ter estas características e não outras.

A Astrologia é a única disciplina que procura avaliar se há algum sentido entre o universo cósmico & humano, se há uma Razão Maior que rege a ambos. Por isso, somente quem descortina a envergadura do conhecimento astrológico poderá se dar conta do imenso trabalho que ela exige e vislumbrar que toda a sua arquitetura teórica tem a idade de uma civilização, forma de calendário e função de bússola, e que todas suas representações não passam de registros que testemunham os passos e descompassos da espécie humana em sua eterna dança.

Mas, infelizmente, quando o assunto é Astrologia, já se parte da premissa que não há nada de importante a ser discutido; sequer se vislumbra que o recente fenômeno social chamado de Globalização, a recente reestruturação da Geografia e o nível de especulação astronômica que alcançamos coloca a espécie humana frente a uma indagação muito mais ampla pois, se antes bastava saber o lugar do indivíduo na sociedade e depois, com o passar do tempo, se tornou necessário saber o lugar do indivíduo no planeta, resta talvez agora vislumbrar e saber qual é o nosso lugar dentro do espaço cósmico - o que suscita a importância do estudo cosmológico que, querendo ou não, retoma e ressuscita o tema astrológico.

Ademais, tanto a natureza quanto o ser humano sempre foram objetos e campos de profundo interesse e atenção, havendo, entretanto, um único conhecimento que ainda não foi levantado com a sua devida importância: aquele conhecimento que fala exatamente da relação do homem com o mundo e do mundo com o homem, levando isto a seus últimos termos e às suas últimas conseqüências que, de uma maneira muito grosseira, foi e é a tentativa da história e da sociologia e, muito mais recentemente, da ecologia. Num futuro talvez não muito distante, quem sabe tal tentativa chegue e alcance o limite do astronômico. Quando isto acontecer, estaremos inevitavelmente retomando o raciocínio astrológico.

Por isso, quando o Homem se perguntar seriamente sobre o seu lugar no universo e sobre o sentido da sua vida, talvez pare de mirar o céu de forma meramente poética e passe a levantar sérias questões que, para sua surpresa, já foram elaboradas em tempos remotos - mas que nunca tiveram continuidade e o seu devido respeito. E estas questões, queiramos ou não, serão de natureza astrológica.

notas:

[1] SOCIOLOGIA DE MAX WEBER, de Julien Freund, Ed. Forense, 1987.
[2] INDIVÍDUO E COSMOS NA FILOSOFIA DO RENASCIMENTO, de Ernst Cassirer, Ed Martins Fontes, 2001.
[3] CONVÍVIO, de Dante Aliguieri, Ed Guimarães, Portugal, 1987.
[4] durante a Idade Média, os termos astronomia e astrologia eram empregados indiferentemente para designar a mesma disciplina, muito embora já possuíssem conteúdos distintos e passassem a ser estudadas separadamente logo depois. Isidoro de Sevilha (560-635) foi o primeiro a empregar a distinção moderna entre os dois termos nas suas Etymologiae. Para entender o significado que cada uma dessas disciplinas tinha, devemos lembrar que o sufixo “nomos” se reporta às regras e as leis que regulam os fatos ou fenômenos enquanto o sufixo “logos” se reporta a razão ou ao princípio supremo que a tudo engloba e dá sentido - de onde se subentende que a astronomia era a ciência que estudava as leis que regulam os astros, enquanto a astrologia era a ciência que estudava o sentido e o significado maior do arranjo dos mesmos .
[5] PENSAR NA IDADE MÉDIA, de Alan deLibera, Ed 34, 1999 e e TRIVIUM E QUADRIVIUM, de Lênia Márcia Mongelli, Ed Íbis, 1999
[6] A EDUCAÇÃO MEDIEVAL E A FILOSOFIA DE AQUINO – ELEMENTOS PARA COMPREENSÃO DE UMA ASTROLOGIA CRISTÃ, de José Aparecido Celório. Dissertação de mestrado do departamento de Educação da Universidade Estadual de Maringá, PR, 2004.
[7] A PERPECTIVA COMO FORMA SIMBÓLICA, de Erwin Panofsky, Ed. 70, Portugal, 1998 e O MISTÉRIO DAS CATEDRAIS, de Fulcanelli, Ed. 70, Portugal, 1988.
[8] A CULTURA DO RENASCIMENTO NA ITÁLIA, de Jacob Burckhardt, Ed, Cia das Letras, 2003.
[9] AS BASES METAFÍSICAS DA CIÊNCIA MODERNA, Edwin Arthur Burtt, Ed UNB, 1999.
[10] DO MUNDO FECHADO AO UNIVERSO INFINITO, de Alexandre Koyré, Ed Forense Universitária, 2001.
[11] OS SETE SABERES NECESSÁRIOS A EDUCAÇÃO DO FUTURO, de Edgar Morin, Ed Cortez, 2000.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

SEMINÁRIOS INTERDISCIPLINARES ASTROLÓGICOS

ou introdução ao curso de Astrocaracterologia
JUSTIFICATIVA DO CURSO

A Astrologia por diversas vezes foi chamada de “A Grande Ciência” ou de “A Grande Arte”, e isto ocorreu provavelmente por conta da grandeza e da superioridade do seu objeto de estudo: a relação entre a estrutura celeste e os diversos fenômenos terrestres e, em especial, o lugar que caberia a cada indivíduo dentro do cosmos – o que reconhecemos vagamente pelo nome de destino.

Por ter tal objeto, delicado e complexo, a Astrologia participou ativamente da formação e da educação do homem letrado até o início da Renascença, se tornando peça fundamental do currículo de grandes navegadores, arquitetos, médicos, astrônomos, filósofos e literatos. Por isso, a Astrologia sempre pareceu ocupar uma posição privilegiada dentre as outras ciências e artes, que lhe seriam inferiores, muito embora mantivesse com elas laços estreitos de parentesco e filiação – laços tão íntimos que, se forem devidamente estudados, poderão revelar o quanto todos estes saberes fazem parte de um único conjunto cultural, e o quanto a Astrologia ainda ocupa um lugar vital dentro deste conjunto.

Que lugar seria este? Por ser a Astrologia justamente o saber que estuda as relações entre o cosmos e o homem, ela pode se transformar numa chave para compreender um dos dilemas da cultura moderna: as pretensas relações entre as ciências naturais e as ciências humanas. Daí a importância do seu estudo – sobretudo, num franco diálogo com outros saberes, restituindo antiga familiaridade perdida.


SOBRE SUA REALIZAÇÃO

O curso em questão, realizado em forma de seminários abertos, visa explorar certos temas que fazem parte do imenso corpo de conhecimentos em que a Astrologia se apóia mas que nem sempre consta de um currículo regular ou é apresentado com o devido rigor e aprofundamento, se tornando, por isso mesmo, uma oportunidade rara para o próprio amadurecimento intelectual e profissional. Ele é, em suma, uma tentativa de abordar a Astrologia através do que o Ocidente melhor construiu em termos de conhecimento, dialogando com outras disciplinas já existentes com a intenção única de elevar o nível de compreensão e debate sobre o fenômeno astrológico.

Este curso será realizado ao longo de 10 aulas temáticas, ministradas num único final de semana do mês, podendo ser assistidas livremente, conforme o interesse do aluno. Estes SEMINÁRIOS servem de introdução, no entanto, ao curso de ASTROCARACTEROLOGIA e, para quem estiver interessado nesta formação, é só continuar assistindo as aulas que se seguem, conforme exposto no cronograma abaixo.


curso de ASTROCARACTEROLOGIA

A ASTROCARACTEROLOGIA foi elaborada em 1989 pelo filósofo Olavo de Carvalho que, inspirado na caracterologia de Ludwig Klages (1940), o caracterólogo por excelência, deu forma final às antigas observações que os escolásticos fizeram sobre as faculdades cognitivas e às relações que foram estabelecidas entre estas e os astros celestes pelo filósofo árabe Ibn’ Arabi (século XIII), desenvolvendo assim um instrumento atualmente indispensável para psicólogos, pedagogos, astrólogos e profissionais afins visto que ele proporciona uma avaliação da atenção individual, sendo, por isso mesmo, de extremo auxílio na área de desenvolvimento cognitivo, de orientação vocacional e existencial.

O curso de ASTROCARACTEROLOGIA visa estimular o leigo ou o já estudioso em Astrologia a desenvolver toda uma metodologia de investigação astrológica, compreendendo com maior discernimento tudo aquilo que porventura continua confuso ou até mesmo contraditório, desenvolvendo uma técnica de interpretação que permita diagnosticar a personalidade humana naquilo que ela tem de mais singular, com clareza e precisão.


PLANO GERAL DO CURSO


1ª parte: SEMINÁRIOS INTERDISCIPLINARES ASTROLÓGICOS – 10 aulas

O SEMINÁRIO INTERDISCIPLINAR DE ASTROLOGIA será realizado ao longo de 10 aulas temáticas, podendo ser assistidas independentemente, conforme o interesse do aluno. No entanto, este Seminário serve como introdução teórica ao curso de Astrocaracterologia, que será abordado nas aulas seguintes.

2ª parte: CURSO DE ASTROCARACTEROLOGIA – 10 aulas

O CURSO DE ASTROCARACTEROLOGIA será realizado ao longo de 10 aulas de conteúdo exclusivamente técnico e astrológico, que se seguem aos 10 Seminários Interdisciplinares. Para a realização destas aulas de conteúdo técnico, é necessário que o aluno tenha participado pelo menos de 5 Seminários Interdisciplinares.

duração total do curso

20 aulas mensais, ministradas num único final de semana do mês, com carga horária de 12 horas.


CRONOGRAMA DAS AULAS

:: dos Seminários Livres

AULA 1: ASTROLOGIA & COSMOLOGIA
AS DIVERSAS CONCEPÇÕES DE MUNDO E DE UM PROVÁVEL SENTIDO PARA A EXISTÊNCIA HUMANA
· a composição do quadro cósmico antigo e moderno.
· a Renascença: a mudança de visão, de paradigma, ou a grande ruptura epistemológica. O Homem ocupa o trono de Deus.
· a perda da noção metafísica e espiritual e a (in)conseqüente divinização da natureza e da sociedade.
· a ruptura entre as ciências naturais e humanas: a vida já não pode ser compreendida para além da matéria e do tempo.
· as Artes Liberais: sistema pedagógico que visava compreender, de maneira global, a dimensão natural, humana e divina.

AULA 2: ASTROLOGIA & ONTOLOGIA
O ESTUDO DO SER, PARA ALÉM DAS SUAS DETERMINAÇÕES FÍSICAS, PSICOLÓGICAS E SOCIAIS
· a misteriosa noção de substância e essência: o sentido da unidade e da integridade do ser.
· as Categorias e as Causas Aristotélicas: um método para compreender todos os seres e fenômenos.
· a perda da noção de essência imutável e a concepção do universo como um processo vivente e dinâmico.
· a natureza da singularidade humana: fruto supremo da existência. A realização do próprio ser. A estrutura da personalidade humana.
· a pesquisa estatística de Michel Gauquelin: mal entendidos entre a comunidade científica e astrológica.

AULA 3: ASTROLOGIA & EPISTEMOLOGIA
O PROCESSO DO CONHECIMENTO: DA PERCEPÇÃO INICIAL CONFUSA À LEI QUE REPOUSA O ESPÍRITO
· os 4 discursos Aristotélicos: o conhecimento lógico e científico como fruto e prolongamento do conhecimento intuitivo e mítico.
· Jean Piaget e o salto epistemológico: passagem do reino dos fatos para o reino dos princípios.
· Ciência, suas exigências e suas problemáticas: a evidência, os dispositivos de registro, a sistematização. Delimitação do campo, metodologia, conceituação unívoca, reavaliação crítica e periódica, unidade lógica e coerência externa.
· Astrologia e seus impasses: a discrepância entre a sua prática e a sua teoria.
· a lição de Max Weber: como compreender o mundo natural e humano.

AULA 4: CONHECENDO O SER HUMANO: A ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
A BIOGRAFIA COMO INSTRUMENTO PARA CONHECER O SER HUMANO

· a racionalidade intencional: a seqüência de atos necessários para se atingir um fim.
· Biografia e Destinologia: a unidade de um projeto vital mantido ao longo de toda a adversidade da vida.
· Honório Delgado: a presença, o ato e a biografia humana.
· “Eu sou eu e minha circunstância”: a vontade individual X a circunstância momentânea.

AULA 5: CONHECENDO O SER HUMANO: A PSICOLOGIA 1
A PSICOLOGIA COMO INSTRUMENTO PARA CONHECER O SER HUMANO

· história das idéias psicológicas: a confusão entre os instintos (triebe) e os interesses (triebfedem)
· Maurice Pradines: a sensação e o instinto como dimensões perceptivas e intelectuais. A emergência da consciência: dimensão espiritual da vida humana. O inconsciente normal e o patológico.

AULA 6: CONHECENDO O SER HUMANO: A PSICOLOGIA 2
A PSICOLOGIA COMO INSTRUMENTO PARA CONHECER O SER HUMANO

· em busca de uma causalidade psíquica: entendendo as causas do ato e do comportamento humanos.
· A psique: zona de indeterminação e liberdade que, ao introjetar certas determinações, cria o ego. O ego neurótico: uma construção mal feita. O ego pontífex: possibilidade de reconstrução do ego. A personalidade poética.

AULA 7: CONHECENDO O SER HUMANO: A CARACTEROLOGIA
A TIPOLOGIA COMO INSTRUMENTO PARA CONHECER O SER HUMANO

· O estudo da personalidade: entendendo a diferença e a singularidade própria dos seres humanos.
· W. Allport e a constelação de valores pessoais.
· Ludwig Klages e a diferença qualitativa da alma individual.
· As tipologias de Jung, René Le Senne, Lipot Szondi.

AULA 8: ASTROLOGIA & SIMBOLOGIA
OS VÁRIOS NÍVEIS DE REPRESENTAÇÃO: A PURA ASSOCIAÇÃO DE IDÉIAS, A BELA METÁFORA E A RIGOROSA ANALOGIA

· A Dialética Simbólica: analogia dos astros celestes com certas funções psicológicas
· As doze perspectivas de vida e as Doze Casas Astrológicas.


AULA 9: A experiência do conhecimento:
Analogia do Sol com a intuição

AULA 10: A experiência do conhecimento:
Analogia de Saturno com a razão


:: do curso de Astrocaracterologia
pré-requisito: ter assistido no mínimo 5 aulas do módulo anterior


Aula 11: Técnica de interpretação da posição do Sol nas casas zodiacais (Casa I - Casa VI)
Aula 12: Técnica de interpretação da posição do Sol nas casas zodiacais (Casa VII - Casa XII)
Aula 13: Técnica de interpretação da posição de Saturno nas casas zodiacais (Casa I - Casa VI)
Aula 14: Técnica de interpretação da posição de Saturno nas casas zodiacais (Casa VII - Casa XII)
Aula 15: Técnica de interpretação da posição da Lua nas casas zodiacais (Casa I - Casa VI)
Aula 16: Técnica de interpretação da posição da Lua nas casas zodiacais (Casa VII - Casa XII)
Aula 07: Técnica de interpretação da posição de Vênus nas casas zodiacais (todas as Casas)
Aula 08: Técnica de interpretação da posição de Marte nas casas zodiacais (todas as Casas)
Aula 09: Técnica de interpretação da posição de Júpiter nas casas zodiacais (todas as Casas)
Aula 10: Entrevistas e documentários de Personalidades Célebres: dedução dos seus respectivos mapas

REALIZAÇÃO

REGULUS CURSOS, ASSESSORIA ASTROLÓGICA E COM LTDA.
Rua Estela, 515 bloco E cj.71 - Paraíso - São Paulo.SP - 04011-904
Fone: (11) 5549-2655 (das 14h às 19h)

FAÇA JÁ A SUA RESERVA

A ASTROCARACTEROLOGIA



A psicologia vem redobrando os seus esforços na tentativa de desvendar esse território complexo e misterioso chamado de “alma humana”. No seu percurso atual, o entendimento dos processos cognitivos, bem como da formação da consciência individual, se tornaram tópicos recorrentes e fundamentais. Afinal, passou-se a acreditar que boa parte dos nossos dramas e nossos complexos são determinados por distorções que se operam na esfera da nossa inteligência, fazendo com que, por conseqüência, nos relacionemos com o mundo, com as pessoas e com a sociedade de maneira inadequada e imprópria.

Várias contribuições foram feitas neste sentido, como, por exemplo: Piaget e a teoria da Assimilação e Acomodação; Viktor Frankl e a Logoterapia; Arthur Janov e a teoria dos Eventos Primais; William Stern e sua Psicologia Cognitiva; Gordon W. Allport e sua noção de proprium; Ludwig Klages e sua noção de caráter; Maurice Pradines e as relações que este estabelece entre consciência e espírito. No panorama da psicologia atual, as teorias sobre a qualidade e a natureza das inteligências pessoais despertaram também enorme interesse: Howard Gardner e a Teoria das Inteligências Múltiplas; Daniel Goleman e a Teoria da Inteligência Emocional.

A Astrologia não poderia deixar de dar a sua contribuição à este tema visto que em plena Idade Média os planetas astrológicos já eram associados às faculdades cognitivas, tal como podemos depreender da obra do filósofo árabe Mohieddin Ibn’ Arabi e dos estudos que Alberto Magno desenvolveu sobre o funcionamento da alma, ambos realizados no século XIII. Aliás, foi partindo destas premissas e da noção de caráter definida por Klages como direção da atenção (1940) que se construiu uma teoria extremamente original, a Astrocaracterologia[1], proposta pelo filósofo Olavo de Carvalho em torno de 1989 e que se constitui propriamente numa Teoria Astrológica de Fundamento Cognitivo.

Esta teoria revela a associação existente entre o mapa astrológico e a estrutura cognitiva individual, tornando-o um instrumento valioso para fazer aquilo que chamamos de mapeamento cognitivo pessoal. E é este “mapeamento” que nos permite diagnosticar as direções para as quais a atenção individual está voltada, ou melhor, aqueles valores e experiências que, para o próprio indivíduo, são de fundamental importância para a construção de seu destino.

Tudo ficaria embasado no seguinte adágio, vislumbrado pela própria teoria: “diga-me como vês, que eu te direi quem és”.

Vemos, assim, pelo rumo que os estudos e as pesquisas estão tomando, como é de capital importância o entendimento dos processos da cognição para compreender melhor os comportamentos humanos – e a contribuição que a Astrocaracterologia pode dar a este tema, se tornando um grandioso instrumental para pedagogos, psicólogos, profissionais da área de Recursos Humanos e para os próprios astrólogos.

A ASTROCARACTEROLOGIA:
uma teoria astrológica de natureza cognitiva

Ao investigar o histórico e o passado do saber astrológico com um espírito altamente detetivesco, emendando pistas de natureza metafísica, cosmológica, antropológica e pedagógica que atualmente se encontram dispersas e até mesmo esfaceladas, a Astrocaracterologia verificou que este saber estava - e está - indissociavelmente ligado a certos padrões de percepção individual, traduzindo e revelando a concepção que o indivíduo tem de si e do mundo, tanto do ponto de vista propriamente intelectivo, quanto afetivo e volitivo.

Por isso, pela sua própria natureza, a Astrocaracterologia é uma Teoria da Cognição Humana muito particular, cuja estrutura é astrológica. E por ser isto mesmo, ela tem concepções próprias, métodos, práticas e campos de investigação bem diferentes daqueles propostos pelos diagnósticos astrológicos vigentes. Por isso, a sua devida utilização implica no conhecimento de todos estes conhecimentos que lhe serviram de pano de fundo e de onde ela se ergueu, sem os quais a sua técnica se torna incompreensível e inadequada, senão impossível. Por isso, qualquer aplicabilidade desta teoria depende da compreensão do arcabouço da mesma, sem o qual qualquer dedução é delírio e qualquer imediatismo um problema.

É claro que, diante da complexidade desta teoria, na qual alguns pesquisadores trabalham até hoje, não se poderia esperar que um simples resumo como este viesse a ilustrar a grandeza desta obra e a lhe fazer jus. Seria ingenuidade. Minha intenção, antes de mais nada, é a de apresentar e divulgar a existência de um trabalho que vem sendo construído anos a fio, e isto não só porque o assunto é apaixonante mas também porque ele se mostra extremamente importante na compreensão do quanto a esfera cognitiva engloba e emoldura a vida psíquica, ou melhor, do quanto o campo de atenção do sujeito é capaz de determinar os seus comportamentos, a sua conduta e o rumo da sua biografia. Ademais, divulgo este trabalho porque ele é o testemunho de que o saber astrológico pode, deve – e já está – sendo tratado de uma maneira bastante rigorosa, contrastando em muito com a abordagem superficial e leviana que habitualmente lhe é dada, e que impede que a sociedade reconheça o seu valor e dele faça um justo uso.

Se a divulgação deste trabalho contribuir para que o tema astrológico deixe de ser visto como mais uma opção de divertimento e devaneio e possa ser encarado com um campo de estudo fértil na compreensão do Homem e do Mundo, creio que fiz a minha parte.

três noções básicas

A Astrocaracterologia está fundamentada em diversas noções, sem as quais o seu arcabouço se torna completamente incompreensível. No entanto, para que se tenha uma breve idéia do que possa ser a sua técnica e a sua aplicação, três de suas noções precisam ser explicadas:

· o caráter e as direções da atenção
· as faculdades cognitivas
· a análise biográfica

É o que pretendo fazer a partir de agora.

O CARÁTER E AS DIREÇÕES DA ATENÇÃO

por uma psicologia do futuro


A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás: mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.
Soren Kierkegaard

Se bem que a “ciência da alma” tenha atingido a idade respeitável de aproximadamente 2500 anos, diversas razões contribuíram para que ela não alcançasse o desenvolvimento e o status já alcançado por outras disciplinas. Uma delas é que, desde o início, esta ciência se dividiu em duas correntes que só muito recentemente começaram a se juntar:
1) uma delas, que cedo tomou o nome de Psicologia, se ocupou em descrever e retratar o funcionamento da psique através dos fenômenos da atenção e percepção, bem como os estados emocionais e como todas as suas alterações se processam e dialogam, e como este diálogo pode ser imprevistamente rompido e apresentar distúrbios, tentando assim delinear a verdadeira arquitetura da alma em todos os seus pavimentos insuspeitos, com toda a sua rede de encanamentos e fiações, e que sustentam toda a pessoa;

2) a outra, que só recentemente se organizou e se sistematizou sob o nome de Caracterologia, sempre se ocupou em conhecer as características pelas quais um ou outro indivíduo pode ser reconhecido e identificado, tentando assim conceber um retrato da diferença e da singularidade humana e dos fatores responsáveis por tal diferenciação.

Apesar destas duas abordagens terem caminhado relativamente separadas ao longo de séculos e terem, por isso mesmo, se esbarrado uma na outra, uma pergunta um dia se impôs – e que configura a pergunta feita na atualidade: é possível que haja na própria arquitetura da psique algum componente que responda pela diferença e pela singularidade humana? Será que este componente impõem a psique outras exigências? Há mesmo algum componente da psique que seja responsável não tão somente pela formação da identidade mas também pelo bom ou mal funcionamento dela própria? Há mesmo alguma relação ou diálogo entre o funcionamento da psique e a estrutura da personalidade, de modo que a partir daí pudéssemos compreender melhor o desenvolvimento psicológico do ser humano?

Gordon W. Allport[2] (1950) introduz esta discussão explicando que os nossos impulsos, desejos e necessidades representam exigências urgentes de redução de tensão que precisam ser satisfeitas, encontrando assim um prumo e um equilíbrio para forças que configuram, sim, motivos psicológicos bastante reais. Estes motivos seriam denominados motivos de déficit. Eles exigem que a tensão seja imediatamente eliminada, restaurando o equilíbrio perdido. No entanto, Allport adverte que por mais que busquemos satisfação para motivos desta natureza e por mais que queiramos estabilidade, há outros motivos que também geram tensão e que colocam o indivíduo em constante instabilidade - mas frente aos quais ele nunca tem uma satisfação imediata e, nem por isso, esmorece, assumindo-os inclusive até o limite do insuportável.

Allport se pergunta: por que há motivações que nos deixam extremamente abalados quando não são imediatamente satisfeitas enquanto a insatisfação ocasionada por outras motivações nunca é suficiente para nos abalar? Para este notável psicólogo, isto só ocorre porque existem motivos de duas ordens: os motivos de déficit e os motivos que ele chama de motivos de crescimento. Estes, ao contrário dos motivos de déficit, mantêm a tensão no interesse de objetivos distantes e muitas vezes inatingíveis, porém suficientes para merecerem a atenção do sujeito - e isto porque eles traduzem os valores que foram livremente escolhidos e aceitos pelo próprio indivíduo.

É desse modo que Allport explica a influência que os ideais e os valores exercem sobre o processo de desenvolvimento psicológico, dando inclusive uma pista para o que seja o seu bom ou mal funcionamento. No entanto, ele esclarece que estes fatores são os extremos cobiçados por nossas intenções, e que nunca os atingiremos completamente. Alguns autores consideram este ponto de suma importância. Jung, por exemplo, define a personalidade em termos do estágio ideal de integração a que o indivíduo tende. Personalidade não seria então o que alguém possui, mas o resultado projetado do seu crescimento. Spranger também considera o caráter de um indivíduo em termos de sua aproximação a um tipo ideal. De qualquer modo, o que se revela importante é a orientação e a posição que o indivíduo toma perante um futuro que pretende atingir, por maiores que sejam as tensões que daí advenham.

Para Allport, os fatores mais elementares e importantes ao desenvolvimento psicológico são estas amplas disposições intencionais que apontam para o futuro, e que submetem a vitalidade psicológica a uma rede de significados. Para empregar um termo da filosofia medieval, esta situação representa a intencionalidade da pessoa. Como tal, ela seleciona, atrai, guia e inibe estímulos de outra ordem, dirigindo todos estes impulsos em outra direção, e cujo trajeto significa a conquista da própria maturidade psicológica.

Percebemos que isto ocorre quando o indivíduo é dominado por impulsos ou por pressões circunstanciais: numa situação como esta, ele perde a integridade que provém unicamente do fato de conseguir manter direções principais de esforço. Ademais, a posse de objetivos de longo alcance, considerados como centrais à existência pessoal, distingue o ser humano do animal, o adulto da criança e, em muitos casos, a pessoa sadia da doente. E, para Allport, todo esforço refere-se sempre ao futuro. Na realidade, a grande maioria dos estados psicológicos só podem ser adequadamente descritos em termos de futuridade pois somente assim compreendemos a que o indivíduo subordina livremente a sua vida. Esta situação exige, para a sua própria compreensão, um tipo de psicologia que transcenda a tendência que prevalece ainda hoje em explicar os estados psicológicos unicamente em função de acontecimentos passados. Afinal, enquanto a Psicologia quase só se preocupa em investigar o passado histórico do indivíduo, parece que ele procura guiar a sua vida em razão de um futuro.

a natureza do caráter


Respeita a ti mesmo, e terás um caráter nobre.
Pitágoras

Um dos fatores mais elementares para o bom funcionamento da psique e que nos coloca na condição de fundar uma verdadeira psicologia do futuro é chamado de caráter. Ele é definido por Ludwig Klages[3], pai da Caracterologia, como "uma unidade viva, ou a qualidade distintiva essencial de uma alma individual. Afinal, todo homem é dotado de uma alma mas possui, além disso, um espírito, quer dizer: ele é um eu ou um si. Por isso, num sentido muito específico, o caráter é a qualidade da vontade pessoal, assinalando condições constantes que revelam uma certa direção preferencial de um eu ou de uma consciência - o que determina, portanto, entre outras coisas, as metas às quais alguém se sente impelido".

Sendo assim, e seguindo uma idéia de Henri Wallon, é essa camada da personalidade chamada de caráter que acaba explicando porque é que, na presença das mesmas circunstâncias, dois indivíduos que dispõem da mesma educação familiar, da mesma influência social e até mesmo de capacidades idênticas reagem de modo completamente diferentes: afinal, cada um tem uma maneira distinta de interpretar a situação ao redor e de reagir a ela, e isto porque cada um observa, valoriza e reage à situação de um modo que lhe é muito próprio.

É o caráter, então, que vem a dar um diferencial à personalidade, fazendo com que cada pessoa venha a viver sua vida e a escrever sua história de uma maneira que lhe é muito peculiar. Se tomamos o termo caráter[4] em sua acepção etimológica, seremos forçados a considerar que toda marca que porventura uma pessoa venha a deixar na vida foi fruto do seu esforço pessoal, isto é, foi fruto da tentativa de reunir tudo o que conhece e o que desconhece de si para atingir uma meta que tenha se proposto. Afinal, existe dentre de todos nós, sob o amontoado de confusões, uma unidade viva que incessantemente não deixa de murmurar certas sugestões que deveríamos escutar e acatar, já que elas são a expressão máxima da nossa realização pessoal, isto é, do nosso destino, da única tarefa que nos cabe.

Para Allport, esta unidade pode ser representada por um foco que confere certo sentido de importância a algumas experiências e relega as restantes a condições secundárias, que no entanto o indivíduo também pode vivenciar tão logo haja oportunidade ou tão logo a pressão circunstancial o obrigue. No entanto, não podemos fechar os olhos ao fato de que os problemas da vida reclamam escolha e sistematização segundo a relativa importância de cada um – mas não tão somente tendo em vista o momento que estamos atravessando e vivendo e, sim, os nossos valores mais soberanos. Estes, sim, exigem um planejamento e uma orientação a longo prazo. Estes, sim, revelam um centro de referência, diante do qual toda a nossa conduta e atitude se posta e se auto-refere.

Vemos, assim, que o termo caráter concentra-se sobretudo no aspecto a longo prazo de nossa experiência emocional. E que ele se revela pela capacidade de adiar uma satisfação em troca de um bem futuro. E isto porque, da confusão de sentimentos em que todos estamos mergulhados, procuramos salvar e manter alguns – e isto porque estes “sentimentos” expressam os nossos valores mais caros. São estes sentimentos “altamente valorizados” que sustentam a nossa alma e que dão feitio e forma a nossa pessoa.

Este psicólogo ainda acrescenta que estes “sentimentos altamente valorizados” não são infinitos em número: são poucos. E que eles são diferentes para cada pessoa. Uma situação como esta deveria estimular os profissionais envolvidos com psicodiagnósticos a seguirem uma linha de pesquisa em que finalmente se conseguisse constatar estas unidades fundamentais ao desenvolvimento psicológico. Para tal, seria necessário pelo menos supor a existência de alguns sentimentos e valores humanos que fossem soberanos, e que representassem os possíveis focos e as possíveis direções da atenção individual, verificando depois – é claro - o quanto que estes focos e estas perspectivas foram fundamentais para determinar o comportamento dos indivíduos e sua história.

E é neste sentido que percebemos que o sistema astrológico se mostra altamente inspirador.

As direções da atenção

Nosso olhar dirige a realidade para onde bem entende.
Adolfo Bioy Casares

O sistema astrológico é, querendo ou não, uma espécie de catálogo que tenta abarcar certas experiências humanas que são consideradas fundamentais. E se aprofundarmos nossos estudos e analisarmos mais de perto um dos componentes desse sistema, o sistema das Casas Astrológicas, perceberemos que ele descreve exatamente a perspectiva que se abre entre o sujeito nascido e o mundo em torno, isto é, entre um posto de observação e a esfera celeste, demarcando um certo campo de atenção.

A hipótese que ora fizemos é de que o sistema das Casas Astrológicas descreve os possíveis campos de atenção individual ou as perspectivas humanas soberanas, através das quais tudo seria percebido, sentido e até mesmo alterado. É claro que, tendo feito tal hipótese, tivemos que verificá-la logo em seguida, através de um método que chamamos de “análise biográfica”, do qual falarei num capítulo adiante. No entanto, o que cabe agora perguntar é que perspectivas fundamentais seriam estas que os seres humanos podem ter da vida, tendo por base o sistema das Casas Astrológicas. Afinal, quais seriam estas perspectivas fundamentais com que cada indivíduo, a sua maneira, vê o mundo e procura se orientar?

CASA 1
sob a perspectiva da identidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS PERSONALÍSTICO
se mobiliza
[5] pela imagem que tudo passa e projeta

CASA 2
sob a perspectiva da vitalidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SENSORIAL
se mobiliza pela condição física e material das circunstâncias

CASA 3
sob a perspectiva da comunicabilidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS LINGÜÍSTICO
se mobiliza pelas idéias explicitadas e ainda implícitas

CASA 4
sob a perspectiva da interioridade
caracteriza o indivíduo de VIÉS EMOCIONAL
se mobiliza pelas exigências e pressões emocionais

CASA 5
sob a perspectiva da capacidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS VOCACIONAL
se mobiliza pelo desempenho e mérito próprios

CASA 6
sob a perspectiva da organicidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SISTÊMICO
se mobiliza pelo todo esquematizado e o seu funcionamento equilibrado

CASA 7
sob a perspectiva da alteridade
caracteriza o indivíduo de VIÉS INTERPESSOAL
se mobiliza pela reciprocidade e pelos níveis de relacionamento


CASA 8
sob a perspectiva da adversidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS TRANSFORMADOR
se mobiliza por processos que gerem mudanças e alterações

CASA 9
sob a perspectiva da universalidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS LEGISLATIVO
se mobiliza por princípios e regras gerais que gerem certezas e orientem

CASA 10
sob a perspectiva da coletividade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SOCIAL
se mobiliza pelas exigências e pressões sociais

CASA 11
sob a perspectiva da posteridade
caracteriza o indivíduo de VIÉS PROJETIVO
se mobiliza pelas perspectivas futuras e pelo projeto a realizar

CASA 12
sob a perspectiva da finalidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS MACROSCÓPICO
se mobiliza por forças maiores que determinam o fim e o rumo de tudo


Do ponto de vista técnico, estas perspectivas se tornariam determinantes para cada indivíduo à medida que um ou outro planeta estivesse disposto numa dessas Casas do seu mapa natal, configurando assim os focos naturais da sua atenção – o que conferiria um certo sentido de importância a algumas experiências e relegaria as outras a um plano ocasional e secundário.

No entanto, convém explicar que a associação que ora fizemos entre direções da atenção & Casas Astrológicas não foi meramente gratuita, mas está baseada no fato de que na Idade Média os planetas celestes já eram associados àquilo que os árabes chamavam de potências da alma: certas disposições da psique que determinam o seu funcionamento. Por isso, se levarmos em consideração de que a Astrologia, por esta época, já associava os planetas a certas funções psicológicas, e se procurarmos entender a natureza dessas funções, perceberemos que parte do seu funcionamento fica condicionado em agir em certas direções e não em outras, revelando que cada função psicológica tem, sim, uma direção que lhe é preferencial – sendo estas direções exatamente aquelas que se encontram retratadas pelas Casas Astrológicas.

Uma das maneiras de fazer entender esta situação é relembrando a explicação que o próprio Klages dá sobre propriedades do caráter. Para tal, ele usa como exemplo um traço de caráter que normalmente empregamos para distinguir os indivíduos: a honestidade. Afinal, há indivíduos que são honestos, enquanto outros, não. Klages, entretanto, vai mais fundo e adverte que a honestidade não é propriamente um traço de caráter visto que ela é somente a manifestação mais superficial de um valor perante o qual a consciência do indivíduo se posiciona.

Se analisarmos a situação por este prisma proposto por Klages, veremos que, de fato, a honestidade se diferencia para cada sujeito pois cada um se coloca perante a esta condição por causa de um valor: afinal, há indivíduos que são honestos porque têm senso de veracidade, enquanto outros assim o são porque desejam se mostrar sob o seu melhor aspecto, enquanto outros já temem as conseqüências da desonestidade e tem pavor do código penal. Uma avaliação como está nos mostra que por detrás das qualidades e dos adjetivos com que costumamos caracterizar as pessoas, há sempre um valor onde estes repousam. E que estes valores de fundo e supremos podem - e estão - associados às Casas Astrológicas, tal como verificamos pelo método da análise biográfica.

AS FACULDADES COGNITIVAS

Se a Astrocaracterologia partiu para a construção do seu projeto teórico da noção de potências da alma, torna-se extremamente importante explicá-la. Para isso, será necessário lembrar que foi pelo fim da Idade Média - séc. XIII – que um conhecimento de tal natureza deu mostras do longo e proveitoso amadurecimento por que vinha atravessando e que, como uma árvore que atinge o seu objetivo ao desenvolver frutos, deixou-nos como legado dois estudos importantíssimos que, desde já, se tornam indispensáveis para compreender a concepção que se tinha da inserção do Homem dentro do Cosmos – e também para vislumbrar quais teriam sido os critérios com que se poderia realizar uma interpretação astrológica.

O primeiro estudo se refere aos tratados do escolástico Alberto Magno (1260) sobre o funcionamento da alma humana que, segundo este, se dava e se articulava em sete funções distintas (chamadas de faculdades cognitivas[6]), e que descreviam os modos com que o indivíduo percebia, sentia e lidava com as circunstâncias aos seu redor. O segundo estudo se refere aos tratados do filósofo árabe Mohieddin Ibn’Arabi (1230), que associava certas “potências da alma” a alguns planetas celestes[7]. Apesar destes dois autores nunca terem dialogado entre si, vemos que as afirmações que ambos fazem sobre as funções psicológicas são as mesmas, se tornando então extremamente importantes para deslindar e compreender a natureza simbólica dos Planetas Astrológicos.

No entanto, não podemos fazer vistas grossas a recente contribuição dada pela psicologia da cognição que, durante toda a sua existência, contribuiu em muito para esclarecer as atribuições de cada uma dessas faculdades, revelando o papel delas na integração da personalidade do indivíduo. O quadro de correspondência abaixo tenta ilustrar todo esse conhecimento que assim pode ser resumido e sintetizado:

Astros celestes & Faculdades cognitivas

SOL = INTUIÇÃO
percepção imediata que o sujeito tem de determinado dado tão logo este se apresente

LUA = SENTIMENTO
alteração emocional – ora agradável, ora desagradável - que o dado provoca no sujeito

MERCÚRIO = PENSAMENTO
associação que o sujeito faz do dado com outros dados já conhecidos

VÊNUS = FANTASIA
imaginação das infinitas possibilidades que o dado permite e oferece, vislumbradas pelo sujeito

MARTE = ESTIMATIVA
reação instintiva que o sujeito tem perante o poder de ação do dado

JÚPITER = VONTADE
expressão da liberdade que o sujeito se dá perante o dado, moldando-o de acordo com sua vontade

SATURNO = RAZÃO
formulação de regras e leis que o sujeito constrói a partir dos dados obtidos pelas demais faculdades, e com as quais compõe o seu entendimento de mundo

É tendo em vista a disposição destes 7 Planetas em quaisquer uma das 12 Casas Astrológicas que conseguimos diagnosticar o funcionamento da psique, percebendo exatamente em quê direção cada uma das suas faculdades está voltada. Diante de um diagnóstico como este, percebemos não só as perspectivas que particularmente o indivíduo nutre e vislumbra sobre tudo o que o cerca mas também as coordenadas de ação que ele procurará tomar ao longo de toda a sua vida visto que, por considerar tudo por estes ângulos, ele acabará traçando o seu caminho da maneira que estes lhe indicaram, construindo o seu destino de um modo e não de outro, ou melhor: conforme a sua própria consciência disse.

A Astrocaracterologia e o diagnóstico da faculdade racional

persona est substantia individua rationalis naturae
Boécio

Vemos, assim, que alguns padrões astrológicos representam as diversas faculdades psicológicas, cuja interação é responsável pela integração da própria personalidade e também pela edificação do próprio destino, visto que são elas quem determinam que a vida seja conduzida de um modo e numa direção que lhe é preferencial. Afinal, por sermos o que somos, isto é, por sermos uma alma dotada de espírito e de intenção, temos coordenadas de ação muito específicas que, mal ou bem, traduzem as metas às quais nos sentimos impelidos.

É por isto que não podemos ser explicados unica e exclusivamente pelo nosso passado, isto é, por informações reprimidas no nosso inconsciente, visto que podemos ter uma melhor compreensão de nós mesmos pelo nosso futuro, ou melhor, pela intenção que a nossa psique demonstra em realizar um projeto de vida muito peculiar – projeto, este, que ela vislumbra e constrói através da interação das suas faculdades intelectivas, afetivas e volitivas, que são responsáveis pelos nossos pensamentos, sentimentos e ações.

No entanto, ao vislumbrarmos esse projeto de vida dentro de nossa mente, boa parte do quadro de referência que fomos construindo ao longo da nossa existência é imediatamente requisitado para analisá-lo e julgá-lo, de modo que todos os nossos conceitos, idéias, valores e pensamentos são postos em ação com a intenção de determinar cada vez mais nitidamente o perfil e o contorno deste projeto, dando forma a algo que porventura se mantinha nebuloso e informe.

Imaginem, pois, o desastre que é caso todo este império intelectual esteja cheio de noções distorcidas, ou cheio de lacunas: a psique não vai encontrar as condições necessárias para analisar e julgar este projeto de vida e, diante desta situação, ele pode acabar continuando nebuloso e informe – ou até mesmo cada vez mais deformado.

Compreendemos, assim, o quanto que o exercício da faculdade da razão é fundamental para a compreensão e construção deste projeto de vida e o quanto que o desenvolvimento desta faculdade psicológica é essencial para a integração da própria personalidade pois é através desta que o indivíduo consegue ter a medida a si mesmo com relação a tudo que o cerca. Sem esta, ou sem o exercício desta, o indivíduo não consegue sequer interpretar a diversidade e a variedade da vida e tampouco construir um quadro de referência mais rico, que lhe permita identificar uma razão e um sentido para tudo o que vem vivendo.

Esta é, aliás, a proposta mais fundamental da Astrocaracterologia: de que cada indivíduo tem um tipo específico de inteligência racional, cabendo-lhe a tarefa de desenvolvê-la e ampliá-la, sob o preço de continuar confuso e desorientado caso assim não aja, visto que este é um problema que se forma – e se resolve – na esfera da inteligência, muito embora ele recaia sobre todas as outras esferas da nossa vida.

Daí ser importante diagnosticar qual o nosso tipo específico de inteligência racional[8], que questões ou problemas podemos ter em nossa mente e como eles precisam ser tratados. E uma das maneiras de avaliarmos o tamanho e a dimensão desta problema é através da análise biográfica, que inclusive nos permite descobrir para que direções estão voltadas as outras faculdades cognitivas, a saber, o nosso sentimento, a nossa intuição, a nossa vontade e etc.

A ANÁLISE BIOGRÁFICA

Compreender um drama é a mesma operação mental que compreender uma existência, uma biografia, um homem: é obrigar o pássaro a voltar para seu ovo, a planta para a sua semente, e constituir toda a gênese do ser em questão. A arte não é senão o ato de por em relevo o pensamento obscuro da natureza; é a simplificação das linhas e o desprendimento dos grupos invisíveis. O fogo da inspiração faz ressaltarem os desenhos traçados a tinta simpática: o misterioso torna-se evidente, o confuso tona-se claro, o complicado torna-se simples, o fortuito torna-se necessário. Em uma palavra, a arte revela a natureza traduzindo as suas intenções e formulando as suas vontades – o ideal. Cada ideal é a solução de um grande enigma. O grande artista é um simplificador.
Henri-Frédéric Amiel

Se levarmos em consideração as observações do psicólogo Peruano Honório Delgado[9] sobre a vida humana, atentaríamos para o fato de que há três maneiras de se conhecer um indivíduo:

· pela sua presença e pelo seu modo de ser, sempre de difícil tradução, mas que só poderiam ser captados por alguém que o conhecesse diretamente;
· pelas peculiaridades dos atos tomados em um ou outro momento e que expressam a tentativa de resolver certos impasses que a vida apresenta a todo e qualquer ser humano;
· por certa linha de continuidade que ele foi imprimindo a própria vida, ou melhor, pela fisionomia e pelo contorno que uma vida toma por estar submetida a realização de um projeto existencial.

Para o psicólogo peruano, a fórmula máxima com que se poderia conhecer uma pessoa é aquela expressa pelo terceiro item, a que ele dá o nome de biografia. Esta seria não somente a fonte mais preciosa mas também o único acesso para um contato realmente revelador, suscetível de dar vislumbres sobre o que há de mais característico e singular num indivíduo.

Não podemos nos esquecer também que a biografia é definida como "o desenho, a grafia da vida". E isto porque cada vida humana toma um desenho, uma forma; sendo tal forma descrita por uma equação que sintetiza as maneiras soberanas como um indivíduo viveu e experimentou tudo que se colocou a sua frente, e que expressam a sua tentativa de agir de acordo com a sua consciência e a sua vontade. Se soubermos analisar uma vida através desta dimensão biográfica e detectarmos as coordenadas preferenciais da ação individual, estaremos não só descobrindo os fundamentos em que o sujeito pavimenta a sua existência como também as Casas Astrológicas em que estes sete planetas se distribuem.

Este é, na realidade, o método de que nos utilizamos para verificar a hipótese levantada: de que a estrutura do mapa astrocaracterológico expressa uma estrutura cognitiva que se torna plenamente demonstrável ao ver vista numa dimensão biográfica. Mas, para esclarecer tal método, precisarei exemplificar:

1. Fernando Pessoa teve toda uma vida desenhada na direção de salvar a sua pátria da grande derrocada histórica em que havia entrado. Disse que faria isto através da escrita. Para tal, multiplicou-se em vários poetas pois, para fazer frente à nação, teria que se tornar vários, pois - parece - que nada podia um único indivíduo contra a coletividade. Além disso, ele se dizia o homem com a maior alma portuguesa que havia conhecido – muito embora se vestisse como um lorde inglês, herança do período de juventude em que viveu em Durban, colônia inglesa. Mas... como podia se dizer autenticamente português se portava-se como um inglês?

2. Oscar Wilde teve toda a sua biografia quase que absorvida por um inesquecível episódio: foi preso na Inglaterra sob a acusação de homossexualidade. Uma prisão que muitos dos seus contemporâneos diziam que poderia ter evitado. No entanto, não evitou. E por quê? Por que, de acordo com a filosofia da sua mãe irlandesa, um verdadeiro irlandês jamais se deixaria abater e se humilhar por uma ofensa feita por ingleses em próprio território inglês e que, independentemente da veracidade da acusação, o filho teria de levar esse julgamento até o fim, assumindo a sua condição de irlandês – daquele que jamais se curva, ainda mais perante a um inglês. Ou seja: a mãe incentivou o filho a assumir e a ser representante de uma nação. Além disso, Oscar Wilde é considerado também um dos maiores críticos da sociedade inglesa, muito embora fizesse de tudo para participar e desfrutar da mesma, demonstrando uma atitude contraditória perante esta questão.

3. Adolph Hitler teve toda a sua trajetória de vida voltada para se adequar ao papel que o Estado Alemão necessitava, ou seja, a de um porta-voz que levasse a Alemanha a categoria de império - o que seria feito, inclusive, através de purificação cada vez mais crescente da raça ariana, caracterizada como a autêntica expressão da nação germânica. Ademais, Hitler é conhecido como um dos homens mais poderosos que o mundo já conheceu, muito embora ele confidenciasse, no início de sua carreira, que não se sentia com poder algum.

O que percebemos nestes três casos ? O primeiro fez de tudo para levantar e polir a imagem de uma nação já transfigurada do seu brilho anterior; o segundo afundou-se por conta de ter se investido como representante de uma nação; o terceiro afundou praticamente quase todo o mundo por conta de ter levado até a última instância a soberania de uma nação e de uma raça sobre as outras. Três vidas completamente diferentes – cujo desenho tem, no entanto, a mesma forma, isto é, se afunila em torno do tema hierárquico e social ou, dito de outra forma, em torno do tema do poder.

Uma pergunta, então: quem são estas pessoas que, ao longo da vida, tomam decisões justamente por conta do seu papel dentro da sociedade? Quem são estas pessoas que sempre mudam o rumo e a direção da própria vida por conta do poder vigente e por conta do próprio papel social? E mais: quem são estas pessoas cujo desnível ou cuja deformidade biográfica é determinada por uma experiência de natureza hierárquica, revelando uma grande contradição que o indivíduo assume com relação a este tema? Afinal, há tantas hipóteses e forças em jogo na estruturação da personalidade que levariam um ser humano a agir desta maneira, não? No entanto, é curioso notar que, no caso destes três exemplos comentados brevemente, todos tinham o planeta Saturno no ápice do seu percurso no céu: na Casa Dez.

Seria apenas uma coincidência? Pelos estudos e investigações que empreendemos, estamos convencidos que não. Afinal, em todas estas biografias, testemunhamos a razão humana se deparando com as exigências e pressões sociais, ora montando saídas e alternativas para problemas desta natureza, ora se encontrando detido e amarrado por elas próprias – como se fosse um tiro pela culatra. Ou como Édipo, que não sabia que ele próprio era o autor da própria desgraça.

O propósito mesmo da análise biográfica - que vê a vida inteira do sujeito como conseqüência de uma ótica particular que a abarca e determina - é detectar a sua cosmovisão pessoal, ou melhor, as perspectivas muito pessoais que ele nutre sobre a vida. Aliás, a premissa fundamental do que está sendo exposto é exatamente esta: tudo o que vivemos e experimentamos está diretamente ligado a nossa ótica pessoal, a nossa perspectiva de vida, seja esta clara ou obscura.

LIMITE E VALOR DO DIAGNÓSTICO ASTROCARACTEROLÓGICO


A reabsorção das circunstâncias é o destino concreto do homem.
Ortega Y Gasset

Devemos lembrar que o indivíduo do qual a Astrocaracterologia fala é um indivíduo abstrato, ideal, e não um indivíduo de carne e osso. Ele representa o modelo ou a figura sonhados por alguém, aquilo que se torna o objeto da sua mais alta ambição espiritual e afetiva. Por isso, jamais poderemos dizer que o mapa astrocaracterológico descreve o que somos mas, sim, o que pretendemos ser - e isto se nos esforçarmos para tal ou se tivermos, digamos, sorte. Afinal, a força dos acontecimentos pode ser muito mais forte do que a nossa determinação caracterológica.

Vemos, assim, que esta determinação de base e inata nem sempre se torna a expressão final e literal de uma vida e de um destino humano. Isto só acontece em casos muito privilegiados, em que o indivíduo:

· se torna o autor dos acontecimentos, pela força da sua vontade;
· é auxiliado pelas circunstâncias momentâneas e históricas;
· é auxiliado pela sorte.

Desse modo, entre aquilo que é ditado pela própria natureza e as circunstâncias pode se estabelecer tanto uma zona de atrito como de harmonia, sendo que a boa ou má adaptação talvez dependa também de características que já estejam ditadas na própria natureza. Deve-se, portanto, encontrar um encaixe entre as circunstâncias externas e a forma individual interna; deve-se encontrar uma resolução dialética entre o que se é e as circunstâncias, sendo um destino a resultante de ambos fatores.

O curioso é que, mesmo às cegas, estamos tentando construir a nossa vida e escrever a nossa história tal como exige nossa determinação caracterológica. Neste sentido, o pleno sucesso deste empreendimento talvez esteja baseado numa consciência redobrada que o indivíduo tenha de si mesmo, isto é , do seu caráter, do seu projeto de vida e de todos os alicerces que o sustentam.

Daí a importância e o valor do diagnóstico astrocaracterológico.

BIBLIOGRAFIA:

[1] O CARÁTER COMO FORMA PURA DA PERSONALIDADE , Olavo de Carvalho, Ed. Astrocientia, 1992
[2] PERSONALIDADE, PADRÕES E DESENVOLVIMENTO, Gordon Allport, Ed Herder, 1969
[3] LE DIAGNOSTIC DU CARACTÉRE, Ludwig Klages, PUF, Bibliotheque Scientifique Internationale, 1949
[4] do vocábulo grego charakter, que significa impressão, gravação; do verbo grego charassein, designando o ato de agudizar, riscar, esculpir, o que se aplicava a princípio a todo signo (de escrita, astronômico), sendo utilizado depois para designar coisas muito especiais. Representa, portanto, signos distintivos mas que geralmente parecem ter vida própria e uma certa importância mágica. Isto nos conduz, por graus, ao emprego atual desta palavra: cunho, marca, especificidade; propriedade ou qualidade inerente a um ente e que o distingue dos demais; a forma específica de cada coisa
[5] se mobiliza tanto intelectualmente quanto afetivamente ou volitivamente, dependendo da natureza do planeta aí localizado.
[6] PSICOLOGIA DA ATIVIDADE SEGUNDO ALBERTO MAGNO, Padre Michaud- Quantin (tradução pessoal de Joel Nunes dos Santos)
[7] ALQUIMIA DA FELICIDADE PERFEITA, Mohieddin Ibn’ Arabi, Ed. Landy, 2002
[8] A inteligência racional é demarcada pela casa astrológica em que o planeta Saturno se encontra.
[9] DE LA CULTURA Y SUS ARTIFICES, de Honório Delgado, Aguilar, 1961